sexta-feira, 1 de agosto de 2014

ATANÁSIO DE ALEXANDRIA: O DEFENSOR DA FÉ CRISTÃ


Atanásio, um dos maiores pais da Igreja primitiva, nasceu em Alexandria por volta do ano de 295 d.C., provavelmente de pais não cristãos e de língua grega, o que lhe deu ao menos a possibilidade de crescer e aprender as primeiras letras longe da última perseguição que assolou os cristãos egípcios entre os anos 303 e 312, embora aparentemente aquilo tivesse afetado de alguma forma a sua infância e adolescência. Após uma vida à qual nunca faltaram emoções e reviravoltas profundas, veio a falecer na sua mesma Alexandria no dia 2 de maio de 373.
Teria vivido, portanto, quase 80 anos, o que era uma expectativa de vida muito acima da média da época. Viveu intensamente e deixou um legado dos mais valiosos para a consolidação do cristianismo no Império Romano. Quanto à sua infância, entretanto, Gregório Nazianzeno, em sua Oratio (21,6), diz que “ele foi educado, desde o começo, nos hábitos e nas práticas religiosas, após um breve estudo de literatura e filosofia, de maneira que ele não podia ser considerado como incapacitado para esses assuntos, ou ignorante em matérias as quais ele estava determinado em desprezá-las. Pois a sua alma generosa e solícita não podia ficar ocupada com vaidades, como atletas despreparados, que socam o ar ao invés dos seus adversários e perdem o prêmio. Através da meditação em cada um dos livros do Velho e do Novo Testamento, com uma profundidade que até então ninguém tinha aplicado a um só deles, ele cresceu rico em contemplação e em esplendor de vida, combinando-os de maneira marvilhosa num laço dourado que poucos conseguem alcançar; usando a vida como uma guia de contemplação, e a contemplação como o selo da vida.”[1] Ainda que pouco se saiba desse período, aparentemente Atanásio teve algum tipo de influência cristã na sua formação. A sua produção literária na fase adulta indica que é muito provável que ele tenha tido algum tipo de treinamento filosófico, especialmente em Homero, Demóstenes, Platão, bem como outros platônicos posteriores, o que mostra a importância que deu à cultura grega. Entretanto, parecia também ser versado pelo menos na língua copta falada pelo povo egípcio da época, o que lhe despertou o interesse inclusive para escrever, posteriormente, “Vida e Conduta de Santo Antão”, sobre o padre eremita do deserto que marcou tanto o início da igreja cristã no Norte da África. Já na juventude e no início da idade adulta, aprenderá tanto da fonte do bem, representada por Alexandre, bispo de Alexandria (a quem sucederia no patriarcado local), como na fonte do mal, cujo maior símbolo foi Ário e sua heresia que ameaçou as estruturas do cristianismo. Foi contemporâneo, portanto, de homens que estiveram em lados opostos do grande combate que se travou sobre a natureza de Cristo, e – ao tomar o partido da ortodoxia – deixou seu nome gravado para sempre no rol dos heróis da fé. Hubertus R. Drobner tem uma versão curiosa sobre os primeiros passos de Atanásio na fé:
Maior probabilidade pode ser atribuída à “História dos patriarcas de Alexandria”, de Severo Ibn al-Muqaffa (PO I/4, 407s) conservada em árabe. Atanásio, assim relata esta história, seria filho de uma nobre e rica viúva de Alexandria, que, depois de seu filho haver crescido, teria insistido para que contraísse matrimônio, a fim de assumir os bens do pai. Mas como Atanásio não mostrasse para isso a mínima inclinação, sempre de novo ela teria enviado belas jovens ao seu quarto de dormir, para fazê-lo interessar-se pelo casamento e pela vida civil. Mas, quando despertava, Atanásio sempre enxotava as moças. Desesperada, a mãe teria procurado um mago conhecido na cidade, o qual, depois de conversar com Atanásio, teria comunicado à mãe que seus esforços não poderiam obter êxito, porque seu filho se dedicara ao cristianismo, mas que mesmo lá ele haveria de ser um grande homem. Então, para não perder o filho, ela o teria levado ao bispo Alexandre, que os teria batizado a ambos, mãe e filho. Após a morte da mãe Alexandre teria recebido e educado Atanásio como filho, e mais tarde o teria ordenado diácono, tomando-o como seu secretário.[2]
Seja lendário ou não esse relato, tudo indica que a formação cristã de Atanásio se processou de forma rápida e consistente, já que aos 17 anos de idade o patriarca Alexandre de Alexandria o nomeia para o cargo de leitor da igreja. Em 318, já aos 23 anos de idade, Alexandre o promove a diácono e secretário episcopal, isso numa época em que Ário já estava em uma das igrejas de Alexandria dando vazão a suas ideias polêmicas sobre a divindade de Jesus Cristo. A controvérsia toma tal proporção que Alexandre convoca um sínodo local, ao qual compareceram cerca de 100 prelados da região, que termina por condenar as ideias de Ário, expulsando-o da Igreja em 321. Eusébio de Nicomédia então o recebe e passa a protegê-lo, e a polêmica chega aos ouvidos de Constantino, que – preocupado com a unidade da Igreja que era o cimento do seu império – tenta apaziguar os ânimos, enviando Ósio de Córdoba à região na tentativa de mediar a crise, com uma carta pessoal sua endereçada aos dois principais contendores, em que diz que considerava aquilo “uma inútil disputa entre teólogos”[3], mas que não consegue fazê-los chegar a um acordo satisfatório a todas as partes envolvidas. Diante do impasse, não há outra solução senão convocar o concílio ecumênico de Niceia, que se realizaria no ano 325 e no qual estariam representados todos os bispos da cristandade, para se dirimir finalmente a questão. Agendado o concílio, começa então uma verdadeira guerra diplomática (para os padrões da época) dentro da Igreja. O próprio Ósio, entretanto, participaria de um concílio local em Antioquia pouco tempo antes de Niceia, no qual seriam condenados Eusébio de Cesareia e outros partidários de Ário. Este ensinava “uma doutrina que se pode sintetizar nestas Três frases: ‘O Verbo não é eterno nem tem a mesma natureza do Pai. Foi criado no tempo por Deus Pai. Só por metáfora é que lhe chamamos Filho de Deus’. Ário e seus discípulos separam, assim, o filho do Pai. Afirmam que o Filho não existia antes de ter sido gerado. Se houve, portanto, um tempo em que ele não existia, ele não é coeterno ao Pai. Ele, o filho, é a primeira e a mais sublime das criaturas, uma espécie de ‘segundo deus’ (déutero theós) mas é alheio ao Pai quanto à essência, como a vinha ao vinhateiro ou o navio ao construtor”[4].
Em sua Oratio (cap.6), Gregório Nazianzeno dá um destaque enorme à figura de Atanásio durante o concílio de Niceia, que se realizou entre os dias 20 de maio e 25 de agosto de 325. Chega a dizer que o diácono teve voz ativa durante as deliberações, o que é difícil de acreditar já que apenas os bispos tinham esse direito. É certo, entretanto, que Atanásio teve muita influência na formulação das ideias de seu bispo Alexandre, que antes da abertura dos trabalhos do concílio, envia uma carta encíclica aos seus pares, fazendo questão de ressaltar a verdadeira dimensão da controvérsia. Nela, há claros sinais da gênese do pensamento de Atanásio, que o acompanharia por todas as muitas polêmicas cristológicas que ainda iria enfrentar durante sua longa vida:
Quem ouviu, alguma vez, semelhantes coisas? Quem, agora que as ouve, não tapará os ouvidos para impedir que essas ignóbeis palavras cheguem até eles? Quem, ouvindo João dizer: “No princípio era o Verbo” (Jo 1,1), não condenará os que dizem “Houve um tempo em que ele não era”? Quem, ainda, ouvindo estas palavras do Evangelho “Filho único de Deus” (Jo 1,18) e “Tudo foi feito por meio dele” (Jo 1,3), não detestará os eu afirmam que o Filho é uma das criaturas? Como pode ele ser igual ao que foi feito por ele? Como pode ser Filho único aquele que elencamos com todas as coisas, na categoria destas? Como viria ele do nada, ao passo que o Pai diz: “De meu seio, antes da aurora, eu te gerei” (Sl 109,3)? Como seria ele, em sua substância, diferente do Pai, ele que é a imagem perfeita e o esplendor do Pai (2 Cor 4,4; Hb 1,3) e que diz: “Quem me vê vê o Pai” (Jo 14,9)? Se o Filho é o Verbo e a Sabedoria do Pai, como teria havido um tempo em que ele não existia? É como se dissessem que houve um tempo em que Deus não tinha Palavra nem Sabedoria. Como está sujeito à transformação e à alteração aquele que diz de si mesmo: “Eu estou no Pai, e o Pai está em mim” (Jo 10,38) e “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30), e que disse pelo profeta: “Vede-me; eu sou e não mudo” (Ml 3,6)? Mesmo que se pense que essa palavra pode ser dita pelo próprio Pai, seria agora, no entanto, mais oportuno, julgá-la dita por Cristo, porque, tornado homem, ele não muda, mas, como diz o Apóstolo, “Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje e pela eternidade” (Hb 13,8). Quem os leva a dizer que é por nós que ele foi feito, enquanto São Paulo diz: “Para ele e por ele todas as coisas existem” (Hb 2,10)? Quanto à sua afirmação blasfema de que o Filho não conhece perfeitamente o Pai, não seria de causar surpresa, pois, uma vez que eles se decidiram a combater Cristo, desprezam também as palavras do próprio Senhor que diz: “Como o Pai me conhece, eu também conheço o Pai” (Jo 10,15).
(a partir da tradução de I. Ortiz de Urbina, Nicée et Constantinople, 1963, pp. 250-251)[5]
Não há estatísticas exatas sobre o número de bispos que afluíram a Niceia para o primeiro grande concílio ecumênico da Igreja Cristã. Estima-se entre 250 a pouco mais de 300 o número de participantes com direito a participação ativa e a voto nas deliberações. Silvestre I, bispo de Roma, foi um dos ausentes, mas mandou representantes. Isto se devia basicamente ao fato de que o cristianismo era majoritário no Oriente e ainda minoritário no Ocidente. Atanásio e Ário não eram bispos e, portanto, não podiam participar do conselho, tendo sido esse último representado por seu protetor Eusébio de Nicomédia. No campo contrário, Alexandre de Alexandria se via em posição de fraqueza não tanto pela oposição dos arianos, mas porque poucos bispos sabiam exatamente da gravidade do que iria ser discutido no conclave. Todos, de certa maneira, já estavam preocupados em formular um dogma que, por descuido de palavras, favorecesse os sabelianistas, discípulos de Sabélio (falecido em 215 d.C.) que defendiam uma espécie de unitarismo, em que o Filho e o Espírito Santo seriam “modos” de manifestação de Deus, e não Pessoas co-substanciais com o Pai entre si, daí também ser chamado de “modalismo”. Os sabelianistas, por seu lado, provavelmente perceberam que a posição de Ário era muito mais grave e potencialmente já condenada, e trataram de não fazer alarde sobre suas próprias posições, a fim justamente de que pudessem depois distorcer o resultado do concílio a seu favor, o que por sinal terminou acontecendo. Havia, além disso, a presença do imperador em pessoa, mostrando a todos que era do seu mais profundo interesse uma solução pacífica o menos desagregadora possível. Não se sabe exatamente como é que as sessões de discussão se desenvolveram, mas tudo indica que Eusébio de Nicomédia tenha feito uma exposição inicial dos ensinos dele próprio e de seus “companheiros lucianistas” (um eufemismo para “arianos”) e aí ele foi muito mal ao advogar escancaradamente uma espécie de subordinação do Filho ao Pai, o que escandalizou a maioria dos bispos presentes. Mal a discussão começara e a causa ariana estava perdida por uma razão muito simples de entender: se o Filho não era tão Deus como o Pai, então não houvera sacrifício válido do Salvador, já que qualquer outra criatura poderia ter sido sacrificada no seu lugar, e isto era um pensamento em relação a Jesus extremamente ofensivo para a Igreja cristã. Toda a sua pregação de salvação em Cristo, a prevalecer essa ideia, cairia por terra. Alexandre, sempre assessorado por Atanásio, havia sido muito melhor diplomata que seus oponentes. A solução encontrada após longos debates foi estabelecer o Credo (que leva o nome do concílio) em que ficava claro que Jesus Cristo é “Filho de Deus, gerado do Pai, Unigênito, isto é, da substância do Pai, deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não-feito, de uma substância com o Pai, mediante o qual todas as coisas vieram a existir”. Curiosamente a palavra aqui traduzida por “substância” em “da substância do Pai” vem do grego homoousios (“consubstancial”) e foi sugerida pelo próprio Constantino. Quase todos os presentes assinaram o Credo de Niceia, com exceção de Ário e dois bispos líbios (uma das razões pelas quais se imagina que Ário também era líbio), que foram condenados e exilados na Ilíria. Eusébio de Nicomédia e Teógnis de Nicéia, que continuaram no erro após o concílio, depois foram depostos e exilados na Gália. Os livros de Árioforam queimados em razão dos anátemas proferidos na ocasião: “Os anátemas do concílio estendiam-se a todos aqueles que alegavam “que houve um tempo em que ele não existia”; “antes da Sua geração Ele não existia”; “Ele foi feito do nada”; “o Filho de Deus é de outra subsistência ou substância”; e “o Filho de Deus [é] criado ou alterável ou mutável”.”[6]. Como comenta Louis Berkhof:
Além das partes contendoras, havia um grande partido intermediário, que realmente constituía a maioria, sob a liderança de Eusébio de Cesaréia, o historiador da Igreja, sendo que aquele partido também era conhecido como partido origenístico, pois se fundamentava sobre os princípios de Orígenes. Esse partido tendia em favor de Ário, pois opunha-se à doutrina que o Filho é da mesma substância com o Pai (homoousios). Ele propusera uma declaração, redigida previamente por Eusébio, que concordava em tudo com o partido de Alexandre e Atanásio, com a única exceção da doutrina acima nomeada; e sugeria que a palavra homoousiosfosse substituída pelo termo homoiousios, para que ensinasse ser o Filho de substância similar à do Pai. Após considerável debate, finalmente o Imperador lançou o peso de sua autoridade na balança, dando a vitória ao partido de Atanásio. O concílio adotou a seguinte declaração a respeito da questão em pauta: “Cremos em um Deus, o Pai Todo-Poderoso, Criador das coisas visíveis e invisíveis. E em um Senhor Jesus Cristo, gerado, não criado, sendo da mesma substância (homoousios) com o Pai”, etc. Foi uma declaração inequívoca. Não se poderia torcer o vocabulário homoousios para que significasse outra coisa qualquer do que o fato de que a essência do Filho é idêntica à do Pai. Situava o Filho no mesmo nível com o Pai, como um Ser incriado, e reconhecia-o como autotheos[7].
Como a redação do Credo de Niceia permitia que, além dos sabelianos, outros grupos como o de Eustáquio de Antioquia e de Marcelo de Ancira (atual Ancara na Turquia) se sentissem autorizados a fazerem interpretações muito particulares de tipos velados de monarquianismo, em que o Filho teria algum grau de subordinação ao Pai. Aos poucos, essas desavenças teóricas foram minando os resultados do Concílio de Niceia, e por volta do ano 328, Eusébio de Nicomédia e Teógnis de Niceia foram autorizados a voltarem do exílio. Eusébio tinha amigos próximos na família imperial, e fazia de tudo para influenciar a visão moderada de Constantino, que gostava muito de botar panos quentes nas controvérsias eclesiásticas e arranjar um meio de acomodar todas as correntes contrárias no seio da Igreja. Os defensores do concílio predominaram por cerca de 5 anos após o seu término, afinal Roma, Alexandria e Antioquia eram presididas por fortes apoiadores de suas conclusões. Os arianos trataram, então, de se movimentarem politicamente e fizeram de tudo para mostrar ao imperador que não eram tão obstinados assim e queriam contemporizar. Existe a suposição, não confirmada, de que tenha havido um segundo sínodo em Niceia no ano 327, com muito menor afluência de bispos, que de alguma maneira teria reabilitado Ário, o que parece não corresponder à verdade dos fatos[8]. Ário escreveu uma carta ao imperador, dizendo-se pronto a aceitar um compromisso com a ortodoxia, subscrevendo o Credo de Niceia, fazendo com que Constantino fosse paulatinamente cedendo aos seus apelos.
Havia um problema, entretanto. Alexandre, o grande defensor da ortodoxia em Alexandria e no mundo cristão da época, morre em 17 de abril de 328, mas antes de morrer, segundo consta, teria já designado Atanásio como seu sucessor. É importante lembrar que a situação da igreja em Alexandria era explosiva. Além do perigo ariano, havia também melicianos[9] que ainda eram influentes na região, e Atanásio, além de jovem para o episcopado, era o inimigo comum deles. O maior inimigo deles até então, Alexandre, havia morrido, e os dois partidos queriam retomar o controle da sede patriarcal egípcia antes que um inimigo ainda mais temido, Atanásio, se assentasse na cadeira de bispo. Os aliados da ortodoxia foram mais rápidos, entretanto, e em 8 de junho consagraram Atanásio como patriarca de Alexandria. Sempre é importante lembrar que, nessa época, o bispo não era nomeado pelo bispo de Roma, como querem fazer crer os católicos romanos, mas eram escolhidos por seus pares da região. Entretanto, a pressa fez com que esse ato se processasse de maneira extremamente informal, e houve quem questionasse a sua validade (é fácil imaginar quem tinha interesse em ver Atanásio bem distante de Alexandria). A discussão chegou até Constantino, que, numa dessas atitudes misteriosas que contrariavam a índole e o pendor então ariano do imperador, confirmou Atanásio como bispo de Alexandria. É impressionante como Constantino, apesar de todas as críticas e teorias da conspiração que o envolvem, sempre tomou decisões corretas (e contrárias ao que pensava naquele preciso momento) quando se tratava de proteger a ortodoxia da fé cristã. Talvez Constantino imaginasse que Atanásio lhe seria grato pela sua concordância com sua consagração, e receberia Ário de braços abertos às portas da sede patriarcal, mas ao novo bispo importava antes agradar e obedecer a Deus que aos homens (Atos 5:29), mesmo que esse homem fosse um imperador romano poderoso como Constantino era. Atanásio se recusou terminantemente a qualquer tipo de reconciliação com Ário, bem como tratou de percorrer toda a sua jurisdição consolidando sua autoridade e pregando contra os arianos e melicianos, bem como procurando afastar suas ovelhas de qualquer possibilidade de contaminação com as heresias que esses grupos pregavam. Esses, por seu lado, trataram de se opor a Atanásio de todas as formas possíveis e imagináveis, tendo os melicianos chegado a nomear um antibispo[10], e ambas as correntes heréticas não cansavam de acusá-lo com as mais terríveis calúnias que lhe viessem a cabeça: corrupção, traição e até o assassinato do bispo meliciano Arsênio. Por ironia do destino, antes de qualquer possibilidade de investigação ou julgamento, Atanásio apresentou Arsênio vivo, são e salvo. Talvez não tão salvo assim...
Desnecessário dizer, portanto, que Constantino não via a hora de se livrar de Atanásio, ante a oposição reiterada desse às suas ordens. Sobre essa desavença entre os dois, o historiador Paul Johnson reproduz o trecho de uma carta enviada pelo imperador ao bispo por volta do ano 328: “como você conhece meus desejos, ore para admitir livremente todos que desejarem ingressar na igreja. Caso chegue aos meus ouvidos a notícia de que você impediu alguém de tornar-se membro, imediatamente enviarei um oficial para depô-lo e enviá-lo para o exílio”[11]. Houve, portanto, um sínodo marcado especialmente para puni-lo na Cesareia no ano 334, mas Atanásio não compareceu. No ano seguinte, o imperador apresentou nova acusação contra o patriarca de Alexandria, dizendo que ele teria ameaçado interromper os abastecimentos de trigo do Egito para Roma, e no sínodo de Tiro (em 335), presidido pelo bispo então eusebiano Flacilo de Antioquia (influenciado pelos dois Eusébios, o de Nicomédia e o de Cesareia), condena Atanásio e Constantino o exila em Trier (em 7 de novembro de 335). Antes, entretanto, em 17 de setembro de 335, o Sínodo de Jerusalém havia resolvido restaurar Ário à comunhão “em presença do imperador Constantino e dos dois Eusébios, depois dele haver apresentado uma profissão de fé satisfatória, e exigiu das igrejas de Alexandria e do Egito que dessem o cisma por encerrado”[12]. O imperador então determina que Ário reassuma suas funções com outro Alexandre, patriarca de Constantinopla. Este, contrariado, teria orado fortemente pedindo a Deus que Ário morresse antes que isso ocorresse. A reza deve ter sido braba, pois na véspera do dia em que isso aconteceria, já no ano 336, Ário morre em condições misteriosas. Alguns historiadores ainda criaram versões míticas, tentando atribuir sua morte súbita a algum tipo de castigo divino, mas a causa mais provável, dado os costumes daquele tempo, é que ele tenha sido envenenado. Terminava assim a carreira do maior heresiarca que a Igreja primitiva conheceu. Constantino morre em 22 de maio de 337, mas dizem os historiadores que ele teria esperado até os últimos dias de vida para ser batizado, ato que foi realizado no seu leito de morte pelo bispo ariano Eusébio de Nicomédia, em outra dessas muitas ironias do destino que cercam os personagens da controvérsia ariana.
O império romano é dividido então entre os três filhos de Constantino: Constantino II (a quem coube a Europa Ocidental e o norte do atual Marrocos na África), Constâncio II (Ásia Menor, Oriente Médio e Egito) e Constante (Europa Central, Itália e Norte da África até a Líbia). No princípio, Constantino II era tutor de seu irmão menor Constante, e comandava o território que cabia a este último, mas uma vez que Constante atingiu a maioridade, seu irmão mais velho não quis lhe devolver o controle da parte que lhe cabia, pelo que houve uma guerra entre os dois, e Constantino II morre em 340, na batalha de Cervenianum, na Aquileia, ficando Constâncio como imperador também do território que havia sido legado pelo pai ao finado irmão. Tréveris (atual Trier e – curiosamente – cidade natal de Karl Marx), onde Atanásio estava exilado, ficava no nordeste da então Gália (no sudoeste do território hoje pertencente à Alemanha), nos limites entre o Império Romano e os povos germânicos, sob a jurisdição de Constantino II, que permitiu então que o bispo proscrito voltasse para Alexandria, convocando um novo sínodo para Tiro em 338, a fim de confirmar sua decisão e anular a condenação anterior. Os eusebianos provocaram uma rebelião civil em Alexandria , colocando Gregório da Capacócia à força no patriarcado local e Atanásio teve que abandonar a cidade em 18 de março de 339, buscando imediatamente refúgio em Roma, onde o papa Júlio o acolheu e tomou seu partido, buscando restaurá-lo a bispo de Alexandria em 341, mas Constâncio II, imperador do Oriente que tinha jurisdição sobre Alexandria, reuniu um concílio em Antioquia para manter a condenação de Atanásio. Um novo concílio foi realizado em Sérdica nos anos de 342 e 343, buscando apaziguar as posições do Oriente e do Ocidente, sem sucesso. Gregório capadócio não teve vida fácil em Alexandria, já que havia tomado posse do patriarcado com a ajuda da milícia imperial, e sua nomeação era vista como irregular pelos bispos egípcios porque ele havia sido ordenado fora da sede patriarcal, vindo a morrer ali mesmo em 25 de junho de 345. Sob pressão de seu irmão, o co-imperador Constante, Constâncio II se absteve de substitui-lo e, a contragosto, chamou Atanásio de volta. Este resistiu um pouco ainda, mas acabou aceitando e, em 21 de outubro de 346, fez seu retorno triunfal a Alexandria, sendo muito bem recebido por sua antiga igreja.
Começa aí, então, a chamada “década de ouro” de Atanásio, período em que pode se dedicar a seus trabalhos pastorais, literários e intelectuais com toda a genialidade que lhe era característica. Em 348 escreve “Apologia contra os Arianos”, uma obra em três livros em que narra a sua perspectiva sobre a controvérsia ariana. Entre 350 e 351 escreve a “Epístola sobre o Decreto do Concílio de Niceia”, em que faz uma defesa apaixonada do termo homoousios (“consubstancial”, “da mesma substância”) para a relação entre Deus Pai e Deus Filho. A relativa calma é interrompida pela preocupação com o assassinato de seu protetor Constante em 18 de janeiro de 350 e a unificação do império debaixo do comando de seu inimigo Constâncio II no mesmo ano. O novo imperador ainda passou 3 anos preocupado com o usurpador Magnêncio até batê-lo em 353, e a partir daí tratou de uniformizar a visão religiosa do império de acordo com suas tendências arianas. Atanásio foi condenado então em dois concílios ocidentais, em Arles (353) e Milão (355). Diante da resistência alexandrina, ele consegue fugir de uma tentativa de prisão levada a cabo pelo general Siriano na igreja de São Teonas em 8 de fevereiro de 356, e se esconde no deserto, onde conhece os eremitas que por lá vagavam, onde escreve várias cartas e alguns livros em sua defesa, e encontra inspiração para escrever “Vida e Conduta de Santo Antão”, um tratado não só biográfico sobre Antão, mas um registro histórico essencial para se entender o que foi o monaquismo (os “padres do deserto”) no início da Igreja cristã. Entretanto, o historiador Paul Johnson aponta outra razão para Atanásio buscar um relacionamento mais próximo com os padres do deserto: eles “falavam copta, como as massas egípcias, e traduziam em termos familiares, além de popularizar, sob a forma de bordões, as complexas formulações dos especialistas teologais”[13]. Assim, mesmo no exílio, Atanásio buscava uma forma de comunicar as grandes verdades doutrinárias da fé cristã de maneira que todo o povo sob seus cuidados as entendesse.
Outro capadócio, de nome Jorge (não o santo do dragão) é nomeado bispo de Alexandria em 24 de fevereiro de 357, mas se porta da maneira tão violenta contra os partidários de Atanásio e mesmo os pagãos da cidade que é expulso de lá a 2 de outubro de 358, regressando após 3 anos, mas para sua infelicidade, seu protetor Constâncio II morre alguns dias antes dele reassumir sua sede patriarcal, em 26 de novembro de 361, pelo que foi vítima de nova rebelião popular conjunta de pagãos e cristãos que o encarceram na véspera do Natal daquele ano, mas a multidão revoltada o retira à força da prisão e o linchou, juntamente com dois funcionários da administração imperial, tal era o ódio que ele despertava na população. Sabedor da situação nada favorável aos arianos em Alexandria, o novo imperador Juliano revogou o decreto de exílio de Atanásio no bojo de uma decisão íntima sua que era – na verdade – restaurar o paganismo no Império, e o grande bispo retornou uma vez mais à sua cidade, em 21 de fevereiro de 362. Entretanto, por se envolver em nova disputa contra o ortodoxo Melécio, que era apoiado por Basílio de Cesareia, desta vez em Antioquia, onde Atanásio defendia a nomeação do presbítero também niceno Paulino àquela outra sede patriarcal, isto porque Melécio era apoiado pelo amigo Acácio de Cesareia, que havia sucedido Eusébio naquela igreja e tinha sido um dos perseguidores eusebianos de Atanásio . Esse novo movimento político-religioso de Atanásio – que agora não tinha um substrato ariano - não foi bem recebido por Juliano, que considerava o bispo de Alexandria o seu “maior inimigo”[14] e novamente o exilou 8 meses após havê-lo readmitido, em 24 de outubro de 362. Entretanto, nesse curto período, Atanásio convocou um sínodo que representou um golpe mortal nas pretensões arianas, como conta Justo L. González:
A falta de precisão nos termos empregados nessa discussão foi uma das dificuldades que a igreja do século 4º encontrou na tentativa de esclarecer o relacionamento entre o Pai e o Filho. No Ocidente, uma terminologia mais fixa já havia sido alcançada, e o termo “substância” era usado para se referir à divindade única e comum, enquanto que a individualidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo era expressa por meio do termo “pessoas”. O Oriente, por outro lado, não havia a mesma precisão e firmeza na terminologia. Para os teólogos orientais, ousia e hypostais eram sinônimos – e como tais eram usadas nos anátemas acrescentados ao credo niceno – e não havia termo que pudesse traduzir adequadamente “persona” do latim, pois o grego “prosopon” poderia ensejar interpretações sabelianas. Portanto, quando os defensores nicenos falavam de uma única ousia, muitos bispos orientais viam isto como uma tentativa de reintroduzir o sabelianismo. E quando os bispos mais conservadores – neste caso os homoiousianos – falavam de uma dualidade de ousiai, os nicenos pensavam que isto era meramente uma nova forma de arianismo. [...]
Foi nesta conjuntura que Atanásio deu um passo decisivo que levaria finalmente à vitória da fé nicena: em um sínodo reunido em 362 d. C., foi declarado que as diferenças verbais não eram importantes, contanto que o significado fosse o mesmo. Assim, ambas as frases “três hipóstases” e sua contraparte “uma hipóstase” são aceitáveis contanto que a primeira não seja interpretada de tal modo que apoie o triteísmo ou a última de um modo sabeliano. Com esta decisão, o grupo niceno abriu caminho para uma aliança com a maioria conservadora. Começava agora um longo processo de esclarecimento do significado dos vários termos, com vistas a alcançar uma fórmula aceita por todos e a consequente condenação definitiva do arianismo.
A importância do sínodo de Alexandria de 362 d. C. não está limitada a seu espírito conciliador, mas é devida também a sua posição quanto ao Espírito Santo. O arianismo, ao negar a divindade absoluta do Verbo, era levado à mesma conclusão com relação ao Espírito Santo. E os bispos reunidos em Niceia, ao concentrarem sua atenção na divindade do Verbo – que era o ponto crucial da controvérsia – não deram muita importância à questão do Espírito; simplesmente, subscreveram a frase: “e no Espírito Santo”. Portanto, o Concílio de Niceia não discutiu a questão trinitariana como um todo. Durante os anos entre este Concílio e o sínodo alexandrino de 362 d. C., porém, na tentativa de esclarecer e definir os assuntos em debate, muitos teólogos deram mais atenção à questão da divindade do Espírito Santo.[15]
Exilado de novo, Atanásio então proferiu uma pequena profecia que se tornou famosa: “É somente uma nuvenzinha e passará logo”. De fato, 8 meses depois, em 26 de junho de 363, Juliano é ferido mortalmente numa batalha contra os persas e seu sucessor, Joviano, era fiel aos cânones de Niceia, e determina o retorno de Atanásio a Alexandria. Só que, quando ele já havia regressado à sede patriarcal, Joviano morre desafortunadamente em 17 de fevereiro de 364, vítima do braseiro que estava dentro de seus aposentos fechados, e seu sucessor, Valentiniano, embora neutro em questões eclesiásticas, nomeia o irmão Valente, simpatizante da posição ariana, como imperador do Oriente, pelo que retomou os decretos de Constâncio II, tentando impor a visão herética à população de Alexandria. Desta vez, Atanásio dá um toque de espontaneidade a seu forçado vai-vém alexandrino e se afasta pacificamente de sua diocese em 5 de outubro de 365. O imperador, entretanto, expede um edito em 1º de fevereiro de 366, permitindo-lhe voltar. Atanásio tem agora cerca de 70 anos de idade, e a partir daí não é mais perturbado por ninguém. Em 367, Atanásio mostra a sua importância em outra seara, a formação do cânon do Novo testamento, quando apresenta uma lista dos livros canônicos em suas “Cartas Pascais”. Dirige sua amada sede patriarcal apor mais 7 anos, até que na noite de 2 ou 3 de maio de 373, quando imaginava alguma maneira de auxiliar Basílio de Cesareia (que insistia na unificação da igreja de Antioquia), parte para os braços do Senhor após uma longa, conturbada mas abençoada vida de serviço cristão e fortalecimento dos irmãos na verdadeira fé. Como diz Jacques Liébaert, “se a cristandade foi capaz de superar uma das mais graves provas de sua história, é em boa parte a esse homem intransigente e inflexível, firme na sua crença, a esse bispo antes de tudo preocupado com o bem da Igreja, que ela o deve”[16]. Sucede-o seu discípulo valioso Dídimo, o Cego, que havia perdido a visão aos 4 anos de idade, mas era dono de uma memória prodigiosa, e que manterá a ortodoxia em Alexandria durante toda sua vida, num período de paz que Atanásio não chegou a experimentar, mas contribuiu decisivamente para que ocorresse.


Notas

1. Gregory Nazianzus, Select Orations, Sermons, Letters; Dogmatic Treatises, transcrito in Nicene and Post-Nicene Fathers, 2nd Series, ed. P. Schaff and H. Wace, (repr. Grand Rapids MI: Wm. B. Eerdmans, 1955), VII, pp. 270-271
2. Hubertus R. Drobner, “Manual de Patrologia”, Petrópolis: Vozes, 2003, pp. 256-257
3. Giuseppe Alberigo (org.), “História dos Concílios Ecumênicos”. São Paulo: Paulus, 1995, p. 21
4. Introdução a “Santo Atanásio”. Coleção Patrística. São Paulo: Paulus, 2002, p. 11
5. Idem, op. cit., p. 139
6. Walter A. Elwell (org.), “Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã”. São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 106
7. Louis Berkhof, “A História das Doutrinas Cristãs”, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 80
8. Hubertus R. Drobner, op. cit., p. 219
9. Pedro era o patriarca de Alexandria entre 300 e 311, ano em que foi decapitado pela repressão de Diocleciano. Pedro passou boa parte do seu episcopado preso juntamente com vários outros líderes durante a última perseguição no Egito, que durou de 303 a 312, e Melício de Licópolis aproveitou a ausência do patriarca para rejeitar toda e qualquer reconciliação de cristãos – salvo por rebatismo - que haviam negado a fé diante da tortura e ameaça de morte, bem como tratou de nomear e ordenar novos bispos para as sedes vacantes de cada igreja sob a jurisdição de Alexandria, gerando um cisma na igreja. Num dos intervalos entre um cárcere e outro, Pedro reassumiu sua sede patriarcal e condenou Melício e seus seguidores, que, entretanto, continuaram fortes por algum tempo naquela região.
10. “Os melicianos, que haviam escolhido um antibispo, uniram-se depois com o partido ariano agrupado em torno de Eusébio de Nicomédia e tentaram conseguir a deposição de Atanásio através de processos criminais.” (Hubertus R. Drobner, op. cit., p. 257)
11. Paul Johnson, “História do Cristianismo”. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001, p. 107
12. Hubertus R. Drobner, op. cit., p. 219
13. Paul Johnson, op. cit., p. 115
14. Introdução a “Santo Atanásio”. Coleção Patrística. São Paulo: Paulus, 2002, p. 21
15. Justo L. González, “Uma História do Pensamento Cristão”. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. Vol. I, pp. 275-276
16. Jacques Liébaert, “Os Padres da Igreja [Séculos I – IV]”. São Paulo: Loyola, 2000, vol. 1, p. 167

CÂNONES DO CONCÍLIO DE NICÉIA


Os Cânones dos 318 Bispos reunidos em Nicéia da Bítinia (325 dC), tradução feita a partir da obra de Philip Schaff.
Cânon I:
Antigo epítome do cânon I: Eunucos podem ser recebidos entre os clérigos, mas não serão aceitos aqueles que se castram.
Se alguém foi operado por cirurgiões por causa de uma enfermidade, ou teve um de seus membros cortados por bárbaros, deixe-o ficar no clero. Mas se alguém cortou um de seus próprios membros quando estava bem de saúde, ele deve ser demitido mesmo que seja examinado depois de ser um clérigo. E de aqui em diante tais pessoas não deverão ser promovidas a cargos sagrados. Mas como é evidente, apesar disto ser válido para aqueles que contaminam a matéria e ousam cortar-se, se qualquer pessoa for castrada por bárbaros ou seus senhores, mas é considerado por outro lado digno, o Cânon admite tal pessoa no clero.
Cânon II:
Antigo epítome do cânon II: Aqueles que provieram do paganismo não poderão ser imediatamente promovidos ao Presbiterato, pois não é de conveniência um neófito sem uma provação de algum tempo. Mas se depois da ordenação constatou-se que ele anteriormente pecara, que seja afastado do Clero.
Por causa de muitas coisas, tanto por necessidade quanto por urgência de indivíduos, feitas de forma contrária ao cânon eclesiástico, então aqueles homens que vieram recentemente para a fé de uma vida gentílica, e foram catequizados há pouco tempo, foram conduzidos diretamente ao banho espiritual, e assim que batizados receberam um episcopado ou presbitério, parece bem que de agora em diante tal coisa não aconteça mais. Pois os catecúmenos precisam de mais tempo e um longo julgamento depois do batismo. A carta apostólica, também, é clara ao dizer "não neófito, para que não se ensoberbeça e venha a cair na condenação do Diabo" (1 Ti 3:6). Se, por outro lado, no curso do tempo algum pecado físico (por exemplo, animal) for encontrado contra a pessoa, e for exposta por duas ou três pessoas, deixe que esta pessoa seja demitida do clero. Quanto a qualquer um agindo contrariamente até aqui, tendo a audácia de fazer coisas contrárias ao grande concílio, ele mesmo se colocará em perigo de perder seu posto no clero.
Cânon III:
Antigo epítome do cânon III: Nenhum deles deverá ter uma mulher em sua casa, exceto sua mãe, irmã e pessoas totalmente acima de suspeita.
O grande concílio proíbe de forma geral qualquer bispo ou presbítero ou diácono, e qualquer outro que estiver entre o clero, o privilégio de ter uma subintroducta. A menos que ela seja uma mãe, ou uma irmã, ou uma tia, ou uma pessoa acima de qualquer suspeita.
Cânon IV:
Antigo epítome do cânon IV: Um bispo deve ser escolhido por todos os bispos da província ou, no mínimo, por três, apresentando os restantes seu assentimento por carta; mas a escolha deve ser confirmada pelo metropolita.
É mais adequado que um bispo seja instalado por todos aqueles em sua província. Mas se tal coisa é difícil ou por urgência das circunstâncias, ou por causa da distância a ser viajada, pelo menos três devem se encontrar em algum lugar e por seus votos combinados com aqueles que faltaram e se juntando à eleição por carta eles devem levar adiante a ordenação. Mas que a ratificação dos procedimentos seja confiada a cada metropolita.
Cânon V:
Antigo epítome do cânon V: Quem foi excomungado por algum bispo não deve ser restituído por outro, a não ser que a excomunhão tenha resultado de pusilanimidade ou contenda ou alguma outra razão semelhante. Para que esse assunto seja resolvido convenientemente, deverá haver dois sínodos por ano em cada província - um na Quaresma e o outro no outono.
Quanto àqueles que foram negados a comunhão pelos bispos de uma província particular, sejam eles membros do clero ou pertencentes a uma ordem leiga, deixe a opinião expressa no cânon prevalecer, prescrevendo que aqueles rejeitados por alguns não sejam recebidos por outros. Mas faça-se uma investigação sobre se eles foram ou não excomungados por causa de mente limitada, ou vontade de disputa ou qualquer outra coisa desagradável do Bispo. Para que então, uma investigação apropriada seja conduzida, parece bem que sínodos sejam mantidos a cada ano, duas vezes por ano, em cada província e em uma comum discussão mantida por todos os bispos da província reunídos para este propósito deixe tais questões serem discutidas. E ainda aqueles que admitidamente discutiram com o bispo pareceria melhor razoavelmente excluí-los da comunhão até tempo determinado pelo consentimento dos bispos, podendo ser melhor dar um voto mais filantrópico a seu favor. Sobre estes sínodos, que um seja feito antes da Quaresma, para que com a eliminação de pessoas de mente limitada, a dádiva seja dada a Deus em toda sua pureza, e a segunda seja mantida em algum tempo durante o outono.
Cânon VI:
Antigo epítome do cânon VI: O bispo de Alexandria terá jurisdição sobre o Egito, Líbia e Pentápolis; assim como o bispo Romano sobre o que está sujeito a Roma. Assim, também, o bispo de Antioquia e os outros, sobre o que está sob sua jurisdição. Se alguém foi feito bispo contrariamente ao juízo do Metropolita, não se torne bispo. No caso de ser de acordo com os cânones e com o sufrágio da maioria, se três são contra, a objeção deles não terá força.
Deixe os antigos costumes no Egito, na Líbia e em Pentápolis prevalescer, que o bispo de Alexandria tenha jurisdição sobre todos estas partes, desde que é este o costume para o bispo de Roma também. Da mesma forma com referência a Antioquia, e em outras províncias, deixe as igrejas reterem seus privilégios. E deve ser universalmente entendido que no caso de alguém ter sido eleito bispo sem a aprovação do metropolita, o grande sínodo prescreve que tal pessoa não se torne bispo. Se, contudo, dois ou três bispos por amor natural à contradição se oporem ao sufrágio comum do resto, sendo este razoável e de acordo com a lei eclesiástica, deixem o voto da maioria prevalescer.
Cânon VII:
Antigo epítome do cânon VII: O bispo de Aélia seja honorificado, preservando-se intactos os direitos da Metrópole.
Desde que o costume e a antiga tradição tem prevalescido que o bispo de Aélia (Jerusalém) deve ser honrado, deixe-o, salvando sua devida honra à Metrópolis, ter o próximo lugar de honra.
Cânon VIII:
Antigo epítome do cânon VIII: Se aqueles denominados Cátaros voltarem, que eles primeiro façam uma profissão de que estão dispostos a entrar em comunhão com aqueles que se casaram uma segunda vez, e a dar perdão aos que apostataram. E nessas condições, aquele que estava ordenado continuará no mesmo ministério, assim como o bispo continuará bispo. Àquele que foi Bispo entre os Cátaros permita-se que, no entanto, seja um corepíscopo ou goze a honra de um presbítero ou bispo. Não deverá haver dois bispos numa única igreja.
A respeito daqueles que se chamam cátaros, se eles voltarem para a Igreja Católica e Apostólica, o grande e santo Sínodo declara que aqueles que são ordenados continuem como se eles fossem do clero. Mas é necessário antes de todas as coisas que eles devem professar por escrito que eles irão observar e seguir os dogmas da Igreja Católica e Apostólica, em particular que eles vão se comunicar com pessoas que se casaram duas vezes e com aqueles que tendo fraquejado na perseguição e tendo um período [de penitência] sobre eles, e um tempo [de restauração] fixado de tal forma que em todas as coisas eles irão seguir os dogmas da Igreja Católica. Seja onde for então, se nas vilas ou nas cidades, todos os ordenados sendo destes somente, deixe-os ficar no clero, na mesma posição que foram encontrados. Mas se eles forem de uma região onde há um bispo ou presbítero da Igreja Católica, é manifesto que o bispo da igreja deve ter a dignidade do bispo. E aquele que foi nomeado bispo por aqueles que se chamam cátaros devem ter a posição de presbítero, a menos que seja apropriado para o bispo admitir que ele compartilhe a honra do título. Ou, se isto não for satisfatório, então o bispo deverá prover a ele uma posição como oChorepiscopus, ou presbítero, para que ele seja evidentemente visto como parte do clero, e que não haja dois bispos na cidade.
Cânon IX:
Antigo epítome do cânon IX: Quem quer que for ordenado sem exame deverá ser deposto, se depois vier a ser descoberto que foi culpado de crime.
Se algum presbítero foi promovido sem exame, ou se no exame eles fizeram confissão de crime, e homens agindo em violação do cânon puserem suas mãos neles, apesar de sua confissão, o cânon não admite, pois a Igreja Católica requer [somente] aqueles que são sem culpa.
Cânon X:
Antigo epítome do cânon X: Alguém que apostatou deve ser deposto, tivessem ou não consciência de sua culpa os que o ordenaram.
Se alguém que caiu [da fé] foi ordenado por ignorância, ou mesmo com conhecimento prévio dos ordenadores, isto não deve prejudicar o cânon da Igreja, pois quando eles forem descobertos devem ser depostos.
Cânon XI:
Antigo epítome do cânon XI: Os que caíram sem necessidade, ainda que, portanto, indignos de indulgência, no entanto lhes será concedida alguma indulgência, e eles deverão ser "genuflectores" por doze anos.
A respeito daqueles que caíram sem coerção, sem a pilhagem de suas propriedades, sem perigo parecido, como aconteceu na tirania de Licinius, o Sínodo declara que, apesar de não merecerem clemência, devem ser tratados com misericórdia. Quantos foram comungantes, se se arrependeram de coração, deverão passar três anos entre os ouvintes, devem ser "genuflectores" por sete anos, e por dois anos eles devem comunicar com o povo em orações, mas sem oblações.
Cânon XII:
Antigo epítome do cânon XII: Aqueles que sofreram violência e indicaram que resistiram, mas depois caíram na maldade e voltaram ao exército, deverão ser excomungados por dez anos. Mas, de qualquer modo, a maneira de fazerem penitência deve ser examinada. O bispo poderá tratar mais brandamente alguém que está fazendo penitência e se mostrou zeloso em seu cumprimento do que quem foi frio e indiferente.
Quantos foram chamados pela graça, e demonstrado o primeiro zelo, jogando fora suas cintas militares, mas depois retornaram, como cães ao seu próprio vômito (de forma que alguns gastam dinheiro e por meio de presentes recuperam seus postos militares), deixem estes, após passar o tempo de três anos como ouvintes, ser por dez anos "genuflectores". Mas em todos estes casos é necessário examinar bem seus propósitos e o que parece ser seu arrependimento. Pois quantos derem evidências de suas palavras por atos, e não pretensão, com temor, e lágrimas, e perseverança, e boas obras, quando eles cumprirem o seu tempo determinado como ouvintes, poderão propriamente se comunicar em orações, e depois disto o bispo poderá ainda determinar [condições] mais favoráveis a eles. Mas aqueles que conduzem [o tema] com indiferença, e que pensam que a forma de [não] entrar na Igreja é suficiente para sua conversão, devem cumprir todo o tempo.
Cânon XIII:
Antigo epítome do cânon XIII: Os moribundos devem receber a comunhão. Mas se alguém se recupera, deve ser posto no número daqueles que participam das preces, e somente com eles.
Sobre os moribundos, a antiga lei canônica ainda deve ser mantida, a julgar que, se algum homem estiver à beira da morte, ele não deve ser privado da última e mais indispensávelViaticum. Mas se alguém tiver sua saúde restaurada novamente, que recebeu a comunhão quando sua vida não tinha mais esperança, deixe-o ficar entre os que comungam em orações apenas. Mas em geral e no caso de qualquer pessoa que estiver morrendo de qualquer coisa e pedir para receber a Eucaristia, deixe o bispo, após o exame feito, dá-lo.
Cânon XIV:
Antigo epítome do cânon XIV: Se alguns dos catecúmenos caíram em apostasia, deverão ser somente "ouvintes" por três anos; depois poderão orar com os catecúmenos.
Sobre os catecúmenos que caíram, o sagrado e grande Sínodo decreta que, depois de passar três anos somente como ouvintes, eles devem orar com os catecúmenos.
Cânon XV:
Antigo epítome do cânon XV: Bispos, presbíteros e diáconos não se transferirão de cidade para cidade, mas deverão ser reconduzidos, se tentarem fazê-lo, para a igreja para a qual foram ordenados.
Por causa da grande perturbação e discórdia que acontece, está decretado que o costume que prevalesce em alguns lugares contra o Cânon, deve ser completamente abolido, assim que nenhum bispo, presbítero nem diácono deve passar de cidade para cidade. E se algum, depois deste decreto do sagrado e grande Sínodo tentar tal coisa, ou continuar em tal caminho, seu procedimento deve ser totalmente anulado, e deve ser restaurado para a igreja onde foi ordenado bispo ou presbítero.
Cânon XVI:
Antigo epítome do cânon XVI: Os presbíteros ou diáconos que desertarem de sua própria igreja não devem ser admitidos em outra, mas devem ser devolvidos à sua própria diocese. A ordenação deve ser cancelada se algum bispo ordenar alguém que pertence a outra igreja, sem consentimento do bispo dessa igreja.
Nem presbíteros, nem diáconos, ou qualquer outro inscrito entre o clero, que não tendo o temor de Deus ante seus olhos, nem considerando o cânon eclesiástico, serão indiferentemente removidos de suas próprias igrejas, devem por quaisquer outros meios serem recebidos em outra igreja, mas toda restrição deve ser aplicada para os restaura às suas próprias paróquias, e se eles não forem, serão excomungados. E se algum homem ousar secretamente raptar e em sua própria Igreja ordenar uma pessoa pertencente a outra, sem o consentimento de seu próprio bispo, apesar de ter sido alistado por ele à lista de clérigos da igreja que abandonou, que sua ordenação seja anulada.
Cânon XVII:
Antigo epítome do cânon XVII: Se alguém do clero praticar usura ou receber 150% do que emprestou deve ser excluído e deposto.
Uma vez que muitos que foram eleitos para o clero, seguindo a cobiça e o desejo por ganhos, esquecendo a divina Escritura, que diz: "Ele não deu seu dinheiro por usura", e emprestando dinheiro pede o centésimo da soma [como interesse mensal], o sagrado e grande Sínodo acha que depois deste decreto, qualquer um que for achado recebendo usura, se ele faz isto por transação secreta ou, pedindo tudo e mais a metade, ou usando outro artifício qualquer para finalidade ilícia de lucro, ele deve ser deposto do clero e seu nome removido da lista.
Cânon XVIII:
Antigo epítome do cânon XVIII: Os diáconos devem permanecer dentro de suas atribuições. Não devem administrar a Eucaristia a presbíteros, nem tomá-la antes deles, nem sentar-se entre os presbíteros. Pois que tudo isso é contrário ao cânon e à correta ordem.
Veio a conhecimento do sagrado e grande Sínodo que, em alguns distritos e cidades, os diáconos administram a Eucaristia aos presbíteros, onde nem o cânon nem o costume permitem que eles que não tem o direito de oferecer dêem o Corpo de Cristo àqueles que tem este direito. E também veio a ser conhecido que alguns diáconos agora tocam a Eucaristia mesmo antes dos bispos. Façam tais práticas serem totalmente abolidas, e façam os diáconos ficarem em seus próprios limites, sabendo que são ministros dos bispos e inferiores aos presbíteros. Façam-nos receber a Eucaristia segundo sua ordem, depois dos presbíteros, e façam ou os bispos ou os presbíteros administrarem a eles. Além do mais, não deixem os diáconos sentarem-se com os presbíteros, pois isto é contrário ao cânon e a ordem. E se, depois deste decreto, alguém se recusar a obedecer, que seja deposto do diaconato.
Cânon XIX:
Antigo epítome do cânon XIX: Os Paulianistas devem ser rebatizados. Se alguns são clérigos e isentos de culpa devem ser ordenados. Se não parecem isentos de culpa, devem ser depostos. As diaconisas que se desviaram devem ser colocadas entre os leigos, uma vez que não compartilham da ordenação.
Sobre os Paulianistas que buscaram refúgio na Igreja Católica, foi decretado que eles devem ser por todos os meios rebatizados, e se algum deles foi no passado contado entre seus clérigos deve ser achado sem falta e sem reprovação, deixe-os ser rebatizados e ordenados pelo Bispo da Igreja Católica, mas se o exame descobrir que eles são inadequados, devem ser depostos. Da mesma forma no caso de suas diaconisas, e geralmente no caso daqueles listados no seu clero, observem a mesma forma. E nós queremos dizer por diaconisas aquelas que assumiram o hábito, mas desde que não tiveram imposição de mãos, são contadas somente entre os leigos.
Cânon XX:
Antigo epítome do cânon XIX: Nos dias do Senhor e de Pentecostes, todos devem rezar de pé e não ajoelhados.
Uma vez que há certas pessoas que se ajoelham no Dia do Senhor e no dia de Pentecoste, então, para que todas as coisas sejam uniformemente observadas em todo lugar (em toda paróquia), parece bem para o sagrado Sínodo que toda oração a Deus seja feita em pé.
Fonte: Os textos foram retirados de http://www.ccel.org/ccel/schaff/npnf214.vii.vi.html

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A ARTE MILITAR


Desde os primórdios da humanidade existem guerras, pois os homens sempre inventaram diversos meios de se matarem. Deus provocou o Dilúvio por causa da violência que dominava a Terra, mas o próprio Deus estabeleceu o governo humano e a pena de morte para poder conter a violência e a maldade do homem. No Antigo Testamento, o Todo-Poderoso ordenava o povo de Israel a matar nas guerras, pois isso nunca invalidou o mandamento “não matarás”, porque esse mandamento sempre se referiu ao assassinato criminoso e não a matar quando há necessidade. Então, será que Deus apóia os cristãos matarem nas guerras sob as ordens de seus governos estabelecidos pelo próprio Deus? Será que Deus aprova a legítima defesa, quando realmente há necessidade de se defender? Será que Deus tem alguma coisa contra os cristãos praticarem artes marciais? Neste artigo, pretendo como historiador e professor de História, e, principalmente, como cristão e admirador dos guerreiros, mostrar o que a Bíblia e o próprio Deus ensinam a respeito do combate.


A OPINIÃO DO APÓSTOLO PAULO:
     

Paulo, que era conhecido como Saulo de Tarso, foi um grande perseguidor da Igreja Cristã, mas a caminho de Damasco, ele se deparou com Jesus, ficando cego por alguns dias. Saulo foi curado, e se tornou num grande apóstolo. Paulo evangelizou autoridades que se converteram, como, por exemplo, o procônsul Sérgio Paulo, e o carcereiro de Filipos. Há provas históricas que comprovam que Sérgio Paulo se converteu e permaneceu no seu cargo público, pois há registros que mostram que ele governou Chipre durante três anos. O próprio Livro de Atos mostra que o carcereiro de Filipos permaneceu em sua profissão (portando a sua espada). Estou relatando isso, porque muitos religiosos fanáticos mal-intencionados distorcem o contexto histórico em que a Igreja Primitiva estava inserida para poderem demonizar o Estado. Em primeiro lugar, Jesus Cristo e os apóstolos nunca pregaram contra o serviço militar e a política. Em segundo lugar, o culto imperial e os sacrifícios aos deuses eram rituais idolátricos que dificultavam os primeiros cristãos se alistarem no Exército e ocuparem cargos públicos, porque as autoridades que não cultuassem o imperador e não sacrificassem aos deuses eram punidas com a morte por alta traição. Em terceiro lugar, se o serviço militar e a política fossem coisas tão diabólicas como os fanáticos e fundamentalistas pregam, a Bíblia, a Palavra de Deus, deixaria bem claro para os cristãos não se envolverem com essas coisas. Portanto, não há nenhuma parte na Bíblia e nem relatos confiáveis que mostram que Jesus Cristo e os apóstolos pregaram contra o Estado.

Paulo evangelizou até a Guarda Pretoriana que o vigiava em uma ocasião. O apóstolo aproveitou que os guardas pretorianos o vigiavam para lhes falar da Salvação de Cristo. Em sua Carta aos Filipenses, Paulo até menciona sobre os santos do palácio de César, que provavelmente eram esses guardas e outros funcionários do governo que se converteram através dele.

Paulo é o autor da Carta aos Romanos, e no capítulo 13 desta Carta, ele conta a sua opinião sobre as autoridades governamentais.

Todo homem esteja sujeito as autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas”. (Romanos 13:1)

O verbo grego usado para sujeição é “upotasso” que significa estar subordinado ou sujeito. A Palavra de Deus é clara quando afirma que toda autoridade procede de Deus. Há diferença entre instituir e permitir, ou seja, Deus não apenas permite que os reis governem o mundo, mas Ele estabelece os reis da Terra. Todos os cristãos devem se submeter ao Estado e interceder a favor dele.

“De modo que aquele que se opõe à autoridade, resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação”. (Romanos 13:2)

A condenação significa punição do Estado, isto é, qualquer cidadão que se rebelar contra o governo será castigado, porque é ordenação de Deus que os homens se submetam ao Estado.

“Porque os magistrados não são para temor quando se faz o bem, e, sim, quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem, e terás louvor dela”; (Romanos 13:3)

As autoridades existem para castigar os malfeitores e enaltecer os que praticam o bem. Os cidadãos que são trabalhadores e honestos não precisam temer as autoridades, porque a função delas é punir os bandidos e não os cidadãos de bem.

“visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal”. (Romanos 13:4) 

O apóstolo Paulo foi claro quando disse que o Estado é ministro de Deus para o nosso bem, ou seja, a função do Estado é castigar os malfeitores e proteger os cidadãos de bem. A palavra grega usada para espada é “machaira” que é um símbolo da pena capital, isto é, o Estado tem a autorização de Deus para executar criminosos perigosos, autores de crimes hediondos e bárbaros.

“É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência”. (Romanos 13:5)   
    
Os cidadãos de bem devem obedecer às autoridades e não cometer crimes, não por causa do medo de serem presos ou mortos, mas, sim, porque é o certo a se fazer.

“Por esse motivo também pagais tributos: porque são ministros de Deus, atendendo constantemente a este serviço”. (Romanos 13:6)  

O verbo grego usado por Paulo (Jesus usou o mesmo verbo) para pagar os tributos é “apodote” (de apodidomi - que significa: dar o que é devido, devolver, pagar de volta). Os cristãos devem pagar os tributos e os impostos para a manutenção do Estado, porque a obrigação dos governantes, que são ministros de Deus, é dar segurança aos cidadãos de bem. 

“Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra”. (Romanos 13:7)

Neste versículo, o apóstolo Paulo também usou o verbo grego “apodote”, e esse servo de Deus foi inspirado pelo Espírito Santo para ensinar aos cristãos os seus deveres cívicos. Infelizmente, o governo brasileiro está longe do ideal de governo idealizado por Deus, mas a obrigação da Igreja é orar a favor das autoridades governamentais, porque essa é a vontade de Deus. O Estado é necessário para manter a lei e a ordem no mundo; e os cristãos que não aceitam isso, não acreditam na Bíblia. Deus estabelece os governantes do mundo e o dever da Igreja é interceder a favor deles e ajudá-los no que for necessário.    
        
Paulo, em sua Primeira Epístola a Timóteo, também conta sobre qual é a principal obrigação dos cristãos com o governo.       

“Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graça, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito. Isto é bom e aceitável diante de Deus nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”. (1 Timóteo 2:1-4)

O apóstolo Paulo também ensinou que todos os cristãos têm o dever de intercederem em favor das autoridades governamentais, ou seja, os cristãos devem orar pelos homens investidos de autoridade. Tanto Pedro quanto Paulo, não endiabravam as autoridades constituídas, pelo contrário, eles reconheciam a sua legitimidade. Essa “historinha” de que os cristãos primitivos demonizavam o Estado é mentira do Diabo, porque Jesus Cristo, os apóstolos, e os Pais Apostólicos, não demonizavam as autoridades governamentais. Hoje, não existem mais práticas idolátricas no Estado, portanto, nada impede os cristãos de se relacionarem com o governo.


A OPINIÃO DO APÓSTOLO PEDRO:


Pedro foi um dos discípulos de Jesus mais próximos do Salvador. Ele era sincero na sua fé, apesar de ter um gênio forte e de ser extremamente preconceituoso. Mas, Deus trabalhou isso em seu coração. Através do centurião Cornélio (um militar romano justo e temente a Deus), Pedro percebeu que Deus não queria apenas salvar os judeus, mas, sim, todos os povos. Cornélio era honesto e íntegro, mas apesar disso, ele não era salvo. Pedro o evangelizou, e Cornélio se converteu, e foi batizado ainda sendo um oficial romano. Em nenhum momento, Pedro implicou com Cornélio pelo fato dele ser militar, mas, sim, pelo fato dele ser gentio. Cornélio era bem visto aos olhos de Deus, e a Bíblia deixa bem claro que esse centurião era justo e correto em sua profissão. Pedro acreditava que apenas os judeus poderiam ser salvos, mas Deus, através de uma visão, mostrou para Pedro que o Altíssimo não faz acepção de pessoas, e que todos os homens de todos os povos podem ser salvos se aceitarem Jesus Cristo em seus corações como o seu único e suficiente Salvador.
   
Pedro, em sua Primeira Epístola, conta a sua opinião sobre as autoridades constituídas, assim, como Paulo fez. Tanto Paulo quanto Pedro foram inspirados pelo Espírito Santo para escreverem as suas Cartas, portanto, foi o próprio Deus quem falou através deles. Os apóstolos eram homens dignos e cheios do poder de Deus, portanto, devemos dar crédito para o que eles falaram.

“Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor; quer seja ao rei, como soberano; quer às autoridades como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores, como para louvor dos que praticam o bem. Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos; como livres que sois, não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus. Tratai a todos com honra, amai aos irmãos, temei a Deus, honrai ao rei”. (1 Pedro 2:13-17)

 O apóstolo Pedro afirmou que os cristãos devem se sujeitar as autoridades constituídas e que a função das autoridades enviadas pelo rei é castigar os malfeitores e louvar os que praticam o bem. Os soldados e magistrados eram essas autoridades enviadas pelo rei para punir os culpados. No primeiro século, quase todos os cristãos primitivos não se alistavam no Exército e nem ocupavam cargos públicos, principalmente, por causa da idolatria que predominava naquela época (como o culto imperial e os sacrifícios aos deuses). Hoje, a situação é muito diferente do que naquela época, pois não temos mais problemas com a idolatria.


A OPINIÃO DE JOÃO BATISTA:


“Também soldados lhe perguntaram: E nós, que faremos? E ele lhes disse: A ninguém maltrateis, não deis denúncia falsa, e contentai-vos com o vosso soldo”. (Lucas 3:14)

João Batista era o precursor do Messias; e foi o maior de todos os profetas. Esse grande servo de Deus foi o homem mais justo que já existiu sobre a Terra. Quando alguns soldados foram batizados por João Batista, esse grande profeta não os recriminou por serem combatentes, pelo contrário, ele lhes incentivou a continuarem sendo soldados, portanto, que eles exercessem a sua função com honestidade.
                                                             

AS OPINIÕES DOS PAIS DA IGREJA:


No ano 170, os cristãos começaram a se alistar em massa no Exército, por causa das invasões bárbaras (na época do imperador Marco Aurélio). Antes do ano 170, existiam cristãos nas legiões romanas sim, mas eram poucos; devido às cerimônias cívicas e religiosas comprometidas com a idolatria greco-romana; além da prestação de culto ao imperador e dos sacrifícios aos deuses, que dificultavam os primeiros cristãos se envolverem com o serviço militar e a política. Policarpo de Esmirna reconheceu que as autoridades governamentais são estabelecidas por Deus. Clemente de Roma ensinou os cristãos a intercederem em favor dos governantes, porque ele reconhecia que as instituições políticas são necessárias na ordem estabelecida por Deus. O fato de terem existido alguns Pais da Igreja que demonizavam o Estado, não justifica endiabrar o governo hoje. Naquela época, o Estado era inimigo do Cristianismo (apesar de ser instituído por Deus), e o Exército perseguia e massacrava os cristãos; além da idolatria greco-romana enraizada no Império. Os cultos ao imperador e aos deuses pagãos eram grandes empecilhos para os cristãos serem militares e políticos. Alguns Pais da Igreja, como, por exemplo, o Justino Mártir, o Tertuliano de Cartago, o Hipólito de Roma, o Orígenes de Alexandria, o Cipriano de Cartago, e o Lactâncio, demonizavam as autoridades instituídas pelo próprio Deus. Devo destacar que alguns dos Pais da Igreja além de demonizarem o Estado (que é instituído por Deus), eles também pregavam o anti-semitismo. Não interessa o que os Pais da Igreja ensinaram ou deixaram de ensinar se os seus ensinamentos são contrários a Palavra de Deus. Devemos dar ouvidos ao que Jesus e os apóstolos ensinaram apenas, e não a “ungidões” que se consideram acima do bem e do mal (até acima das leis de Deus).

Os Pais Apostólicos, Policarpo de Esmirna e Clemente de Roma, reconheceram que as autoridades governamentais são necessárias na ordem estabelecida por Deus. Os Pais Apostólicos conheceram pessoalmente os apóstolos, e tanto esses Pais Apostólicos quanto os apóstolos ensinavam a submissão às autoridades e a intercessão em favor dos homens investidos de autoridade. Portanto, nem todos os cristãos primitivos endiabravam o Estado. Jesus Cristo, os apóstolos, e os Pais Apostólicos, não condenavam o serviço militar e a política, pelo contrário, eles reconheciam a sua legitimidade.

Agostinho de Hipona desenvolveu a teoria da guerra justa, para poder tranqüilizar a consciência dos cristãos que se alistavam no Exército, mas que tinham dúvidas se Deus os apoiaria matar na guerra ou não. Agostinho é considerado o maior de todos os Pais da Igreja, pois além de ser um grande filósofo, era também um grande teólogo. Ambrósio de Milão, um dos Doutores da Igreja, e também mestre de Agostinho, também era favorável a guerra justa. Jerônimo de Strídon, o grande teólogo e também Doutor da Igreja que traduziu a Bíblia inteira para o latim, também apoiava a guerra justa. Esses Doutores da Igreja, além de apoiarem os cristãos matarem nas guerras, eles também eram favoráveis a pena de morte. Tomás de Aquino, um Doutor da Igreja da Idade Média, além de apoiar a guerra justa e a pena de morte, também apoiava a legítima defesa.


AS OPINIÕES DOS REFORMADORES DA IGREJA:


Martinho Lutero foi o monge agostiniano que provocou a Reforma Protestante. Ele era a favor da pena capital, e, assim, como Agostinho de Hipona, também apoiava a guerra justa. Lutero incentivou os príncipes alemães a matarem os camponeses que se rebelaram contra as autoridades constituídas, mas apesar de ter reconhecido que errou ao fazer isso, Lutero, nunca deixou de apoiar a existência do Estado, pois ele próprio reconhecia que era necessário haver um governo para manter a paz e a ordem. Lutero apoiava a legítima defesa, e apesar de ter apoiado a total submissão ao Estado a princípio, por pressão dos luteranos, passou a apoiar as revoluções também. Martinho Lutero era um homem com bons princípios de justiça.

João Calvino foi o grande reformador francês que fez a diferença em Genebra, na Suíça, e ele era um magistrado que apoiava também a guerra justa e a pena de morte. Esse reformador até mandou queimar na fogueira o médico, Miguel Serveto, um herege que blasfemou contra a Santíssima Trindade. Calvino se arrependeu de ter mandado executar Miguel Serveto, mas ele nunca deixou de apoiar a guerra justa e a pena capital. Calvino apoiava a legítima defesa, e também considerava justo os cristãos resistirem ao Estado dentro da lei ou até mesmo pela luta armada, quando este for repressor.

Ulrico Zuínglio era capelão do Exército, e também foi um grande reformador que fez a diferença em Zurique, na Suíça. Zuínglio além de apoiar a guerra justa e a pena de morte, ele também apoiava as revoluções, tanto, que ele morreu em combate lutando contra os cantões católicos.


REFUTANDO OS ARGUMENTOS BÍBLICOS DOS PACIFISTAS:


“No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do Diabo; porque não temos que lutar contra carne e sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais. Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes”. (Efésios 6:10-13)

Inúmeros cristãos interpretam mal o capítulo 6 da Carta aos Efésios, porque eles confundem guerra espiritual com pacifismo. O autor da Carta aos Efésios é também o autor da Carta aos Romanos. O apóstolo Paulo, o autor de ambas as Cartas, não era pacifista, pois se percebe claramente a sua posição em relação ao Estado no capítulo 13 da Carta aos Romanos. No capítulo 6 da Carta aos Efésios, o apóstolo Paulo usa puro simbolismo militar para se referir à armadura de Deus. O apóstolo Paulo constantemente usava o serviço militar como bom exemplo para a vida cristã. O fato de Paulo ter dito que a nossa luta não é contra carne e sangue (muito deturpado pelos pacifistas hipócritas), não significa que ele fez apologia ao pacifismo. O capítulo 6 da Carta aos Efésios não invalida o capítulo 13 da Carta aos Romanos, portanto, o apóstolo Paulo não pregou o pacifismo.

“Porque, andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas, sim, poderosas em Deus, para destruição das fortalezas;”. (2 Coríntios 10:3-4)

Por isso, as armas carnais e humanas, tais como argúcia, habilidade, riqueza, capacidade organizacional, eloqüência, persuasão, influência e personalidade são em si mesmas inadequadas para destruir as fortalezas de Satanás; porque as únicas armas adequadas para desmantelar os arraiais do Diabo, as injustiças e os falsos ensinos são as armas que Deus nos dá. Esse trecho não se refere às armas bélicas, mas, sim, a capacidade humana; e para combater o Inferno precisamos das armas espirituais dadas por Deus, pois somos incapazes de vencermos Satanás e os seus demônios sozinhos.

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;”. (Mateus 5:38-39)

Os fariseus deturpavam as leis do Antigo Testamento para incentivar as pessoas ao ódio e a retaliação, porque olho por olho e dente por dente eram na verdade as punições aplicadas pelas autoridades nos malfeitores e não um incentivo a represália do indivíduo. Jesus condenou a vingança pessoal e não a legítima defesa, pois Ele usa muito simbolismo nas coisas em que ensina. Cristo, em outra parte da Bíblia, ensinou que se as suas mãos e pés e os seus olhos te fizerem pecar, se deve amputar as mãos e os pés e arrancar os olhos fora, mas tudo isso é simbólico e não se deve fazer no sentido literal.

“Então, Jesus lhe disse: Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada, à espada perecerão”. (Mateus 26:52)

Cristo não fez apologia ao pacifismo, mas simplesmente falou que os violentos sofrerão violência. Se Pedro tivesse matado Malco, ele seria punido com a morte pelo Estado Romano e Jesus quis impedir que isso acontecesse.

“E saberá toda esta congregação que o Senhor salva, não com espada, nem com lança; porque do Senhor é a guerra, e ele vos entregará na nossa mão”. (Samuel 17:47)

Quando Davi afirmou que do Senhor é a guerra, ou seja, de que a batalha pertence ao Senhor, ele quis dizer que nós, servos de Deus, devemos confiar no Altíssimo e não em nossa própria força ou em armas bélicas; entretanto, em nenhum momento, ele hesitou lutar contra Golias por causa disso, porque ele confiava no Senhor dos Exércitos.


SOBRE O SEXTO MANDAMENTO:


Quase todos os cristãos nunca compreenderam o sexto mandamento “não matarás”. A tradução correta do sexto mandamento é “não assassinarás”. Os religiosos alienados usam e abusam da tradução errada desse mandamento para ficarem atacando pedras nos guerreiros que matam para se defenderem ou para protegerem os indefesos. O verbo hebraico “ratsach” usado nesse mandamento no Antigo Testamento, e o verbo grego “foneuo” usado nesse mandamento no Novo Testamento, sempre são usados para se referir ao assassinato criminoso, e nunca a legítima defesa e a pena capital. Tanto o verbo hebraico “ratsach” quanto o verbo grego “foneuo” se referem ao homicídio ilícito. Portanto, matar para se defender ou para proteger alguém não é pecado.


SOBRE O SERVIÇO MILITAR:


“Nenhum soldado em serviço se embaraça com negócios desta vida, a fim de agradar àquele que o alistou para a guerra”. (2 Timóteo 2:4)

Há muitas semelhanças entre a vida cristã e o serviço militar, por isso, o apóstolo Paulo vivia comparando ambos. Os cristãos devem ser como soldados, isto é, devem acatar as ordens de seu Senhor e cumprir a sua missão.

Sobre o Juramento à Bandeira, na verdade, os militares não juram, mas, sim, prometem que lutarão e se for preciso até morrerão para poderem proteger a sua nação. Quando eu me alistei no Exército, não fiz nenhum juramento, mas apenas prometi que lutaria pelo meu país caso fosse necessário.

No Concílio de Jerusalém, os judeus cristãos decidiram que todos os seguidores de Jesus não devem comer alimentos sacrificados aos ídolos, nem praticar relações sexuais ilícitas e nem beber sangue. Na 1 Carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo ensinou que os cristãos podem comer alimentos sacrificados aos ídolos sim, portanto, que não escandalizem os irmãos “fracos” na fé. Se os cristãos orarem para Deus abençoar os alimentos sacrificados aos ídolos, não há problema nenhum em comê-los. O sexo deve ser praticado somente dentro do casamento mesmo. O sangue foi proibido de ser ingerido, porque no contexto daquela época, os pagãos bebiam sangue para adorar os seus deuses. Entretanto, hoje, não há problema algum em comer frango ao molho pardo, chouriço ou até mesmo beber sangue de galinha para sobreviver na selva.

Em relação a “cultuar as tradições”, na verdade, os militares não prestam culto as tradições e nem aos heróis do passado, mas, simplesmente, eles relembram os feitos do passado e prestam homenagens a esses grandes guerreiros, no entanto, ninguém bate continência ou se curva diante de quadros e estátuas.


SOBRE A IDOLATRIA DAS ARTES MARCIAIS:


“Não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas cousas, com o uso, se destroem”. (Colossenses 2:21-22)  

Alguns “ex-satanistas” costumam propagar mentiras sobre as lutas esportivas, pois eles mentem descaradamente deturpando o contexto de versículos bíblicos (que não tem nada a ver com o assunto), e também distorcem o contexto histórico das artes marciais. Os leigos, ou seja, as pessoas que não conhecem as lutas esportivas, acabam acreditando em suas mentiras baseadas apenas em seu preconceito religioso ridículo.

“Um assunto controvertido no Cristianismo de hoje é se um cristão deve ou não praticar artes marciais. Alguns dizem que por causa de sua origem não-cristã (misticismo oriental), nenhuma forma de arte marcial deveria ser praticada por cristãos. Entretanto, uma origem não-cristã, por si só, não pode ser um fundamento suficiente para se rejeitar as artes marciais, uma vez que este ponto de vista comete o erro que chamamos de "falácia genética". O que isto quer dizer? Uma falácia é um argumento enganoso e sem fundamento. O termo "genética" quer dizer neste caso "origem". Assim, uma falácia genética é um argumento infundado que pressupõe que uma vez que a procedência de uma crença ou prática esteja errada (por não ter uma raiz cristã), sem considerar as suas modificações, ela ainda estaria errada hoje”.

               “De fato, se fôssemos coerentes ao aplicar esse tipo de lógica, nós deveríamos abandonar a astronomia, porque suas raízes encontram-se no método da astrologia. Entre os movimentos religiosos que usam e abusam da falácia genética se encontram as chamadas "Testemunhas de Jeová"; estas se recusam a comemorar aniversários natalícios, Natal e Ano-Novo, pelo simples fato de estas comemorações terem origem no paganismo. Em nenhum momento se leva em conta o desenvolvimento e a evolução de uma crença ou prática. Ao invés de cometer a falácia genética, seria melhor tentar verificar o quanto de influência as crenças originais podem ter sobre um objeto de discussão, antes de descartá-lo prematuramente”.
 
A primeira arte marcial a surgir foi à luta “Vajramushti”, que surgiu há mais de 5.000 anos atrás. Essa é uma arte marcial de origem indiana. Não sei muito sobre essa luta, mas sei que como todas as artes marciais, a sua origem é militar, isto é, ela foi criada para o combate, e não necessariamente para se cultuar os deuses. Se essa luta se originou na religião hindu ou qualquer outra religião pagã não importa, porque a origem não quer dizer nada. O que importa é o desenvolvimento dessa coisa durante o curso da História, pois muitas coisas (como as artes marciais) mudaram com o passar dos séculos, e sua influência idolátrica não é tão forte hoje como foi no passado. Portanto, há como separar a luta da idolatria. Inclusive, a aliança matrimonial também tem origem na religião hindu, mas nem por causa disso os religiosos que condenam as lutas esportivas deixam de usá-la.
 
                O homem que criou o Kung Fu original foi Huang Di, o Imperador Amarelo, que além de ser militar, também era médico e um grande intelectual. Ao contrário do que muitos pensam, não foi Bodhidharma quem criou o Kung Fu, mas, sim, Huang Di. Tanto Huang Di quanto Bodhidharma eram homens bons que tinham caráter, ou seja, eles não eram maus por não terem conhecido a Deus. Ninguém lhes pregou o Evangelho da Salvação, portanto, não teria como esses grandes guerreiros se converterem mesmo. O Imperador Amarelo viveu há mais de 4.000 anos atrás, então, ele foi do Antigo Testamento (da Dinastia Qin). O 28º patriarca do Budismo foi do Novo Testamento, mas o Evangelho não havia chegado à China naquela época, portanto, não teria como ele se converter ao Cristianismo também. Mas, apesar desses precursores do Kung Fu não terem sido cristãos, eles ensinavam princípios e valores parecidos com os ensinamentos judaico-cristãos. Kwan Kun, o guerreiro lendário do Kung Fu, também era um bom exemplo a ser seguido, pois ele era muito íntegro, honesto, e honrado. Não devemos idolatrar esses homens, mas podemos seguir como bons exemplos os seus princípios de honra e de justiça. 
 
A guerra é uma arte, e artes marciais significam “artes militares”, ou seja, a sua origem não é religiosa, mas, sim, militar. As artes marciais não são um culto ao deus romano Marte, até porque, essas lutas esportivas são orientais, e Marte, é um deus ocidental. Wushu significa “Técnica Militar”, isto é, a origem do Kung Fu é o serviço militar chinês e não o culto ao Buda, até porque, Siddhartha Gautama nasceu provavelmente 1.500 anos depois de surgir o Wushu, portanto, não teria como essa arte marcial ter origem budista. Lao-Tsé também nasceu depois do surgimento do Kung Fu, portanto, o Wushu também não tem origem taoísta. Bodhidharma não foi o criador do Kung Fu, porque o Wushu surgiu há vários séculos antes dele nascer. O 28º patriarca do Budismo recodificou essa arte milenar, mas não a criou. Ele é apenas o criador do Kung Fu Shaolin, mas não do Wushu primitivo.

O teatro tem origem pagã e foi criado para homenagear os deuses gregos, em especial a Dionísio, o deus da loucura e do vinho, mas nem, por isso, o teatro deixa de ser usado como instrumento de evangelismo nas igrejas e inúmeras almas já foram ganhas para Cristo através dele.

A saudação “Kin Lai” tem origem pagã, mas o aperto de mão também se originou no paganismo. Então, será que teremos que parar de apertar as mãos dos outros? Claro que não. Condenar as coisas por causa de sua origem é falácia genética, ou seja, algo sem fundamento algum. A saudação do Wushu é o mesmo que bater continência, isto é, é um gesto de respeito.    

Alguns religiosos hipócritas condenam muitos estilos de Kung Fu pelo simples fato dos lutadores imitarem os movimentos dos animais. Os lutadores que fazem isso não estão cultuando os animais, porque os mestres que criaram esses estilos não os criaram com a intenção de se cultuar os animais, mas, apenas, eles observavam os animais lutando pela sobrevivência e copiaram os seus movimentos. Outros fariseus condenam as artes marciais por causa das cores das faixas, mas foi Deus quem criou todas as cores e não o Diabo. Em cada cultura as cores têm os seus significados, mas nenhuma cor influencia as vidas dos cristãos.
                            

SOBRE A VIOLÊNCIA DAS ARTES MARCIAIS:


                             “Igualmente o atleta não é coroado, se não lutar segundo as normas”. (2 Timóteo 2:5)

                             A Bíblia relata sobre alguns homens que lutavam e que eram bons exemplos. Militares romanos que sabiam lutar Pancrácio (a arte marcial grega) e que também utilizavam armas letais para matarem nas guerras. A própria Palavra de Deus relata que esses guerreiros eram homens íntegros e que são bons exemplos a serem seguidos.
                            
            “Morava em Cesaréia um homem de nome Cornélio, centurião da coorte, chamada a italiana, piedoso e temente a Deus com toda a sua casa, e que fazia muitas esmolas ao povo e de contínuo orava a Deus”. (Atos 10:1-2)

O centurião Cornélio era considerado por Deus e pelos próprios judeus como um exemplo de ser humano bom e piedoso, pois esse militar era justo e temente a Deus. O apóstolo Pedro, em nenhum momento o recriminou pelo fato de ele ser militar, mas, sim, pelo fato de ele ser gentio. Mas, mesmo, Cornélio sendo um oficial do exército romano, Deus olhou para esse combatente, com amor e compaixão, e, principalmente, com admiração. O centurião Cornélio é um bom exemplo a ser seguido.

“Tendo Jesus concluído todas as suas palavras dirigidas ao povo, entrou em Cafarnaum. E o servo de um centurião, a quem este muito estimava, estava doente, quase à morte. Tendo ouvido falar a respeito de Jesus, enviou-lhe alguns anciãos dos judeus, pedindo-lhe que viesse curar o seu servo. Estes, chegando-se a Jesus, com instância lhe suplicaram, dizendo: Ele é digno de que lhe faças isto; porque é amigo do nosso povo, e ele mesmo nos edificou a sinagoga. Então Jesus foi com eles. E já perto da casa, o centurião enviou-lhe amigos para lhe dizer: Senhor, não te incomodes, porque não sou digno de que entres em minha casa. Por isso, eu mesmo não me julguei digno de ir ter contigo; porém manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado. Porque também sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados às minhas ordens, e digo a este: Vai, e ele vai; e a outro: Vem, e ele vem; e ao meu servo: Faze isto, e ele o faz. Ouvidas estas palavras, admirou-se Jesus dele e, voltando-se para o povo que o acompanhava, disse: Afirmo-vos que nem mesmo em Israel achei fé como esta. E, voltando para casa os que foram enviados, encontraram curado o servo”. (Lucas 7:1-10)
           
O centurião de Cafarnaum, assim, como o centurião Cornélio, era um bom exemplo de militar, que ganhou elogios do próprio Jesus Cristo, que viu uma tremenda fé nesse oficial romano, que nem os próprios judeus, que eram de Israel, o povo de Deus, tinham. Esse militar era honesto e íntegro. Portanto, a própria Palavra de Deus elogia o trabalho dos militares, quando estes, são bons e justos.

            O centurião Júlio mencionado no capítulo 27 do Livro de Atos, também era um oficial romano muito digno e honrado, que tratou o apóstolo Paulo com muita humanidade e dignidade. Todos os centuriões mencionados no Novo Testamento eram justos e honestos, isto é, bons exemplos a serem seguidos.


CONCLUSÃO:


            Durante a História, existiram incontáveis guerreiros honrados que lutavam em prol da justiça, e que não deixaram de ser bons por causa disso. Incrédulos e cristãos que combatiam baseados em princípios e valores que fizeram a diferença no mundo. Os samurais (apesar da prática do ritual suicida quando eles eram derrotados) e os cavaleiros medievais eram guerreiros que tinham princípios morais e bons valores. Como eu gostaria de ter vivido nas épocas em que os samurais e os cavaleiros existiam. A Bíblia não condena os homens lutarem, portanto, que eles lutem por causas nobres e justas. Mesmo, que tenham cristãos no exército inimigo, se esses “cristãos” estiverem combatendo do lado errado, eles devem ser combatidos também. Na Segunda Guerra Mundial, tiveram muitos cristãos que apoiaram Adolf Hitler, isto é, que eram nazistas mesmo, e eles pediram para morrer, porque escolheram o lado errado da guerra. Na Guerra Civil Americana, muitos cristãos eram assassinos cruéis e apoiavam a escravidão, e esses mereceram morrer também. Em guerras justas, os cristãos devem optar pelo lado justo do conflito, e não pelo lado do opressor. Portanto, os cristãos que se alistam em exércitos mal-intencionados, estão arcando com as conseqüências desse ato, e vão colher exatamente o que plantarem. Quando os cristãos se omitem em situações de injustiça, eles escolhem o lado do opressor. Espero ter sido claro e objetivo neste meu artigo.     






AUTOR: Filipe Levi Viasoni da Silva, historiador e professor de História.