segunda-feira, 14 de abril de 2014

A FORÇA DA VIDA


A chama da vida ainda está acesa
O fogo eterno ainda arde em meu coração
O desejo da morte tenta me assolar
Mas o meu sonho de ser herói ainda me faz viver             
Quero fazer a diferença                                
Quero ser a diferença
As mulheres viraram as costas para mim
Os homens não acreditam mais em mim
Mas Deus de alguma forma ainda crê em mim
O Altíssimo acredita realmente que ainda posso ser útil
Satanás tenta de todas as maneiras me matar
Mas a chama da vida ainda arde em meu coração
O fogo eterno ainda ilumina a minha alma
A dor é insuportável
Meu coração não para de doer
Mas ainda preciso viver
O meu motivo é justo, e estou disposto a morrer por isso.
Preciso me manter vivo para combater o mal
Se eu morrer, a esperança também morrerá.
Mesmo que eu me odeie, Deus me considera importante.
Não tenho amor próprio
Mas Deus me ama de verdade
Ele não cessou a dor em meu coração, mas a diminuiu consideravelmente.
Pessoas que prometeram que nunca me abandonariam me abandonaram.
Pessoas que achei que nunca me decepcionariam me decepcionaram
Pessoas que amei nunca me amaram
Estou cansado
Os meus olhos apodrecem em minhas órbitas            
A minha língua está ressecada por causa do tormento e da desidratação
Os meus cabelos caem por causa do desespero
A minha pele se desfaz e a minha carne apodrece
Os meus ossos estão secos
Estou perdendo os meus sentidos
Um a um
Golpes na minha cabeça e no meu peito me fazem desfalecer
Sinto uma espada traspassando o meu coração
O sangue está subindo pela minha garganta
Estou com dificuldade para respirar
O meu corpo está ficando muito frio e endurecido
O Príncipe das Trevas golpeou o meu coração fazendo o sangue jorrar sem parar
O sangue esguicha sujando o meu rosto
Eu estou morrendo
Tudo parece estar perdido
Mas o Senhor dos Exércitos me livrou
O Todo-Poderoso me resgatou
As minhas forças se renovaram e o meu corpo se regenerou
A força da vida reativou o meu coração.

domingo, 6 de abril de 2014

AS TRÊS INSTITUIÇÕES DIVINAS


            Segundo a Bíblia, a Palavra de Deus, existem três instituições que o próprio Deus instituiu para o bem-estar da sociedade, que são: a família, a Igreja, e o Estado. Neste texto, pretendo contar o dever e as qualidades de cada uma dessas instituições, que foram instituídas por Deus.

“Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas. Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos. Pois os governantes não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o enaltecerá. Pois é serva de Deus para o seu bem. Mas se você praticar o mal, tenha medo, pois ela não porta a espada sem motivo. É serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal. Portanto, é necessário que sejamos submissos às autoridades, não apenas por causa da possibilidade de uma punição, mas também por questão de consciência. É por isso também que vocês pagam imposto, pois as autoridades estão a serviço de Deus, sempre dedicadas a esse trabalho. Dêem a cada um o que lhe é devido: se imposto, imposto; se tributo, tributo; se temor, temor; se honra, honra”. (Romanos 13:1-7)

            O apóstolo Paulo reconheceu que o Estado é necessário para se manter a paz na Terra. Para Paulo, é necessário que haja um governo para se manter a lei e a ordem no mundo. Segundo o apóstolo, os agentes do Estado (militares, policiais, e magistrados) têm a autorização de Deus para usarem a força e até mesmo armas letais para poderem fazer justiça (dentro da lei, claro). Deus estabeleceu o governo sobre a Terra, para que os governantes e seus agentes (autorizados por Deus para usarem a violência se for necessário) combatam o crime, punindo os maus e louvando os bons. Todos, nós, cristãos, temos o dever cívico de nos sujeitarmos às autoridades governamentais, e de interceder em favor dos governantes, e de todos os homens investidos de autoridade (1 Timóteo 2:1-4).

“Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor; quer seja ao rei, como soberano; quer às autoridades como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores, como para louvor dos que praticam o bem. Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos; como livres que sois, não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus. Tratai a todos com honra, amai aos irmãos, temei a Deus, honrai ao rei”. (1 Pedro 2:13-17)

            Segundo o apóstolo Pedro, o governo também é necessário na ordem estabelecida por Deus, para refrear o mal, castigando os malfeitores e enaltecendo os cidadãos de bem. Para Pedro, os cristãos devem ser cidadãos exemplares e também devem se submeter às autoridades constituídas, porque essa é a vontade de Deus.

            A Igreja de Cristo tem o dever de acolher os órfãos e as viúvas, de interceder em favor das autoridades governamentais, de se engajar em causas sociais, e de pregar o Evangelho a todas as pessoas. A Igreja não tem cumprido com o seu papel nos últimos tempos, e Deus cobrará isso dela. Infelizmente, quando há liberdade demais, a Igreja se acomoda no pecado e fica apática, mas quando há perseguição, aí a Igreja volta a cumprir o seu papel, que é mostrar a Salvação de Jesus Cristo para o mundo. A Igreja Cristã tem que amar os seres humanos, porque os homens são alvos do amor de Deus. O Altíssimo ama tanto o ser humano, que Ele enviou o seu Único Filho para sofrer e morrer no lugar das pessoas, para que elas sejam salvas do poder do pecado, que as sentencia a morte eterna. Jesus sofreu e morreu numa cruz, para que eu e você fôssemos salvos. Quem aceitar Jesus Cristo como seu Único Salvador, ganhará a vida eterna, e escapará das chamas do Inferno, que é o lugar reservado para todas as pessoas que rejeitam o Espírito Santo e o sacrifício de Jesus. A Igreja precisa mostrar isso para os homens.

            A instituição mais importante criada por Deus é a família, ao contrário, do que os ateus marxistas pregam. A família não é um conceito burguês, mas é um sonho de Deus. A família é o principal alicerce de todas as sociedades civilizadas (até das tribos). Nenhuma sociedade sobrevive sem a família. Todos precisam de uma família, e do amor e do apoio dos familiares para que cresçam e progridam na vida. A família é a principal instituição divina.

sábado, 5 de abril de 2014

O CRISTÃO E O GOVERNO


INTRODUÇÃO:


A Igreja Primitiva nunca teve um posicionamento pacifista oficialmente, mediante o tema da guerra, ou da agressão, mas no século IV isso começou a ser discutido. Uma mudança significativa na política Imperial Romana eleva o Cristianismo à religião oficial do Império, fazendo com que o Cristianismo passasse a fazer parte do Império e o Império viesse a ser cristão. Diante dessa nova postura imperial, deveria nascer uma, também nova, postura por parte dos cristãos. O Cristianismo passa admitir o uso da força e das armas para a defesa do Império, que é agora também a defesa da própria Igreja e da religião cristã, frente às invasões bárbaras e os movimentos heréticos. Uma nova linha de pensamentos irá se formar para a defesa dessa nova apropriação de um Cristianismo que assumia o belicismo, não mais apenas espiritual, mas que tomava armas para um combate corporal. Uma nova interpretação dos escritos e das tradições eclesiásticas deve ser tomada e para essa nova teoria que se forma no seio do Cristianismo, teremos um dos mais influentes pensadores para o Cristianismo Medieval: Agostinho de Hipona lançará as bases para a teoria de uma guerra justa, que se resume em uma união da ética cristã com o belicismo do medievo, que estará presente em toda a Idade Média.

No século I, o Cristianismo era visto como uma ramificação do Judaísmo (religião lícita para o Império Romano). Os judeus não eram obrigados a prestar culto ao imperador, nem sacrificar aos deuses pagãos, e eram isentos do serviço militar. Por causa disso, os cristãos primitivos nas primeiras décadas do primeiro século não tiveram problemas com o governo romano. No princípio, quem perseguia os primeiros cristãos era o Sinédrio, ou seja, os fariseus (os religiosos fanáticos e fundamentalistas da época). O apóstolo Paulo foi um grande perseguidor da Igreja, a mando do Sinédrio. No ano 64, com o incêndio terrível que devastou Roma, Nero, acusou os cristãos de tê-lo provocado, por isso, começou a primeira perseguição estatal contra os cristãos.

Há três pontos que devo destacar sobre o fato de quase todos os primeiros cristãos não terem se alistado no Exército e nem terem ocupado cargos públicos até o final do século II (existiram cristãos no Exército e ocupando cargos públicos antes do ano 170 sim, mas eram poucos). Em primeiro lugar, o culto imperial, os sacrifícios aos deuses, as práticas idolátricas nas cerimônias cívicas e religiosas, os juramentos pelos deuses, e a perseguição estatal contra o Cristianismo, dificultavam que os cristãos se envolvessem com o Estado. Em segundo lugar, as guerras que o Império Romano promovia não eram para a defesa da nação, mas, sim, para oprimir e escravizar outros povos através da força militar. Em terceiro lugar, Jesus Cristo, João Batista, os apóstolos, e os Pais Apostólicos, nunca demonizaram o serviço militar e a política, pelo contrário, esses homens santos reconheciam a legitimidade e a necessidade de se existir um Estado para poder manter a lei e a ordem na sociedade. Jesus e Paulo ordenaram aos cristãos pagarem todos os seus impostos, sabendo que o dinheiro era usado para a manutenção do Exército. Pedro e Paulo ensinaram à submissão as autoridades governamentais e reconheceram que é a função do governo castigar os malfeitores e louvar os cidadãos de bem.
Neste artigo, mostrarei os argumentos bíblicos a favor do serviço militar e da política, e também as opiniões dos apóstolos, dos Pais da Igreja, e dos reformadores sobre esses assuntos tão polêmicos. Mostrarei que o Pacifismo não é bíblico, pois a Bíblia, a Palavra de Deus, nunca apoiou tal ideologia, mas, sim, sempre defendeu o direito das pessoas inocentes se defenderem de agressores injustos, e de que é o dever do Estado punir os maus e louvar os bons.


A OPINIÃO DO APÓSTOLO PAULO:


Paulo é o autor da Carta aos Romanos, e no capítulo 13 desta Carta, ele conta a sua opinião sobre as autoridades governamentais.
                          
Todo homem esteja sujeito as autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas”. (Romanos 13:1)

O verbo grego usado para sujeição é “upotasso” que significa estar subordinado ou sujeito. A Palavra de Deus é clara quando afirma que toda autoridade procede de Deus. Há diferença entre instituir e permitir, ou seja, Deus não apenas permite que os reis governem o mundo, mas Ele estabelece os reis da Terra. Todos os cristãos devem se submeter ao Estado e interceder a favor dele.

“De modo que aquele que se opõe à autoridade, resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação”. (Romanos 13:2)

A condenação significa punição do Estado, isto é, qualquer cidadão que se rebelar contra o governo será castigado, porque é ordenação de Deus que os homens se submetam ao Estado.

“Porque os magistrados não são para temor quando se faz o bem, e, sim, quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem, e terás louvor dela”; (Romanos 13:3)

As autoridades existem para castigar os malfeitores e enaltecer os que praticam o bem. Os cidadãos que são trabalhadores e honestos não precisam temer as autoridades, porque a função delas é punir os bandidos e não os cidadãos de bem.

“visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal”. (Romanos 13:4) 

O apóstolo Paulo foi claro quando disse que o Estado é ministro de Deus para o nosso bem, ou seja, a função do Estado é castigar os malfeitores e proteger os cidadãos de bem. A palavra grega usada para espada é “machaira” que é um símbolo da pena capital, isto é, o Estado tem a autorização de Deus para executar criminosos perigosos, autores de crimes hediondos e bárbaros.

“É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência”. (Romanos 13:5)   
    
Os cidadãos de bem devem obedecer às autoridades e não cometer crimes, não por causa do medo de serem presos ou mortos, mas, sim, porque é o certo a se fazer.

“Por esse motivo também pagais tributos: porque são ministros de Deus, atendendo constantemente a este serviço”. (Romanos 13:6)  

O verbo grego usado por Paulo (Jesus usou o mesmo verbo) para pagar os tributos é “apodote” (de apodidomi - que significa: dar o que é devido, devolver, pagar de volta). Os cristãos devem pagar os tributos e os impostos para a manutenção do Estado, porque a obrigação dos governantes, que são ministros de Deus, é dar segurança aos cidadãos de bem. 

“Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra”. (Romanos 13:7)

Neste versículo, o apóstolo Paulo também usou o verbo grego “apodote”, e esse servo de Deus foi inspirado pelo Espírito Santo para ensinar aos cristãos os seus deveres cívicos. Infelizmente, o governo brasileiro está longe do ideal de governo idealizado por Deus, mas a obrigação da Igreja é orar a favor das autoridades governamentais, porque essa é a vontade de Deus. O Estado é necessário para manter a lei e a ordem no mundo; e os cristãos que não aceitam isso, não acreditam na Bíblia. Deus estabelece os governantes do mundo e o dever da Igreja é interceder a favor deles e ajudá-los no que for necessário.   
        
Paulo, em sua Primeira Epístola a Timóteo, também conta sobre qual é a principal obrigação dos cristãos com o governo.       

“Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graça, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito. Isto é bom e aceitável diante de Deus nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”. (1 Timóteo 2:1-4)

O apóstolo Paulo também ensinou que todos os cristãos têm o dever de intercederem em favor das autoridades governamentais, ou seja, os cristãos devem orar pelos homens investidos de autoridade. Tanto Pedro quanto Paulo, não endiabravam as autoridades constituídas, pelo contrário, eles reconheciam a sua legitimidade. Essa “historinha” de que os cristãos primitivos demonizavam o Estado é mentira do Diabo, porque Jesus Cristo, os apóstolos, e os Pais Apostólicos, não demonizavam as autoridades governamentais. Hoje, não existem mais práticas idolátricas no Estado, portanto, nada impede os cristãos de se relacionarem com o governo.


A OPINIÃO DO APÓSTOLO PEDRO:


Pedro, em sua Primeira Epístola, conta a sua opinião sobre as autoridades constituídas, assim, como Paulo fez. Tanto Paulo quanto Pedro foram inspirados pelo Espírito Santo para escreverem as suas Cartas, portanto, foi o próprio Deus quem falou através deles. Os apóstolos eram homens dignos e cheios do poder de Deus, portanto, devemos dar crédito para o que eles falaram.

“Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor; quer seja ao rei, como soberano; quer às autoridades como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores, como para louvor dos que praticam o bem. Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos; como livres que sois, não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus. Tratai a todos com honra, amai aos irmãos, temei a Deus, honrai ao rei”. (1 Pedro 2:13-17)

 O apóstolo Pedro afirmou que os cristãos devem se sujeitar as autoridades constituídas e que a função das autoridades enviadas pelo rei é castigar os malfeitores e louvar os que praticam o bem. Os soldados e magistrados eram essas autoridades enviadas pelo rei para punir os culpados. No primeiro século, quase todos os cristãos primitivos não se alistavam no Exército e nem ocupavam cargos públicos, principalmente, por causa da idolatria que predominava naquela época (como o culto imperial e os sacrifícios aos deuses). Hoje, a situação é muito diferente do que naquela época, pois não temos mais problemas com a idolatria.


A OPINIÃO DE JOÃO BATISTA:


“Também soldados lhe perguntaram: E nós, que faremos? E ele lhes disse: A ninguém maltrateis, não deis denúncia falsa, e contentai-vos com o vosso soldo”. (Lucas 3:14)

João Batista, o precursor do Messias, que também foi o maior de todos os profetas, e considerado o homem mais justo que já existiu sobre a Terra, nunca condenou o serviço militar, pelo contrário, ele batizou alguns soldados e se recusou a batizar os fariseus. Esse grandioso profeta, quando batizou os soldados, não os recriminou por serem militares, mas, sim, lhes incentivou a permanecerem como soldados, portanto, que eles exercessem a sua função com honestidade.


AS OPINIÕES DOS PAIS DA IGREJA QUE CONDENAVAM O ESTADO:


                 Muitos Pais da Igreja pregaram muitas heresias, e, no entanto, são hoje idolatrados por vários teólogos. Não negarei que muitas das suas obras são importantes para a História do Cristianismo, mas esses Pais da Igreja também pregavam coisas erradas, como a anarquia, o Pacifismo, e o anti-semitismo. Contarei as opiniões de alguns Pais da Igreja que condenavam o serviço militar e pregavam algumas heresias.


A OPINIÃO DE JUSTINO MÁRTIR:



Justino Mártir era anti-semita, pois ele disse que os judeus são filhos de meretrizes. Justino também criticou o militarismo, apesar de ter ensinado que os cristãos devem pagar os seus impostos e orar em favor das autoridades instituídas pelo próprio Deus. Justino pregou coisas boas, mas também pregou ensinamentos errados.


A OPINIÃO DE TERTULIANO DE CARTAGO:
                                                                              

Tertuliano de Cartago era um advogado que no começo de sua caminhada cristã defendia os cristãos com unhas e dentes. Tertuliano até escreveu um excelente livro chamado “APOLOGETICUM” em que ele defende os cristãos alegando que os seguidores de Jesus eram bons cidadãos que pagavam os seus impostos e que até combatiam no Exército. Infelizmente, Tertuliano aderiu uma seita chamada “Montanismo” e passou a pregar heresias e a endiabrar o serviço militar compulsivamente. Tertuliano até escreveu um livro chamado “A COROA DOS MILITARES” em que o Exército é demonizado. O Tertuliano era tão bom, mas tão bom, que rompeu com o Montanismo e fundou a sua própria seita, o “Tertulianismo”. Tertuliano era também anti-semita, pois ele escreveu uma apologia contra os judeus.


A OPINIÃO DE HIPÓLITO DE ROMA:


Hipólito de Roma falava mal de todo mundo e até criou uma lista de profissões proibidas em que ele demoniza os magistrados e soldados (o interessante é que na Bíblia está escrito que os magistrados e soldados são ministros de Deus para o nosso bem). Realmente, essa lista de profissões proibidas é herética.


A OPINIÃO DE ORÍGENES DE ALEXANDRIA:


Orígenes de Alexandria acreditava na reencarnação e no universalismo e também foi outro que criticou o militarismo. Orígenes também acreditava que as estrelas têm almas e cria em muitos outros absurdos. Entre os Pais da Igreja, Orígenes foi o que mais pregou heresias e falou besteiras.


A OPINIÃO DE CIPRIANO DE CARTAGO:


Cipriano de Cartago era extremamente racista, pois ele pregava contra a raça judaica e até afirmou que o Diabo é o pai dos judeus. Cipriano também demonizou o serviço militar e era outro que adorava caluniar os outros. Assim, como os outros Pais da Igreja que demonizavam o militarismo e a etnia judaica, ele também não tinha embasamento bíblico, mas apenas, se baseava em seu preconceito religioso ridículo. Cipriano também pregava que a Salvação depende da Igreja, e não somente do sacrifício de Jesus, ou seja, para Cipriano, o que salva é um templo, e não Jesus.


A OPINIÃO DE LACTÂNCIO:


Lactâncio era apologista do imperador Constantino, mas apesar disso, ele foi outro que endiabrou o serviço militar, mesmo com o culto imperial e os sacrifícios aos deuses terem sido abolidos pelo imperador que supostamente havia se convertido. Muitos cristãos primitivos não se alistavam no Exército por causa dos rituais idolátricos e não porque tinham algo contra o militarismo. Realmente, Lactâncio não tinha o que fazer da vida e resolveu pregar besteiras.    


AS OPINIÕES DOS PAIS DA IGREJA QUE DEFENDIAM O ESTADO:


                 Os Doutores da Igreja defendiam a legitimidade das autoridades constituídas. Os Pais Apostólicos também acreditavam que é necessário que haja um governo para estabelecer a paz na Terra. Pretendo mostrar as opiniões de alguns desses Pais da Igreja, que aprendi a admirar e a respeitar.


A OPINIÃO DE POLICARPO DE ESMIRNA:


                 Policarpo de Esmirna foi discípulo do apóstolo João, e reconheceu que o Estado é instituído por Deus, antes de ser martirizado. Esse Pai Apostólico reconhecia que as autoridades governamentais são estabelecidas por Deus, e Policarpo conheceu outros apóstolos pessoalmente, e também era um grande servo de Deus, portanto, ele sabia o que estava fazendo quando afirmou que o governo é instituído por Deus.


A OPINIÃO DE CLEMENTE DE ROMA:


                 Clemente de Roma era discípulo do apóstolo Pedro, e também reconhecia a legitimidade das autoridades constituídas, pois ele, em sua Carta aos Coríntios, reconheceu que as autoridades governamentais são necessárias na ordem estabelecida por Deus, e ainda ensinou aos cristãos que é dever da Igreja de Cristo interceder em favor dos governantes.


A OPINIÃO DE AGOSTINHO DE HIPONA:


                 Agostinho de Hipona desenvolveu a teoria da guerra justa, e ele é considerado o maior de todos os Pais da Igreja. Agostinho era a favor da pena de morte e dava o maior apoio para os cristãos se alistarem no Exército e matarem nas guerras se for necessário. Agostinho foi o primeiro a discutir sobre esse tema tão polêmico seriamente, sem pregar heresias. Mas, ele apenas apoiava e defendia as guerras justas, ou seja, quando os soldados lutam por uma causa justa ou por um ideal nobre.


A OPINIÃO DE AMBRÓSIO DE MILÃO:


                 Ambrósio de Milão foi o mestre de Agostinho de Hipona, pois foi ele mesmo quem o batizou. Esse Doutor da Igreja e grande teólogo, assim, como o seu discípulo, Agostinho, também defendia a guerra justa. Ambrósio era extremamente coerente no que ensinava aos cristãos, e como o grande intelectual e cristão que foi, também reconheceu a legitimidade das autoridades constituídas.


A OPINIÃO DE JERÔNIMO DE STRÍDON:


                 Jerônimo de Strídon foi o homem que traduziu a Bíblia para o latim. Esse grande teólogo era conhecedor de grego, hebraico, e latim. Jerônimo conhecia a Bíblia inteira, pois ele mesmo a traduziu para outra língua. Esse Pai da Igreja era a favor da pena de morte, assim, como Agostinho, e seu mestre, Ambrósio. Jerônimo também reconhecia que o Estado é necessário para que haja paz e ordem no mundo.


A OPINIÃO DE TOMÁS DE AQUINO:


Tomás de Aquino foi um dos maiores teólogos que já existiu e falava positivamente sobre a legítima defesa e considerava necessária a execução de criminosos perigosos para o bem-estar da sociedade. Assim, como Agostinho, ele também defendia a guerra justa quando fosse necessário promover a justiça no mundo.


AS OPINIÕES DOS REFORMADORES DA IGREJA:


                 Os reformadores da Igreja foram grandes teólogos que conheciam as Escrituras profundamente, pois eles eram doutores em Teologia. Os reformadores foram homens valorosos que defendiam a guerra justa, e até a pena capital, aplicada por uma autoridade legalmente constituída.


A OPINIÃO DE MARTINHO LUTERO:


Martinho Lutero era um monge agostiniano e acreditava que a pena capital era indispensável em casos de crimes bárbaros; inclusive, ele incentivou os príncipes alemães a exterminarem os camponeses que se rebelaram contra as autoridades constituídas, e os anabatistas, que se diziam pacifistas, participaram dessa rebelião.


A OPINIÃO DE JOÃO CALVINO:


João Calvino foi um grande teólogo francês e era favorável a pena de morte até nos casos de heresias; ele condenou o médico, Miguel Serveto, que blasfemou contra a Trindade, a morrer na fogueira. Entretanto, João Calvino, se arrependeu de ter mandado matar, Miguel Serveto, mas ele nunca mudou a sua opinião em relação a executar malfeitores. Calvino também defendia a legítima guerra contra o mal.


A OPINIÃO DE ULRICO ZUÍNGLIO:


Ulrico Zuínglio era capelão do Exército e morreu em combate lutando contra os cantões católicos. Ele foi um dos principais responsáveis pela Reforma da Igreja na Suíça, e como João Calvino, Ulrico Zuínglio era também a favor da pena capital em caso de heresia. Zuínglio também apoiava a guerra justa, assim, como os outros reformadores apoiavam.


CONCLUSÃO:


                 Segundo as opiniões dos apóstolos, dos Pais Apostólicos, dos Doutores da Igreja, e dos reformadores, podemos concluir de que não há nenhum problema em ser soldado ou político, portanto, que sejamos honestos e justos exercendo essas funções. A Bíblia, a Palavra de Deus, tanto no Antigo Testamento, como no Novo Testamento, sempre apoiou e defendeu a necessidade de se haver reis e soldados no mundo. Claro, que quando o governo exige algo contrário a Palavra de Deus, então, devemos ser mais fiéis a Deus do que ao Estado. Primeiro, devemos obedecer a Deus, depois o Estado. Portanto, se formos proibidos de pregar o Evangelho ou se formos obrigados a adorar outros deuses além do nosso Deus, temos o dever de desobedecer às autoridades governamentais. A Bíblia nos ensina a sujeição às autoridades sim, mas também nos ensina que devemos obedecer mais a Deus do que aos homens.

                 Hoje, ainda existem cristãos que condenam e demonizam as autoridades governamentais, e apelam para a falsidade intelectual e para a sua hipocrisia religiosa para poderem impor a sua opinião herética aos outros. A própria Internet, que é de origem militar, é usada por Testemunhas de Jeová e por muitos evangélicos para deturparem a História do Cristianismo Primitivo e para distorcerem o contexto de versículos bíblicos para endiabrarem o serviço militar e a política. Para se compreender a Palavra de Deus, é preciso ler os capítulos inteiros dentro de seu contexto, e não ler versículos fora de contexto para pregar o que bem entender. Para se entender as opiniões dos cristãos primitivos (que não tinham acesso as informações de hoje e nem a Bíblia inteira, que surgiu só, em 325, no Concílio de Nicéia), é preciso compreender o contexto histórico em que a Igreja Primitiva estava inserida. Portanto, hoje, nada impede os seguidores de Jesus de se alistarem no Exército, ou ingressarem na polícia, ou ocuparem cargos públicos. Espero ter sido claro e objetivo no que escrevi.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

CONTRIBUIÇÕES DE SANTO AGOSTINHO PARA A FORMAÇÃO DOS IDEAIS DE “GUERRA JUSTA”.


Jeferson Silva Ribeiro (UEM)

Jaime Estevão dos Reis (UEM)



                                                                                                                        
RESUMO:

A igreja cristã teve um posicionamento pacifista, mediante o tema da guerra, ou da agressão, até o século IV. Porém uma mudança significativa na política Imperial Romana eleva o cristianismo à religião oficial do Império, fazendo com que o cristianismo passasse a fazer parte do Império e o Império viesse a ser cristão. Diante dessa nova postura imperial, deveria nascer uma, também nova, postura por parte dos cristãos. O cristianismo passa admitir o uso da força e das armas para a defesa do Império – que é agora também a defesa da própria igreja e da religião cristã – frente às invasões bárbaras e os movimentos heréticos. Uma nova linha de pensamentos irá se formar para a defesa dessa nova apropriação de um cristianismo que assumia o belicismo, não mais apenas espiritual, mas que tomava armas para um combate corporal. Uma nova interpretação dos escritos e das tradições eclesiásticas deve ser tomada e para essa nova teoria que se forma no seio do cristianismo, teremos um dos mais influentes pensadores para o cristianismo medieval: Santo Agostinho de Hipona lançará as bases para a teoria de uma guerra justa – que se resume em uma união da ética cristã com o belicismo do medievo – que estará presente em toda a Idade Média.
Como o objetivo desta pesquisa esta em estudar o “conceito de guerra” no pensamento de Santo Agostinho, observando as razões e as justificativas para tal prática no âmbito do cristianismo, vamos analisar mais de perto algumas das principais obras de Santo Agostinho, como A Cidade de Deus; Contra Fausto e Confissões; Assim como uma breve analise de Cícero, dada a influência desse filósofo romano para o pensamento de Santo Agostinho.

Palavras-Chave: Guerra; Santo Agostinho; Idade Média; Cristianismo.











Introdução:

Este texto tem como objetivo discutir a guerra na Idade Média tomando como fonte de análise as obras de Santo Agostinho. Este pensador cristão medieval foi um dos primeiros a refletir sobre o tema da guerra e contribui de forma expressiva para a definição do seu conceito no âmbito medieval.
A especificidade de tal tema na Idade Média está na problemática conciliação entre o cristianismo pacifista dos três primeiros séculos da Era Cristã e o belicismo, que foi uma característica marcante do mundo medieval. Em entrevista da Revista L’Histoire publicada em 1995, foi elaborada a seguinte pergunta a Jacques Le Goff: “Cristo deixou uma mensagem de paz. Os cristãos entretanto pegaram em armas. Como conciliar as duas exigências?” (apud LE GOFF, 2008, p. 105).  Em resposta, Le Goff, após refletir sobre a concepção pacifista dos primeiros cristãos citando teóricos como Tertuliano e Orígenes, explica como ocorreu a mudança de uma concepção cristã pacifista para um cristianismo guerreiro.
Utilizemos às suas próprias palavras para esclarecer esse ponto:

A situação irá mudar a partir do século IV. A razão essencial é que o cristianismo se tornou religião do Estado, os cristãos foram integrados à sociedade pública e não mais puderam opor uma recusa a uma guerra que se impunha ao agora Império Cristão: a sociedade romana estava exposta a múltiplos ataques, em particular por parte daqueles a que chamamos os “bárbaros”. A partir desse momento, foi necessário que os cristãos cristianizassem a guerra (LE GOFF, 2008, p. 106).

Temos, portanto, um fator de extrema importância para o desenvolvimento da temática da guerra no seio da igreja: a nova situação encarada pelo cristianismo. De acordo com García Fitz, a Igreja “preconstantina” não tinha porque defender o uso das armas, contrário a uma primeira interpretação do Novo Testamento. Apenas quando a Igreja se constitui em Império Cristão é que surge a necessidade de se pegar em armas para defender esse Império que já era encarado por muitos cristãos como o Reino de Deus na Terra (GARCÍA FITZ, 99-103; 119-125).
Tendo essas questões como premissa, podemos a partir daqui analisar as obras do pensador que mais influenciou a teologia e o pensamento medieval, e, conseqüentemente, refletiu sobre a utilização da guerra: Santo Agostinho.
Santo Agostinho, o doutor de Hipona, vive no momento crítico da crise e queda do Império Romano – as invasões bárbaras. Porém, quando nasce, o Edito de Milão já havia sido proclamado e a igreja já gozava de liberdade de culto e de alguns favores do Império. Por isso os cristãos já tinham também as suas responsabilidades para com o império, como no caso em questão, defender Roma.
Portanto, podemos observar que no século IV, o uso de armas e a guerra, já eram considerados como atitudes comuns no Império cristianizado, tanto que, em seus escritos, Agostinho não precisou argumentar longamente sobre o problema de se fazer ou não fazer guerra, a não ser com grupos ou seitas mais radicais que lutavam pelo pacifismo a todo custo – como o caso dos maniqueus. No geral o que podemos notar é a argumentação de Santo Agostinho sobre como uma guerra deve ser feita por cristãos, ou seja, como uma guerra pode ser considerada justa.
Essa concepção de Santo Agostinho está diretamente relacionada à sua interpretação da História, que difere da interpretação clássica de um dualismo metafísico. Fazendo emergir o conceito de Providência, em que Deus tem total controle da história e dos fatos, fazendo com que todos os fatos, sejam eles bons ou maus – embora a interpretação desse mal para Agostinho também representará um mal totalmente diferente do mal dualista –, levem ao final determinado por Deus onipotente (LEÃO, 2002, p. 17 – 21). Tal idéia sobre a história não poderia deixar de inferir sobre o conceito de guerra, em que podemos observar a idéia de Providência nas próprias palavras de Agostinho:

Assim escapou à morte a maioria desses caluniadores de nossa era cristã, que atribuem ao Cristo os males que Roma sofreu; o beneficio da vida, por eles devido ao nome do Cristo, não é a nosso Cristo, porém, que atribuem, e sim ao destino, quando, se maduramente refletissem, no que suportaram de infortúnios poderiam reconhecer a providência, que se vale do flagelo da guerra para corrigir e pulverizar a corrupção humana e, atormentando com semelhantes aflições almas justas e meritórias, faz que, depois da prova , passem a melhor destino ou as retém na Terra para outros desígnios. (SANTO AGOSTINHO, 2002, p. 28 – 29).

A interpretação agostiniana da guerra é fundamental para que possamos entender a construção do conceito de guerra justa na Idade Média. Tal explicação, ou interpretação, nasce da experiência pessoal do Doutor de Hipona e de sua opinião sobre a natureza humana, como afirma García Fitz:

Su experiência personal y su sombria opinión sobre la natureza humana le llevaron a aceptar que el pecado era consustancial al hombre y que la guerra, que no era sino su consecuencia, debía considerarse como um mal menor, inevitable y necesario, em um mundo en el que la paz completa no podría alcanzarse nunca. Esta última convicção le obligó a reiterpretar la ética cristiana de la no violencia a la luz de aquella realidad insoslayable. Los cristianos no podían obviar que la paz era imposible en la tierra y, por tanto, no tenían otra opcíon que aceptar la existencia de la guerra y tomar parte en Ella para combatir el pecado, la maldade y la injusticia, al menos bajo ciertas condiciones. De esta forma, la guerra, que originalmente es fruto Del pecado, se convierte también en herramienta de Dios para luchar contra El. (GARCÍA FITZ, 2003, p. 123 – 124).

Em suas obras, Santo Agostinho, transmite sua visão sobre a guerra, às vezes direta, às vezes indiretamente, mas pensando em como tais escritos puderam influenciar o mundo medieval, vamos tentar observar esses dois modos que podem ter influenciado grandemente na elaboração do conceito medieval de guerra justa. Por exemplo, em uma passagem das suas Confissões ele diz:

Há certos atos que se assemelham a delitos ou a maldades, e contudo não são pecados porque nem Vos ofende a Vós, Senhor nosso, nem ao convívio social. Por exemplo, quando se procura alcançar alguma coisa útil à vida e aos tempos, não se sabendo se é por desejo desregrado de possuir, ou quando uma autoridade, legalmente estabelecida, castiga pelo desejo de corrigir, duvidando-se se o pratica pelo prazer de fazer o mal.
Desta forma muitas ações que aos homens parecem reprováveis são, pelo Vosso testemunho, aprovadas (SANTO AGOSTINHO, 1992, p. 71).

Neste momento Santo Agostinho esta falando sobre a moral, e se inserirmos nesse texto o ideal de guerra justa, fica claro como acontece essa adaptação, principalmente se relacionarmos as atitudes do príncipe, citadas pelo nosso autor, à declaração de uma guerra que, seguindo alguns preceitos, só deve ser feita por uma autoridade estabelecida.
Podemos ver também um posicionamento mais direto de Agostinho no terceiro volume de uma de suas obras de maior prestigio, A cidade de Deus, escrita durante as invasões bárbaras dos séculos IV e V, o que dá certo peso à sua argumentação sobre a guerra que vemos abaixo:

Quem quer observe um pouco as questões humanas e a nossa comum natureza reconhecerá comigo que, assim como não há quem não procure a alegria, também não há quem não queira possuir a paz. Realmente, mesmo quando alguém faz a guerra, mais não quer que vencer; portanto, é a uma paz gloriosa que pretende chegar, lutando. Na verdade, que mais é a vitória senão a sujeição dos que resistem? Logo que isto se tenha conseguido, será a paz. As próprias guerras, portanto, são conduzidas tendo em vista a paz, mesmo por aqueles que se dedicam ao exercício da guerra, quer comandando quer combatendo. Donde se evidencia que a paz é o fim desejado da guerra. Efetivamente, todo homem procura a paz, mesmo fazendo a guerra; mas ninguém procura a guerra ao fazer a paz. (SANTO AGOSTINHO, 2000, p. 1909).

Em outra passagem da obra deste pensador, a menção a uma guerra justa é bastante evidente. Quando se refere às guerras que visam à expansão do Império Romano, Santo Agostinho diz:

Considerem se é próprio de gente de bem regozijar-se com a grandeza do reino. A iniqüidade daqueles contra quem se travaram guerras justas auxiliou o crescimento do reino. Esse, na realidade, seria pequeno, se a justiça e a paz dos povos vizinhos não o levassem, por causa de alguma ofensa, a declarar-lhes guerra. Desse modo, gozando todos os reinos, em boa vizinhança, da maior felicidade nas coisas humanas, seriam pequenos e, assim, haveria no mundo muitíssimos reinos de nações, como há na cidade muitíssimas casas de cidadãos. Por isso, guerrear e dilatar o reino, senhoreando povos, aos maus parece ventura, e aos bons, necessidade. Mas, por que seria pior que os mais justos se vissem dominados pelos injustos, não sem motivo se chama também a isso felicidade.
Sem dúvida alguma, porém, é maior felicidade viver em paz como bom vizinho que subjugar pelas armas o mau. Maus desejos são desejar ter a quem odiar ou a quem temer, para poder ter a quem vencer... (SANTO AGOSTINHO, 2002, p. 164 – 165).

Nesse ponto a critica de Agostinho se centraliza, não no “fazer a guerra”, mas na motivação que está por trás dessa guerra: “desejar ter quem odiar ou quem temer, para poder ter quem vencer” (SANTO AGOSTINHO, 2002, p.165). Vemos, então, que a motivação ou a causa de uma guerra podem defini-la muitas vezes como injusta. A guerra para ser justa deve ser feita contra a iniqüidade, ou seja, sempre deve ser tomada com uma reação, ou defesa às afrontas inimigas. “É, na verdade, a iniqüidade da parte adversa que impõe ao sábio que empreenda a guerra justa” (SANTO AGOSTINHO, 2002, p. 1899). Além desse ponto há ainda outro fator que deve ser observado para que uma guerra seja considerada justa, e segundo Santo Agostinho, será essencial que a guerra seja declarada por uma autoridade legitima, seja essa autoridade o próprio Deus ou o príncipe.
Nas palavras do próprio Bispo de Hipona, “[...] o soldado que mata por obediência à autoridade legítima não é considerado homicida por nenhuma lei civil” (SANTO AGOSTINHO, 2002, p. 56). Assim, de acordo com Santo Agostinho, o soldado será apenas uma ferramenta e não poderá ser condenado por homicídio, ainda mais por fazer o bem, ao ser usado por Deus ou pelo príncipe, para levar a justiça, a paz e punir criminosos:

A mesma autoridade divina estabeleceu, porém, certas exceções à proibição de matar alguém. Algumas vezes, seja como lei geral, seja por ordem temporária e particular, Deus ordena o homicídio. Ora, não é moralmente homicida quem deve à autoridade o encargo de matar, pois não passa de instrumento, como a espada que fere. Desse modo, não infringiu o preceito quem, por ordem de Deus, fez guerra ou, no exercício do poder público e segundo as leis, quer dizer, segundo a vontade da razão mais justa, puniu de morte criminosos; assim também não acusam Abraão de crueldade, mas gabam-lhe a piedade, quando, assassino por obediência, quer matar o filho...(SANTO AGOSTINHO, 2002, p. 51 – 52).

Como temos observado até aqui, a formação do conceito de guerra justa passa por vários estágios, mas encontra em Santo Agostinho, reconhecidamente um dos pilares da Igreja cristã, seu ponto chave, a base que influenciará por toda a Idade Média, o pensamento militar diretamente relacionado ao cristianismo, e que, posteriormente, alcançara o seu clímax com a idéia de guerra santa.
A guerra justa não se relacionará, pelo menos entre os defensores dessa idéia na Idade Média, com destruição e morte, pelo contrário. Graças a tais contribuições agostinianas, ela será entendida como a busca do pacifismo e da ordem no contexto de uma sociedade que vive o caos. Uma guerra conduzida diretamente por Deus encontraria facilmente sua legitimidade em uma sociedade com a mentalidade totalmente voltada para a religião. Sendo assim da mesma forma que Agostinho se refere a Abraão – “Si Abrahán hubiese sacrificado por própria iniciativa a su hilo, no havia sido una pessoa horripilante y loca? En cambio, al hecerlo por mandato de Dios, no aparece como un hombre fiel y devoto?” (SANTO AGOSTINHO, 1993, p. 602) -  os cavaleiros passaram, embora também após um longo processo, a encontrar a sua maior honra em lutar e derramar sangue inimigo, mas sempre em nome da fé; e assim puderam ser vistos como fiéis e devotos Cavaleiros de Cristo.




REFERÊNCIAS

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SANTO AGOSTINHO. Confissões. Petrópolis: Vozes, 1992.


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ESCATOLOGIA REFORMADA


por   
   
Autor Desconhecido
                                                                    
SUMÁRIO 


INTRODUÇÃO

CAPÍTULO I - ESCATOLOGIAS CONTEMPORÂNEAS 
1.Escatologia Consistente 
2.Escatologia Realizada 

CAPÍTULO II - AMILENISMO AGOSTINIANO 
1.Descrição e Origem 
2.Apoio do Novo Testamento 
3.As Duas Ressurreições 
4.Profecias do Antigo Testamento

CAPÍTULO III - AMILENISMO CLÁSSICO 
1.Descrição 
2.Interpretação de Apocalipse

CAPÍTULO IV - PÓS-MILENISMO 
1.Descrição 
2.Origem
3.Apoio do Novo Testamento 

CAPÍTULO V - PRÉ-MILENISMO HISTÓRICO 
1.Descrição 
2.Interpretação de Gálatas 6:16 

CAPÍTULO VI - PRÉ-MILENISMO DISPENSACIONALISTA 
1.Origem 
2.Descrição 
3.As Duas Ressurreições 
3.1.A Ressurreição para a Vida 
3.2.A Ressurreição para a Condenação
3.3.O Tempo das Ressurreições 
3.4.OA palavra escatologia é formada de duas palavras gregas: 
escato (eschatos = último, fim) e logo (lógos = palavra, discussão, instrução, ensino, assunto, tema). Portanto escatologia é o estudo do fim ou o estudo das últimas coisas, ou ainda o estudo dos últimos dias. Programa da Ressurreição
4.Profecias do Antigo Testamento

INTRODUÇÃO                                                                                      

Várias passagens das Escrituras empregam a palavra eschatos juntamente com hmera (heméra = dia). Assim temos escath hmera (eschatê heméra = último dia), usado em Jo.6:39 e 7:37. A primeira ocorrência se refere aoúltimo dia da ressurreição, um dia escatológico, enquanto que a segunda apenas faz alusão ao último dia da festa de casamento. Temos escatai hmerai (eschatais hemerais = últimos dias) em At.2:17; II Tm.3:1; Tg.5:3; e escatou twn hemerwn (eschatou tôn hemerôn = últimos dias) em Hb.1:2. Todas estas passagens aludem ao período de tempo entre a 1ª e a 2ª vindas de Jesus. Os últimos dias iniciaram-se com a 1ª vinda de Jesus que veio na "plenitude do tempo"(Gl.4:4), pois o tempo anterior da dispensação da lei já estava cumprido (Mc.1:15; Lc.16:16). Estamos vivendo os últimos dias. Esse período de tempo que a Bíblia chama de últimos dias, recebe ainda outras designações, tais como: "tempo aceitável... dia da salvação"(Is.49:8) ou "ano aceitável do Senhor"(Is.61:2a); "dispensação da plenitude dos tempos"(Ef.1:10) ou "dispensação da graça"(Ef.3:2)1 ou "dispensação do mistério"(Ef.3:9); "tempo da oportunidade", "tempo sobremodo oportuno", "dia da salvação"(IICo.6:2), "tempos oportunos" (IITm.2:6), "tempos devidos" (Tt.1:3); "hoje" (Hb.3:7,15;4:7,8); "fins dos séculos" (ICo.10:11); "última hora"(IJo.2:18).
Durante este período a Igreja tem a incumbência de proclamar o evangelho antes que venha o "grande e terrível dia do Senhor"(Ml.4:5), que porá fim aos últimos dias, para inaugurar o "dia da vingança do nosso Deus"(Is.61:2b).
A Bíblia é categórica em afirmar a existência de três dias (considerados como períodos) nos quais se deve fazer distinção quanto ao programa de Deus para cada um deles. O dia do homem é o dia da salvação, dia de oportunidade. O dia do Senhor e o dia de Cristo2 é dia do arrebatamento da Igreja e de tribulação para Israel, e de castigo para os gentios (conforme o pré-milenismo). O dia de Deus é o dia quando "os céus incendiados serão desfeitos e os elementos abrasados se derreterão"(IIPe.3:12). Inicia-se no dia do juízo final, e talvez (conforme o amilenismo ou pós-milenismo), o dia do fim (ICo.15:24), quando "Deus será tudo em todos"(ICo.15:28).
O estudo da escatologia deve levar o crente a proclamar o dia do homem(a salvação), o dia do Senhor (a volta de Cristo)e o dia de Deus(após o juízo).Veja Jo.16:8; Hb.6:2. Se queremos conhecer as profeciais apenas para satisfazer nossa curiosidade, então estaremos nos aplicando aos estudo das Escrituras de uma forma que não agrada a Deus. Deve ser nosso objetivo discernir os tempos para que nossos espíritos se entreguem à mais nobre tarefa da qual fomos incumbidos: o anúncio da morte do Senhor, sua ressurreição e seu retorno à esta terra: "anunciais a morte do Senhor até que Ele venha"(ICo.11;26).
Estudando escatologia, veremos que muitas profecias se cumpriram, demonstração clara e evidente de que as demais profeciais hão de se cumprir, e portanto devemos proclamá-las com ardente fervor. Ouçamos, pois, a advertência do apóstolo: "E digo isto a vós outros que conheceis o tempo, que já é hora de vos despertardes do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto do que quando no princípio cremos. Vai alta a noite e vem chegando o dia..."(Rm.13:11,12). Anunciemos o evangelho enquanto é dia (Jo.9:4), antes que venha o "dia de escuridade e densas trevas"(Jl.2:2).
Além deste, podemos citar vários outros motivos porque devemos estudar profecias:
1) Sua importância nas Escrituras é estabelecida pelo fato de que 25% da Bíblia é composta de profecias. Convém mencionar que todas elas, com uma única excessão, são literais.
2) Há a promessa da iluminação do Espírito Santo no estudo das profecias (Jo.16:13).
3) A profecia serve de consolo para os crentes (IITs.1:4-10; Hb.10:32-39).
4) As profecias causam influência nos descrentes (Is.44:28; IICr.36:22,23; Ed.1:1,2).
5) Devemos estudar as profecias para combater as falsas interpretações dada pelas seitas.
6) As profecias nos dão claras orientações para os últimos dias.
7) As profecias nos incitam à uma vida de pureza (I Jo.3:1-3).
8) Oferece equilíbrio doutrinário na vida do estudante de profecias.
É mister lembrar que o estudo da escatologia não nos levará a desvendar todos os mistérios, épocas e tempos estabelecidos por Deus. Deus nos dará compreensão apenas às coisas que nos foram reveladas (Dt.29:29), mas as coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, e não nos "compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou para sua exclusiva autoridade"(At.1:7).

CAPÍTULO I
ESCATOLOGIAS CONTEMPORÂNEAS

A doutrina ortodoxa da Igreja, embora com nuances de variações, sempre dominou sobre as demais tendências teológicas. Em todos os séculos sempre houveram segmentos religiosos inclinados a uma corrente mais liberal. Mas sempre a ortodoxia dominou sobre esses movimentos que geralmente eram mais externos do que internos.
No século XIX, entretanto, o liberalismo teológico invadiu o interior da Igreja, ressurgindo com uma força mais expressiva, atingindo as bases, fazendo com que surgissem novas abordagens teológicas. A ortodoxia sofreu todo tipo de ataques, vindo de todas as partes, da ciência natural às ciências humanas. No campo da filosofia, por exemplo, podemos mencionar Schleiermacher que "propôs um cristianismo como sendo meramente uma questão de sentimentos,"1 negando a questão ética.
Foi nesse tempo de distúrbios teológicos, somado às novidades na área científica, como a teoria das espécies de Darwin, que fez com que a Igreja adotasse novos rumos, a fim de responder aos desafios da época. Foi nesse período que surgiram a Escatologia Consistente de Schweitzer e a Escatologia Realizada de Dodd.

1. ESCATOLOGIA CONSISTENTE:
Alguns defendiam que a essência do cristianismo era de caráter ético. O estabelecimento do reino de Deus não se daria de forma cataclística (como a 2ª vinda de Cristo), mas seria introduzido progressivamente através dos esfôrços dos cristãos. Entre os defensores dessa corrente encontramos Albercht Ritschl.2
Johannes Weiss propôs um meio termo "juntando um conceito verdadeiramente escatológico ou futurista com a idéia do reino como uma realidade ética presente".3
Weiss defendia que Jesus era totalmente escatológico, apocalíptico e futurista.
Mas o pensador de maior expressão dessa tendência teológica foi Albert Schweitzer (1875-1965), porque Schweitzer ampliou a proposta de Weiss, aplicando a sua teologia consistente à todo o Novo Testamento, e não somente aos ensinos de Jesus.
"Segundo a Escatologia Consistente de Scheweitzer, Jesus, crendo ser o Messias de Israel, descobriu que a consumação não chegou quando Ele a esperava (cf. Mt.10:23) e aceitou de bom grado a morte, a fim de que a suaparusia4 com o Filho do Homem pudesse ser forçosamente realizada. Visto que a roda da história não atenderia ao toque de sua mão, girando para completar sua última volta, Ele se lançou sobre ela e foi quebrado por ela, apenas para dominar a história decisivamente por meio do seu fracasso, mais do que poderia ter feito se tivesse realizado sua ambição mal interpretada. A mensagem dele, conforme sustentava Schweitzer, era totalmente escatológica no sentido exemplificado pelo apocalipcismo contemporâneo mais grosseiro. Seus ensinos éticos eram planejados para o período entre o início do seu ministério e a sua manifestação em glória. Mais tarde, quando se percebeu que a morte dele destruíra as condições escatológicas, ao invés de introduzí-las, a proclamação do reino foi substituída pelo ensino da igreja".5
Podemos concluir, por outras palavras, que a Escatologia Consistente defende a idéia de que Jesus não consumou suas predições escatológicas. Nenhum dos fatos "previstos" por Jesus se cumpriram, mas os fatos foram forjados e adaptados às circunstâncias históricas. Jesus previa o óbvio, planejando sistematicamente suas ações, mas nem sempre o óbvio acontecia, portanto Jesus teve que adaptar suas previsões escatológicas. Por isso essa escatologia recebeu o nome de consistente, porque devia ser consistente (de acordo) com os fatos.

2. ESCATOLOGIA REALIZADA:
Enquanto a Escatologia Consistente considerava que os eventos antecipados por Jesus nunca ocorreram, a Escatologia Realizada, ao contrário, afirmava que os eventos já haviam ocorrido, já tinham sido realizados.
O defensor dessa tendência foi Charles H. Dodd (1884-1973). Para Dodd "a nova era já está aqui; Deus estabeleceu o reino. O conceito mitológico do dia do Senhor foi transferido a um evento histórico específico que já ocorreu, ou, na realidade, a uma série de tais eventos - o ministério, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. A escatologia foi cumprida ou 'realizada'. Aquilo que era futuro nos tempos das profecias do Antigo Testamento tornou-se presente. Ao invés de procurar duas vindas de Cristo, devemos entender que há apenas uma; devemos interpretar estas 'predições' à luz das suas declarações de que o Reino de Deus está aqui - está próximo. Jesus não estava falando de como seria, mas de como era".6
Há quatro maneiras de interpretar a escatologia bíblica: "A interpretação idealista (ou simbólica) tira o elemento temporal da apocalíptica. Os símbolos ou eventos que descreve não ocorrerão em qualquer ponto específico na história, mas, sim, representam e apresentam 'verdades eternas', verdades acerca da natureza da realidade ou da existência humana que ou estão continuamente presentes ou recorrem continuamente. Não perguntamos delas: 'Quando?' mas, sim, 'O quê?' O futurista faz os elementos proféticos e apocalípticos nas Escrituras referirem-se primeiramente a um 'tempo do fim' quando todos os eventos virão a acontecer. A maior parte dele ainda é futuro para nós, como era para aqueles que viviam nos tempos bíblicos. O historicista considera que a apocalíptica pertence a eventos que ainda eram futuros na ocasião em que foram descritos (o período bíblico), mas que já ocorreram e continuam a ocorrer dentro da vida histórica da igreja. A abordagem preterista considera que o cumprimento da apocalíptica ocorreu mais ou menos contemporaneamente com o registro bíblico dela. Destarte, os 'últimos tempos' já teriam acontecido quando o escritor bíblico os descreveu".7
Com esses conceitos, agora podemos melhor definir a Escatologia Realizada. Fica claro perceber que a Escatologia Realizada adota uma abordagem preterista na sua interpretação.
J. A. T. Robinson, que foi aluno de Dodd, "interpreta a 'parusia' de Cristo não como um evento literal do futuro, mas como uma apresentação simbólica ou mitológica daquilo que acontece sempre que Cristo vem com amor e poder, demonstrando os sinais da sua presença e as marcas da sua cruz. (...) Robinson nega que Jesus usasse linguagem que subentendesse a sua volta do céu para a terra. As expressões dele que assim foram entendidas apontam para os temas paralelos da vindicação e da visitação - notavelmente sua resposta à pergunta do sumo sacerdote no seu julgamento (Mc.14:62), onde a frase adicional 'desde agora' (Lc.22:69; Mt.26:64) é entendida como parte autêntica da resposta. O Filho do Homem, condenado pelos juízes humanos, será vindicado no tribunal da justiça divina; sua visitação consequente ao seu povo em julgamento e redenção acontecerá 'desde agora' tão seguramente como a sua vindicação.
Ao invés de falar na Escatologia Realizada, Robinson (seguindo Georges Florovski) fala de uma 'Escatologia Inaugurada' - uma escatologia inaugurada pela morte e ressurreição de Jesus, que lançaram e iniciaram uma nova fase do reino em que 'desde agora' o plano divino de redenção atingiria o seu cumprimento. Ao ministério de Jesus antes de sua paixão, Robinson aplica o termo 'Escatologia Proléptica', porque naquele ministério os sinais da era do porvir tornaram-se previamente visíveis".8

CAPÍTULO II
AMILENISMO AGOSTINIANO

Há dois tipos de amilenismo: (1) O Amilenismo Clássico que considera o Reino de Deus como sendo o domínio de Deus sobre os santos que estão nos céus, fazendo do Reino de Deus um reino celestial - o Reino dos Céus. (2) O Amilenismo Agostiniano, que também é o ponto de vista defendido pela Igreja Católica Romana, considera o cumprimento de todas as promessas do Antigo Testamento com respeito ao Reino, como sendo o reinado de Cristo do trono do Pai sobre a Igreja, que está na terra. Esses dois pontos de vista são considerados ortodoxos, pois ainda defendem uma interpretação literal das doutrinas da ressurreição, do juízo, do castigo eterno, e outros temas relativos. O Amilenismo Modernista, no entanto, nega as doutrinas da ressurreição, do juízo, da segunda vinda, do castigo eterno, e outros assuntos relativos. O amilenismo romano produziu o sistema de purgatório, o limbo, e outras doutrinas não bíblicas. Estudaremos apenas o amilenismo ortodoxo.

1. DESCRIÇÃO E ORIGEM:
O Amilenismo Agostiniano ensina que não haverá um milênio de paz e justiça na terra antes do fim do mundo. Os amilenistas crêem que haverá um crescimento contínuo de bem e mal no mundo que culminará na Segunda Vinda de Cristo quando os mortos serão ressuscitados e se processará o último julgamento. Os amilenistas crêem que o Reino de Deus está presente agora no mundo, enquanto o Cristo vitorioso governa seu povo através de sua Palavra e Espírito. Este conceito de amilenismo recebe o nome agostiniano porque foi defendido por Agostinho de Hipona(354-430 d.C.). Inicialmente Agostinho era pré-milenista, mas abandonou esta posição "em vista do extremismo e carnalidade imoderada daqueles que sustentaram o pré-milenismo em sua época." Agostinho foi também influenciado por Ticônio e pelo método de interpretação alegórica de Orígenes.
Durante os primeiros três séculos a interpretação pré-milenista dominou sobre a Igreja Primitiva, mas a partir do século IV o amilenismo ganhou força, principalmente porque a Igreja Cristã recebeu uma posição favorável do Imperador Constantino, que deu fim a perseguição da Igreja. A "conversão" de Constantino e o reconhecimento político do cristianismo, foi interpretado como o princípio do reino milenial sobre a terra. No Concílio de Éfeso, em 431, o pré-milenismo foi condenado como superstição. Embora o amilenismo tenha dominado na história da Igreja por treze séculos (do século IV a XVII), especialmente porque tinha o respaldo dos Reformadores, o pré-milenismo continuou a existir e a ser defendido por certos grupos de crentes. Durante o século XIX o pré-milenismo atraiu novamente a atenção. Este interesse foi nutrido pelo violento transtorno das instituições políticas e sociais européias na época da Revolução Francesa.
O Amilenismo Agostiniano angariou expressão no seio da Igreja, dominando por treze séculos. Ainda hoje o Amilenismo Agostiniano encontra adéptos em todas as denominações religiosas. ODr. Pentecost alista sete razões porque o Amilenismo Agostiniano é tão popularmente aceito: "(1) Es un sistema inclusivo, que puede abarcar todos los estratos del pensamiento teológico: protestante modernista,protetante ortodoxo y católico romano... (2) Con excepción del premilenarismo, es la teoría relativa al milenio más antigua; y por lo tanto, tiene la pátina o el barniz de la antigüedad sobre ella. (3) Tiene el sello de la ortodoxia, por cuanto fue el sistema adoptado por los reformadores y llegó a ser el fundamento de muchas declaraciones de fe. (4) Se conforma con el eclesiasticismo moderno, que hace hincanpié en la iglesia visible que es, para el amilenarismo, el centro de todo el programa de Dios. (5) Presenta un sencillo sistema escatológico, con una sola resurrección, un juicio, y muy poco programa profético futuro. (6) Se conforma fácilmente con las presuposiciones de la llamada 'teología del pacto'. (7) Atrae a muchos por ser una interpretación 'espiritual' de la Escritura, en vez de ser una interpretación literal, la cual sería un 'concepto carnal' del milenio." ((1) É um sistema inclusivo, que pode abraçar todos as esferas de pensamento teológico: protestante modernista, protestante ortodoxo e católico romano... (2) Com excessão do pré-milenismo, é a teoria relativa ao milênio mais antiga; e portanto, tem a proteção ou a cobertura da antiguidade sobre ela. (3) Tem o selo da ortodoxia, porquanto foi o sistema adotado pelos reformadores e chegou a ser o fundamento de muitas declarações de fé. (4) Se conforma com o eclesiasticismo moderno, que tem acampado na igreja visivel que é, para o amilenismo, o centro de todo o programa de Deus. (5) Apresenta um simples sistema escatológico, com uma só ressurreição, um juízo, e muito pouco programa profético futuro. (6) Se conforma facilmente com as presuposições da chamada "teologia do pacto". (7) Atrai a muitos por ser uma interpretação "espiritual" da Escritura, em vez de ser uma interpretação literal, a qual seria um "conceito carnal" do milênio. - tradução do autor).

2. APOIO DO NOVO TESTAMENTO:
Notamos nesta definição que o termo amilenismo é infeliz, pois sugere que os amilenistas não crêem em qualquer tipo de milênio. É verdade que os amilenistas agostinianos rejeitam a idéia de um reino terreno literal de mil anos que se seguirá ao retorno de Cristo, mas também é verdade que eles crêem que o milênio de Apocalipse 20 não é exclusivamente futuro, mas está em processo de realização hoje, não literalmente, mas de forma espiritual. Cristo reina hoje na terra, através da Igreja, pois os amilenistas crêem que o reino de Deus está no seio da Igreja: "...não vem o reino de Deus com visível aparência... porque o reino de Deus está dentro em vós."(Lc.17:20,21). Os amilenistas crêem que os crentes já reinam com Cristo no presente, pois Ele "nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai..."(Ap.1:6). A Igreja de Cristo é "sacerdócio real"(IPe.2:9), e nessa qualidade reina, expandindo o Reino de Deus no mundo, através de proclamação "das virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz." Para os Amilenistas Agostinianos o Reino de Deus prometido ao povo de Israel, foi transferido para a igreja (Mt.42,43), porque Israel rejeitou o seu Messias. Por causa disso a Igreja agora é o novo "Israel de Deus."(Gl.6:16).
Os amilenistas crêem na expansão do evangelho, porque acreditam que Ap.20:3 já se cumpriu. Para eles Satanás está preso agora. Figueredo citando Agostinho diz que "em sua exegese concluiu que Cristo o prendeu na sua 1ª vinda - Ele 'manietou o valente' (Mt.12:26-29) - desfez as obras dele (IJo.3:8), aniquilou-o na cruz (Hb.2:14) e triunfou dele na cruz (Cl.2:15). Expulsou e julgou o príncipe deste mundo (Jo.12:31;16:11). Em Lucas 10:17,18 ele é 'lançado à terra' quando os discípulos pregavam."
Para explicar a ação de Satanás na presente era, Figueredo explica que a palavra preso usado em Ap.20:3 não significa inativo, mas apenas limitado. "Sua prisão, cremos, é relacionada com o impedimento de sua ação contra a Igreja (Mt.18:16-18); ele não pode impedir o avanço da Igreja e do Evangelho."
Figueredo prossegue dizendo que esta limitação de Satanás terá fim, quando ele for solto novamente, fato que será concomitante com a grande tribulação (Mt.24:29,30) e com a apostasia (IITs.2:8). Depois o Senhor descerá do céu e destruirá o Anticristo. "Então se seguirão o novo céu e a nova terra, onde os salvos reinarão, não apenas por mil anos, mas para sempre."
O Dr. Russel Shedd informa que Agostinho interpretou a prisão de Satanás à maneira da Escatologia Realizada de Dodd. Shedd diz que "para Agostinho, Marcos 3:27, continha a chave da compreensão certa do milênio... explicou este verso assim: ninguém poderá entrar na casa do poderoso e tomar os seus bens sem primeiramente amarrá-lo. O homem forte era Satanás. Seus bens, são os cristãos (antes da conversão) que estavam sob o seu domínio. Cristo o dominou, amarrando-o e segurando-o durante todo o período entre a primeira e a segunda vinda. No fim desta época Satanás será posto em liberdade para testar a Igreja. Em seguida será absolutamente dominado, iniciando a era eterna."
O Amilenismo Agostiniano, portanto, prevê o completo domínio do bem sobre o mal, através da pregação do evangelho. A medida que o Reino de Deus está sendo expandido na terra, através da Igreja, a situação do mundo vai melhorando.

3. AS DUAS RESSURREIÇÕES:
A interpretação que se dá as duas ressurreições mencionadas em Apocalipse 20:4-6, direciona para uma das posições escatológicas existentes. Aqueles que interpretam as duas ressurreições como sendo ambas corporais, ocorridas interpoladamente entre um período de mil anos, inclinam-se para o pré-milenismo. Os que defendem ser a primeira ressurreição, uma ressurreição espiritual, e a segunda uma ressurreição corporal, adotam o amilenismo ou o pós-milenismo.
Os amilenistas, tanto quanto os pós-milenistas, alegam que as pessoas mencionadas em Ap.20:4 que "viveram e reinaram com Cristo durante mil anos." passaram por uma ressurreição espiritual, ocorrida no novo nascimento, e agora reinam espiritualmente com Cristo.
Para fundamentar esta interpretação apelam para a exegese do texto. Afirmam que o verbo grego ezhsan (ezêsan = viveram) aplica-se tanto à uma ressurreição espiritual, da alma, como à uma ressurreição literal, do corpo. Aqui em Apocalipse 20 o "viveram" do versículo 4 faz referência à uma ressurreição espiritual, enquanto que o "viveram" do versículo 5 se refere a uma única ressurreição corporal, tando dos salvos quanto dos perdidos.
Para dar amparo à interpretação espiritual, citam outras passagens do Novo Testamento onde o mesmo verbo grego é utilizado com esse sentido. Em João 5:21 é usado o verbo grego zwopoiew(zôopoiéô = fazer viver, dar vida ) com sentido espiritual. Este mesmo verbo é usado em ICo.15:22,36, 45; IICo.3:6; IPe.3:18; Rm.4:17. Efésios 2:1-6 também dá apoio a uma ressurreição espiritual. Mas a passagem de maior expressão, mencionada pelos alegoristas, para comprovar a ocorrência de uma ressurreição espiritual e outra física no mesmo contexto, encontra-se em João 5:25-29: "Em verdade, em verdade vos digo, que vem a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que ouvirem viverão (zesousin). (...) Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida: e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo."
O Dr. Ladd diz que "aqui há primeiramente uma ressurreição espiritual, seguida por uma ressurreição física escatológica. Intérpretes amilenistas argumentam que Apocalipse 20 deveria ser interpretado de forma análoga a João 5."
Para o grupo dos que vivem, a hora já chegou. Isto deixa claro que a referência é aos que estão espiritualmente mortos e entram na vida ouvindo a voz do Filho de Deus. O outro grupo (todos), são os que se acham nos túmulos, são tanto aqueles que estão espiritualmente mortos, como aqueles que vivem e já tiveram parte na primeira ressurreição. Ambos serão trazidos à vida, simultaneamente, uns para a ressurreição da vida e outros para a ressurreição do juízo. "Desse modo fica claro que o texto está falando de dois tipos de 'viver': uma ressurreição espiritual no presente e uma ressurreição física no futuro."

4. PROFECIAS DO ANTIGO TESTAMENTO:
Um dos principais argumentos dos amilenistas para a interpretação das profecias do Antigo Testamento acerca dos últimos tempos é que as profecias do Antigo Testamento acerca da primeira vinda de Jesus cumpriram-se espiritualmente.
A hermenêutica adotada pelos amilenistas, para as profecias, é o método alegórico de interpretação. Para os amilenistas o conteúdo histórico da Bíblia deve ser entendido literalmente; o material doutrinário também deve ser interpretado desta maneira; a informação moral e espiritual, do mesmo modo, segue este padrão; entretanto, o material profético deve ser interpretadoalegóricamente.
Os defensores do amilenismo argumentam que há diversas profecias, no Antigo Testamento, acerca da primeira vinda de Jesus, que se cumpriram espiritualmente.
Como exemplo podemos citar uma profecia de Oséias onde lemos: "Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho."(Os.11:1). Esta afirmação histórica que Deus chamou Israel do Egito no Êxodo foi aplicada espiritualmente, no Novo Testamento, à Jesus Cristo, em Mateus 2:15.
Outro exemplo citado pelos exegetas amilenistas é a profecia de Isaías 53:5,6. Em seu contexto, no Antigo Testamento, esta passagem não é uma profecia do Messias, mas sim um servo anônimo, pois o servo sofredor nunca é chamado de Messias. Muitas passagens identificam o servo sofredor com o próprio povo de Israel (Is.45:3;49:3,5;52:13). Entretanto os escritores do Novo Testamento aplicaram o texto de Is.53:5,6 à Jesus Cristo (Mt.8:17; At.8:30-35). Portanto à luz do Novo Testamento o servo sofredor é ao mesmo tempo Israel e o seu Messias. Nota-se o princípio da interpretação espiritual aplicável ao texto.
Vemos este mesmo princípio aplicado à Igreja (Os.1:9,10;2:23 em Rm.9:25,26; Jr.31:33,34 em Hb.8:8-12), como também em relação a João Batista (Ml.3:1;4:5 em Mt.11:13,14;17:11,12). Assim, dentro da perspectiva amilenista "o que une o Antigo e o Novo Testamentos é a unidade do pacto da graça.Os amilenistas não crêem que a história deve ser dividida em uma série de dispensações distintas e discrepantes, masveêm um único pacto da graça que percorre toda a história. Este pacto da graça ainda está em efeito hoje, e culminará na convivência eterna de Deus e seu povo redimido na nova terra". O Dr. J. Dwight Pentecost, em sua obra Eventos do Porvir explica as implicações da teologia do pacto: "...se considera todo el programa de Dios como un programa redentor, de manera que todas las edades son variaciones en la revelación progressivadel pacto de la redención. En lo referente a la escatología, considera que todos los santos de todas as edades son miembros de la Iglesia. Esto perde de vista todas las distinciones que hay entre el programa que Dios tiene para Israel y el que tiene para la Iglesia, y requiere la negación de la enseñanza de la Escritura de que la Iglesia es un misterio, no revelado hasta la edade presente". (...considera todo o programa de Deus como um programa redentor, de maneira que todas as eras são variações na revelação progressiva do pacto da redenção. No que se refere a escatologia, considera que todos os santos de todas as eras são membros da Igreja. Isto perde de vista todas as distinções que há entre o programa que Deus tem para Israel e que tem para a Igreja, e requer a negação do ensino da Escritura de que a Igreja é um mistério, não revelado até a era presente. - tradução do autor).
Vejamos ainda mais dois exemplos de passagens proféticas do Antigo Testamento, que são interpretadas como sendo a descrição do reino milenial. O amilenista Anthony A. Hoekema dá a sua interpretação.
A primeira está em Isaías 11:6-9, onde lemos que "o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito..." Hoekema argumenta que "no fim dos tempos haverá uma nova terra (veja, por exemplo, Is.65:17;66:22; Ap.21:1). Por que não podemos entender os detalhes que encontramos nestes versos como descrições da vida na nova terra? (...) Por que temos de pensar nestas palavras como se tivessem aplicação apenas a um período de mil anos precedendo a nova terra?"
A outra passagem que Hoekema faz referência é Isaías 65:17-25. Ele argumenta que "o verso 18 chama o leitor a exultar 'perpetuamente' - não apenas por mil anos - nos novos céus e nova terra que acabaram de ser descritos. Isaías não está falando aqui de uma novidade para durar apenas mil anos, mas uma novidade eterna!"

CAPÍTULO III
AMILENISMO CLÁSSICO


1. DESCRIÇÃO:
Contrariando o amilenismo agostiniano, o amilenismo clássico não defende um futuro tão otimista para a humanidade. Para eles a presente era vai piorando cada vez mais até a Segunda Vinda de Cristo, o qual virá para dar fim a apostasia. Isto acontece porque este tipo de amilenismo ensina que o milênio mencionado em Apocalipse 20 é distinto da era da Igreja, mesmo que preceda ao Segundo Advento. Esta posição parece ter surgido, como uma tendência alternativa, em substituição ao Amilenismo Agostiniano, para explicar a realidade de que o mundo não vai melhorar, mesmo diante da pregação do evangelho. Pelo contrário, perpetua-se a incredulidade, o pecado e a rejeição de Cristo.
Desse modo os amilenistas clássicos asseveram que o milênio não é tanto "un período de tiempo, sino de un estado de bienaventuranza de los santos en el cielo."1 (um período de tempo, mas sim de um estado de bem-aventurança dos santos nos céus. - tradução do autor). Pentecost citando mais uma vez o pré-milenista John F. Walvoord, que por sua vez cita o amilenista B. B. Warfield, escreve:"Warfield, com la reconecida ayuda de Kliefoth, define el milenio con estas palabras: 'La visión, en una palabra, es una visión de la paz de aquellos que han muerto en el Señor; y su mensaje para nosostros está incorporado en las palabras de Apocalipsis 14:13: Bienaventurados de aquí en adelante los que mueren en el Señor - pasaje del cual la era presente es en verdad sólo una aplicación. El cuandro que se nos presenta aquí es, en fin, el cuadro delestado intermedio de los santos de Dios reunidos en el cielo lejos del ruido confuso y de las vestiduras bañadas en sangre que simbolizan la guerra sobre la tierra, para que ellos puedan esperar con seguridad el fin."2 (Warfiel, com a reconhecida ajuda de Kliefoth, define o milênio com estas palavras: "A visão, em poucas palavras, é uma visão da paz daqueles que estão mortos no Senhor, e sua mensagem para nós está incorporada nas palavras de Apocalipse 14:13: Bem-aventurados de agora em diante os que morrem no Senhor - passagem da qual a era presente é em verdade somente uma aplicação. O quadro que se nos apresenta aqui é, enfim, o quadro do estado intermediário dos santos de Deus reunidos no céu, longe do ruído confuso e das vestes banhadas em sangue que simbolizam a guerra sobre a terra, para que eles possam aguardar com segurança o fim. - tradução do autor).
Para os amilenistas clássicos o Reino de Deus é o Reino dos Céus3 , e este foi inaugurado na 1ª vinda de Jesus: "Se, porém, eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós."(Lc.11:20). Outro versículo usado para defender o amilenismo encontra-se naquela passagem quando Jesus enviou seus discípulos para pregarem o Reino de Deus aos seus compatriotas judeus: "...anunciai-lhes: a vós outros está próximo o reino de Deus."(Lc.10:9). Desse modo, o reino prometido a Israel foi transferido para a Igreja (Mt.21:43).
Cristo reina nos céus agora. Enquanto Ele reina, o evangelho será pregado na terra, até que seja divulgado a todas as nações (Mt.24:14). O evangelho, porém, será rejeitado, pois os homens "não suportarão a sã doutrina"(IITm.4:3), a iniquidade se multiplicará e os crentes se esfriarão: "E, por multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos."(Mt.24:12). Nos últimos tempos"sobrevirão tempos difíceis..."(IITm.3:1), e por isso, surgirão doutrinas de demônios, para as quais "alguns apostatarão da fé"(ITm.4:1). Nesse estado caótico Jesus voltará: "...quando vier o Filho do Homem, achará porventura fé na terra?"(Lc.18:8). Em sua 2ª vinda julgará os povos, separará o trigo do joio, e criará os novos céus e a nova terra. É nesta nova terra que o reino dos céus será implantado.

2. INTERPRETAÇÃO DE APOCALIPSE:
O sistema de interpretação do livro de Apocalipse é o mesmo adotado pelo pós-milenismo, conhecido como paralelismo progressivo, que foi defendido por William Hendriksen, em seu livro: "More Than Conquerors" ("Mais que vencedores").4 Este método de interpretação divide o livro de apocalipse em seções, geralmente sete, "cada uma das quais recapitula os eventos do mesmo período ao invés de descrever os eventos de períodos sucessivos. Cada uma delas trata da mesma era - o período entre a primeira e a segunda vinda de Cristo - retomando temas anteriores, elaborando-os e desenvolvendo-os ainda mais. Apocalipse 20, portanto, não fala de eventos muitos removidos para o futuro, e o significado dos mil anos deve ser achado nalgum fato passado e/ou presente."5
Hoekema utilizando-se do paralelismo progressivo interpreta apocalipse como segue: "A primeira destas seções está nos capítulos 1 a 3. (...) Conforme lemos estas cartas (dirigidas às sete igrejas) somos impressionados por duas coisas. Primeiramente, há referência a eventos, pessoas e lugares da época em que o livro de Apocalipse foi escrito. Em segundo lugar, os princípios, recomendações e avisos contidos nestas cartas valem para a igreja de todos os tempos.
"A segunda destas seções é a visão dos sete selos que se encontra nos capítulos 4 a 7. (...) Nesta visão vemos a igreja sofrendo provas e perseguições sobre o pano de fundo da vitória de Cristo.
"A terceira seção, nos capítulos 8 a 11, descreve as sete trombetas de julgamento. Nessa visão vemos a igreja vingada, protegida e vitoriosa.
"A quarta seção, capítulos 12 a 14, começa com a visão da mulher dando à luz um filho enquanto o dragão espera para devorá-lo logo que ele nasça - uma referência óbvia ao nascimento de Cristo.
"A quinta seção encontra-se nos capítulos 15 e 16. Descreve as sete taças da ira, representando desta forma de maneira bem vívida a visitação final da ira de Deus sobre os que permanecem impenitentes.
"A sexta seção, capítulos 17 a 19, descreve a queda da Babilônia e das bestas. Babilônia representa a cidade do mundo - as forças do secularismo e impiedade que se opõem ao reino de Deus...
"A sétima seção, narra o fim do dragão... descreve o juízo, o triunfo final de Cristo e sua igreja e o universo restaurado, chamado aqui de os novos céus e nova terra.
"Observe que apesar destas seções serem paralelas entre si, revelam também um certo grau de progressão escatológica. A última seção, por exemplo, leva-nos mais além para o futuro que as outras. Apesar do juizo final já ter sido anunciado em 1:7 e brevemente descrito em 6:12-17, não é apresentado detalhadamente senão quando chegamos a 20:11-15. Apesar do gozo final dos redimidos já ter sido insinuado em 7:15-17, não encontramos uma descrição detalhada e elaborada da bênção da vida na nova terra senão quando chegamos ao capítulo 21 (21:1-22:5). Por esta razão, este método de interpretação é chamado paralelismo progressivo."6


CAPÍTULO IV - PÓS-MILENISMO


1. DESCRIÇÃO:
O pós-milenismo tem sido frequentemente difícil de distinguir do amilenismo agostiniano. Ambos tem muitos pontos em comum. Tal qual os amilenistas eles acreditam que (1) O reino de Deus é uma realidade presente; está aqui de modo terreste, no coração dos homens. (2) O pós-milenista espera uma conversão de todas as nações antes que Cristo retorne à terra. (3) O milênio é um período de paz na terra, a medida que mais pessoas se submetem ao evangelho, pois Satanás está preso. Erickson afirma que "este é um conceito verdadeiramente revolucionário, porque dentro da história registrada, a paz em escala mundial tem prevalecido, em média, somente cerca de uma vez cada quinze anos!"1 (4) Haverá um crescimento paulatino do Reino. (5) No fim do milênio haverá um período de apostasia. (6) A 2ª vinda de Jesus inaugurará a era final e o estado final tanto para crentes como para incrédulos. (7) Os mil anos de Apocalipse são simbólicos. O pós milenista acredita num reino terrestre de Cristo, mas com Cristo ausente ao invés de presente. (8) As profecias são menos literais e mais predominantemente simbólicas.

2. ORIGEM:
O pós-milenismo alcançou maior expressão a partir do século XVIII, com o advento do iluminismo. Históricamente o pós-milenismo dominou nos últimos cem anos. Atualmente esta posição não possui muita expressão no meio evangélico. Segundo o Dr. Pentecost, "el postmilenarismo ya no es un problema en la teología. La Segunda Guerra Mundial le produjo la muerte a este sistema. Su colapso puede atribuirse a (1) su inherente debilidad, ya que, basado en el principio de espiritualizar la interpretación, no había en él coherencia alguna; (2) la tendencia hacia el mordenismo, al cual el postmilenarismo no podía enfrentarse, debido a ese mismo principio de interpretación; (3) su fracaso en ajustarse a los hechos de la histori; (4) la nueva tendencia hacia el realismo de la teología y en la filosofía, que se ve en la neo-ortodoxia, la cual admite que el hombre es pecador, y no puede producir la nueva era prevista por el postmilenarismo; y (5) una nueva tendencia hacia el amilenarismo, procedente del regreso a la teología de la Reforma, como base de la doctrina. El postmilenarismo no encuentra defensores ni partidarios en las presentes discusiones del milenio dentro del mundo teológico."2 ( o pós-milenismo já não é um problema para a teologia. a Segunda Guerra Mundial produziu a morte deste sistema. Seu colapso pode atribuir-se a (1) sua inerente debilidade, já que, baseado no princípio e espiritualizar a interpretação, não oferece nenhuma coerência; (2) a tendência frente ao modernismo, ao qual o pós-milenismo não podia enfrentar, devido a esse mesmo princípio de interpretação; (3) seu fracasso em ajustar-se aos fatos da história; (4) a nova tendência frente ao realismo da teologia e da filosofia, que se ve na neo-ortodoxia, a qual admite que o homem é pecador, e não pode produzir a nova era prevista pelo pós-milenismo; e (5) uma nova tendência frente ao amilenismo, procedente do regresso à teologia da Reforma, como base da doutrina. O pós-milenismo não encontra defensores nem partidários nas presentes discussões do milênio dentro do mundo teológico. - tradução do autor).

3. APOIO DO NOVO TESTAMENTO:
Basicamente, os mesmos versículos bíblicos do Novo Testamento, usados pelos amilenistas, são usados para defender a posição pós-milenista. Segundo os conceitos pós-milenistas o mundo vai melhorar com a pregação do evangelho. A pregação do evangelho será eficaz, pois esta não é uma realização humana, realizada por meio de grande perícia ou metodologia evangelística, mas sim uma ação sobrenatural do Espírito Santo de Deus. Desse modo "as portas do inferno não prevalecerão"(Mt.16:18), e a Igreja será vitoriosa. Os pós-milenistas crêem que haverá um reavivamentoem escala mundial, antes da volta de Cristo à terra. O Reino milenial está sendo introduzido paulatinamente na era presente, confundindo a era da Igreja com a era do milênio(Mt.17:28). Por enquanto ainda existem problemas sociais, econômicos, educacionais e políticos, mas quando a era milenar absorver a era da Igreja, todos estes problemas serão eliminados. Somente no fim, quando Satanás será solto, e, consequentemente com a vinda do Anticristo, é que haverá um esfriamento dando lugar a apostasia.
O Dr. Loraine Boetttner defende o pós-milenismo da seguinte maneira: "Pós-milenismo é aquela concepção das últimas coisas que sustenta que o reino de Deus está sendo extendido agora no mundo pela pregação do evangelho e a obra salvadora do Espírito Santo no coração dos indivíduos, que o mundo irá finalmente ser cristianizado e que a volta de Cristo ocorrerá no final de um longo período de retidão e paz comumente chamado de milênio. Deve se acrescentar que pelos princípios pós-milenistas a Segunda Vinda de Cristo será seguida imediatamente pela ressurreição geral, julgamento geral, e a introdução da plenitude do céu e do inferno.
"O milênio que os pós-milenistas aguardam é, desta forma, uma era áurea de prosperidade espiritual dentro da atual dispensação, isto é, na Era da Igreja. Isto vai ser provocado por forças que já estão em atividade no mundo. Ele vai durar por um período indefinidamente longo de tempo, talvez muito mais que mil anos literais. O caráter transformado dos indivíduos se refletirá numa vida social, econômica, política e cultural melhor para a humanidade. O mundo todo gozará um estado de retidão que até agora só foi visto em grupos relativamente pequenos e isolados: por exemplo: alguns círculos familiares, e alguns grupos de igrejas locais e organizações semelhantes."3
"Hoje o mundo como um todo está em um plano muito mais elevado. Os princípios cristãos são os padrões aceitos em muitas nações, apesar de não serem praticados consistentemente. A escravidão e poligamia praticamente desapareceram. A situação das mulheres e crianças melhorou enormemente. As condições sociais e econômicas em quase todas as nações alcançaram um outro nível. Um espírito de cooperação está se manifestando entre as nações muito mais do que jamais ocorreu. Incidentes internacionais que apenas há alguns anos atrás teriam resultado em guerras são agora normalmente resolvidos por arbitragem."4


CAPÍTULO V - PRÉ-MILENISMO HISTÓRICO

1. DESCRIÇÃO:
O pré-milenismo histórico afirma que após a 2ª Vinda de Cristo, ele reinará literalmente por mil anos sobre a terra, antes da consumação final do propósito redentivo de Deus nos novos céus e nova terra. Segundo o pré-milenismo histórico a situação do mundo piora cada vez mais até a volta de Cristo, quando Jesus implantará o seu reino, o Reino de Deus, um reino tipicamenteeclesiástico, através do qual reinarão todos os salvos de todas as eras. Neste reino não haverá distinção entre Israel e Igreja, mas Cristo reinará sobre a Igreja Universal, composta tanto de judeus como de gentios.
Para o pré-milenista histórico as profecias do Antigo Testamento não são tão predominantemente literais, e por isso algumas profecias relacionadas a Israel, são aplicadas à Igreja neo-testamentária. Desse modo crêem os pré-milenistas históricos que certas profecias estão se cumprindo hoje na história da Igreja, porque para eles, Israel é a Igreja do Antigo Testamento, e a Igreja do Novo Testamento é o novo Israel de Deus.(Mt.21:43; IPe.2:9; Ap.1:6).
Quem defende esta corrente é o Dr. George Eldon Ladd. Ele afirma que "Apocalipse 20:1-6 retrata a Segunda Vinda de Cristo como vencedor vindo destruir seus inimigos: o Anticristo, Satanás e a Morte. Apocalipse 19:17-21 retrata então a destruição do poder malígno por trás do Anticristo - 'o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás"(Ap.20:2). Isto ocorre em dois estágios.
"Primeiramente, Satanás é preso e encarcerado no abismo (Ap.20:1) por mil anos "para que não mais enganasse as nações"(Ap.20:3) como havia feito através do Anticristo. Neste ponto ocorre a 'primeira ressurreição'(Ap.20:5) de santos que participam do reinado de Cristo sobre a terra pelos mil anos. Depois disto Satanás é solto de seus grilhões e, apesar do fato de Cristo haver reinado sobre a terra por mil anos, acha ainda os corações dos homens não-regenerados prontos a se rebelar contra Deus. Segue-se a guerra escatológica final e o diabo é lançado no lago de fogo e enxofre, ocorre então a segunda ressurreição, daqueles que não haviam sido ressurretos no milênio. Eles comparecem ante o trono de julgamento de Deus para serem julgados conforme as suas obras. 'Se alguém não foi achado inscrito no livro da vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo' (Ap.20:15). Então a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo.
"Assim Cristo alcança sua vitória sobre seus três inimigos: o Anticristo, Satanás e a Morte.1 Só então, subjugados todos os poderes hostís, o cenário está preparado para o estado eterno - a vinda dos novos céus e nova terra (Ap.21:1-4). Esta é a maneira mais natural de se entender Apocalipse 20."2

2. INTERPRETAÇÃO DE GÁLATAS 6:16
Para os pré-milenistas históricos a Igreja é o Israel de Deus, mencionado por Paulo em Gl.6:16. Não há nenhuma distinção entre Israel e Igreja hoje, e do mesmo modo não haverá no milênio. Para chegar a esta conclusão, fazem uso do mesmo princípio de interpretação utilizado pelos amilenistas, em relação as profecias do Antigo Testamento.
Ladd afirma que "uma ilustração extremamente vívida deste princípio encontra-se em Romanos 9, onde Paulo está falando de 'nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios'(Rm.9:24). Em outras palavras, Paulo está falando da igreja em Roma, que contava com alguns judeus, mas era em sua maioria gentia. Para provar que era o propósito de Deus chamar tal povo à existência, Paulo cita duas passagens de Oséias. 'Assim como também diz em Oséias: Chamarei povo meu ao que não era meu povo; e, amada, à que não era amada; e no lugar em que se lhes disse: Vós não sois meu povo, ali mesmo serão chamados filhos do Deus Vivo.'(Rm.9:25,26) Em Oséias, ambas as passagens referem-se ao Israel literal, nacional. Por causa de sua rebeldia, Israel não é mais o povo de Deus. 'Disse o Senhor a Oséias: Põe-lhe o nome de não-meu-povo, porque vós não sois meu povo, nem eu serei vosso Deus.'(Os.1:9). Israel foi rejeitado pelo Senhor por sua descrença. Mas Oséias ainda vê um dia de arrependimento no futuro, quando um povo desobediente se tornará obediente. Ele vê um grande remanescente, como a areia do mar. 'E no lugar onde se lhes dizia: Vós não sois meu povo, se lhes dirá: Vós sois filhos do Deus Vivo'(Os.1:10). Isso se refere a uma futura conversão dos judeus. O mesmo pode ser dito da segunda profecia: 'Compadecer-me-ei da desfavorecida; a não-meu-povo direi: Tu és o meu povo; e ele dirá: Tu és o meu Deus!'(Os.2:23). Novamente o que se vê é uma salvação futura do Israel literal quando o povo, rejeitado por Deus, novamente se tornará povo de Deus.
"Paulo toma deliberadamente estas duas profecias acerca da salvação futura de Israel e as aplica à Igreja. A Igreja, formada de judeus e gentios, tornou-se o povo de Deus. As profecias de Oséias se cumprem na igreja cristã. Se esta é uma 'hermenêutica espiritualizante', que seja. É claramente isto que o Novo Testamento faz às profecias do Antigo Testamento.
"A idéia da Igreja como Israel espiritual aparece em outras passagens. Abraão é chamado 'o pai de todos os que crêem'(Rm.4:11); é 'o pai de todos nós que somos da fé que teve Abraão'(Rm.4:16); são ós da fé' que são 'filhos de Abraão'(Cl.3:7); é. se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão, e herdeiros segundo a promessa'(Cl.3:29). Se Abraão é o pai de um povo espiritual, e se todos os crentes são filhos de Abraão, seus descendentes, segue-se então que são Israel espiritualmente falando.
"É isto que leva Paulo a dizer: 'Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não segundo a letra (Rm.2:28,29)".3
Ladd continua a sua argumentação dizendo que outra profecia dada a Israel foi aplicada à Igreja. Segundo Ladd o profeta Jeremias antevê um dia quando Deus fará uma nova aliança com o Israel rebelde (Jr.31:33,34). Para Ladd o livro de Hebreus aplicou esta profecia à nova aliança feita no sangue de Cristo (Hb.8:8-12).
Loraine Boettner, fazendo apologia do pós-milenismo, interpreta o Israel de Deus como sendo a Igreja neo-testamentária. Ele diz que "Cristo derrubou 'a parede de separação que estava no meio, a inimizade entre judeus e gentios, para que 'reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz"(Ef.2:14-16)." Para Boettner o ensino de Paulo é que "em assuntos de fé, o relacionamento espiritual tem precedência sobre o físico e que todos os crentes são filhos de Abraão. E vice-versa... a velha distinção entre judeu e gentios foi aniquilada. Na igreja não há promessas ou privilégios dados a qualquer grupo ou nacionalidade que não se apliquem também igualmente a todos os outros."
Boettner prossegue dizendo que quando Cristo veio e foi rejeitado pela nação de Israel, "Ele depôs os líderes do judaísmo apóstata, fariseus e anciãos, e indicou um novo conjunto de oficiais, os apóstolos, através dos quais estabeleceria a sua igreja. Aos líderes do judaísmo ele disse: 'O reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo a igreja que lhe produza os respectivos frutos.'(Mt.23:43). De conformidade com isto todo o sistema religioso do judaísmo foi abolido, terminou. E em seu lugar, a Nova Aliança tornou-se o instrumento oficial e autorizado para Deus lidar com seu povo, a igreja."4

CAPÍTULO VI - PRÉ-MILENISMO DISPENSACIONALISTA


1. ORIGEM:
O pré-milenismo tem suas origens na Igreja Primitiva. Durante os séculos I a III o pré-milenismo era a interpretação da Igreja Primitiva. O pré-milenismo contava também com o apoio da autoridade patrística, pois muitos pais da Igreja defenderam o pré-milenismo: Papias, Irineu(170), Justino Mártir(150), Tertuliano, Hipólito, Metódio, Comodiano e Lactâncio.
A Igreja Primitiva acreditava que os mil anos de Apocalipse seria introduzido de modo escatológico e futurista. Este reino era retratado de modo bastante vívido, o que deu origem aoquiliasmo1, uma doutrina intensamente imaginativa sobre o milênio. "O quiliasmo foi bastante popular durante o período de perseguição da Igreja, quando parecia improvável que a igreja fosse bem sucedida no seuesfôrço de ganhar o mundo para Cristo mediante a pregação do evangelho. Se a igreja deveria ser vitoriosa, teria que ocorrer alguma reviravolta dramática, cataclísmica e sobrenatural do curso dos eventos".2
A esperança da volta de Cristo para o estabelecimento do seu reino, deu aos cristãos dos primeiros séculos força suficiente para resistirem as perseguições. Apesar disso, muitos estavam esmorecendo, por isso Deus deu à João as revelações do apocalipse, para que lhes servisse de conforto e esperança. Que esperança teriam se as profecias apocalípticas fossem entendidas apenas espiritualmente, excluindo o fato de que Cristo voltaria para por fim as perseguições? Interpretando Apocalipse de forma literal, não teriam os cristãos incorrido em êrro, e Deus não estaria dando esperanças falsas? É evidente que o milênio foi corretamente interpretado pelos cristãos primitivos, e com tal esperança fizeram resistência ao Império. Tal resistência fez com que o cristianismo fosse finalmente aceito por Constantivo no século IV. A suposta conversão de Constantino e o término das perseguições fizeram os cristãos reverem seus conceitos sobre o milênio. É claro que muitos cristãos se mantiveram fiéis à interpretação literal do milênio, recusando a interpretação da Igreja oficial baseada no método alegórico de Orígenes.
Somente após a reforma o pré-milenismo voltou a ganhar força, isto porque os reformadores voltaram a enfatizar o método literal de interpretação das Escrituras, embora eles próprios tenham recusado a crença em um milênio literal. Entretanto o pré-milenismo nunca deixou de existir. Em toda a história da Igreja cristã sempre houveram homens que defenderam com suas vidas essa doutrina.
Recentemente o pré-milenismo tem recebido a atenção de homens de reconhecido saber teológico, autoridades bíblicas e comentaristas de renome. Homens como o calvinista Johann HeinrichAlsted (1588-1638), o anglicano Joseph Mede (1586-1638), J. H. Bengel, Issac Newton, Joseph Priestley, Edward Irving(1782-1834), J.N. Darby(1800-1882)3,W. E. Blackstone, James Hall Brooks, G. Campbell Morgan, H. A. Ironside, Henry Moorhouse, D. L. Moody (1837-1899), A. C. Gaebelein, C. I. Scofiel, C. H. Mackintosh, William Kelly, F. W. Grant e muitos outros.

2.DESCRIÇÃO:
A volta de Cristo está dividida em duas fases, sendo a 1ª de forma secreta - o arrebatamento da Igreja - e a segunda de forma visível "porque todo olho o verá"(Ap.1:7). Na 1ª vinda Jesus também veio em duas fases: na primeira Ele veio de forma visível para o seu povo Israel (Jo.1:11); na segunda Ele veio de forma secreta para a Igreja, através do Espírito Consolador (Jo.14:18-23). Na 2ª vinda ocorre uma inversão, pois primeiro o Senhor se manifestará secretamente apenas para a Igreja (na 1ª fase), e depois se manifestará visivelmente à Israel (Is.52:8; Mt.23:39; 24:27,30; Zc.12:10; At.1:11;Zc.14:4,9).
Desse modo os pré-milenistas crêem que a volta de Cristo (2ª fase) será precedida de certos sinais, como a pregação do evangelho à todas as nações (Mt.24:14; Ap.7:4; 14:1; 11:3; 14:6; Is.66:19; Veja Cl.1:6; 1:23; ITs.1:8) no período entre a 1ª e a 2ª fase da 2ª vinda, o qual a Bíblia chama de tribulação (Mt.24:21). Também haverá apostasia, guerras (Zc.14:13; Ap.6:3,4), fome (Ap.6:5), terremotos (Mt.24:29; At.2:19,20) e a manifestação do Anticristo (Mt.24:24; Ap.13:1-10) e do Falso Profeta (Ap.13:11-18), os quais juntamente com Satanás (o Dragão - Ap.12:9), formarão a "trindade satânica" (Ap.16:13), que enganarão as nações (Ap.13:13,14; IITs.2:9,10). Somente depois da manifestação do Anticristo, o "Homem da Iniquidade"(IITs.2:3) é que Jesus voltará, juntamente com os seus santos (Zc.14:5; Jd.14) para estabelecer o seu reino(Ap.11:15-18; Zc.14:9; Mt.25:34; 26:29). Durante a tribulação o evangelho será anunciado, mas a salvação será concedida com muitas tribulações, pois os santos que estiverem na terra serão perseguidos (Mt.24:13,22; Ap.13:7-10).
A volta de Cristo será seguida de um período de paz e justiça antes do fim do mundo. Jesus reinará na terra(Jr.23:5; Zc.14:9) pessoalmente como Rei dos reis (Ap.19:16; Sf.3:15; Zc.14:16). Ele estabelecerá um reino judaico, no qual Davi será Co-regente (Mq.5:2; Is.24:21-23; veja Ap.12:7; Ez.37:24-28; compare 20:33-35 com Ap.12:6,13,14). Neste tempo o tabernáculo de Davi será restaurado (At.15:16; Zc.6:13), e o próprio Jesus será ao mesmo tempo Rei, Sacerdote e Profeta (Mq.5:2; Zc.6:13).
Este reino não será estabelecido pela conversão de indivíduos durante um longo período de tempo, mas virá subitamente e com irresistível poder (IITs.1:7,8; Is.66:15,16). Os judeus que ficarem vivos, o Israel remanescente (Rm.11:5,26; Mq.5:7,8; Mq.2:12,13 Sf.3:13; Zc.13:1,8,9) se converterão e se tornarão sacerdotes do reino (Ex.19:6; Mq.4:1,2; Ob.21). A natureza participará das bençãosmileniais produzindo abundantemente (Is.30:23-26; 66:25). Este reino durará mil anos, e durante este tempo Satanás será aprisionado. Os salvos serão ressuscitados para reinarem com Cristo (Ap.20:1-4,6). Depois dos mil anos os mortos não crentes serão ressuscitados(a 2ª ressurreição) para serem julgados e condenados (Ap.20:5).
Este tipo de milenismo é chamado de dispensacionalista porque considera a era do milênio como sendo a última dispensação4 criada por Deus, e faz nítida distinção entre Israel e Igreja. Atualmente vivemos na Dispensação da Graça ou a Era da Igreja. No milênio teremos a Dispensação do Reino ou a Era do Milênio.

3. AS DUAS RESSURREIÇÕES:
O pré-milenismo defende que haverá duas ressurreições em etapas diferentes. A 1ª ressurreição ocorrerá antes do milênio, e esta tem várias fases; a 2ª acontecerá depois do milênio, e será apenas para os perdidos. Essa maneira de interpretar exige que o verbo grego ezhsan (ezêsan = viveram) usado em Ap.20:4,5 seja entendido no sentido literal. Interpretar o primeiro "viveram"(v.4) como sendo espiritual (novo nascimento), e o segundo "viveram"(v.5) como sendo literal (ressurreição corporal) é algo que foge à boa hermenêutica.
Ladd também refuta a interpretação espiritual, citando as palavras de Henry Alford: "Se, numa passagem onde duas ressurreições são mencionadas, onde algumas psychai ezêsan primeiro, e o resto dos nekroiezêsan só no final de um período específico depois dos primeiros, se uma passagem como essa a primeira ressurreição pode ser entendida como uma ressurreição espiritual com Cristo, enquanto que a segunda significa ressurreição literal, dos sepulcros, então acabou-se toda a significação da linguagem, e a Escritura é anulada como testemunho definitivo sobre qualquer coisa".5
A interpretação literal deve ser adotada para as duas ocorrências do verbo. O grego ezhsan (ezêsan = viveram), pode de fato ser interpretado no sentido espiritual, como em Jo.5:25 e Ef.2:1-6, mas também é usado nas Escrituras com o sentido literal. Em Ap.2:8 e 13:14 o mesmo verbo é empregado para se referir à ressurreição corporal de Cristo e da besta. Portanto Ap.20:4,5 não deve ser interpretada de forma análoga a Jo.5:25, de modo nenhum.
Há ainda outras referências bíblicas que tratam da ressurreição, que, examinadas acuradamente, hão de demonstrar a existências de duas ressurreições literais. O Dr. Pentecost, em seu livro Eventos do Porvir argumenta a este respeito com incrível habilidade. Vejamos o que ele tem a dizer sobre o assunto:

3.1 A Ressurreição para a Vida:
"A ressurreição para a vida. Há um número de passagens que ensinam esta parte distintiva do programa da ressurreição.
"'...e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos'(Lc.14:14).
"'Para o conhecer e o poder da sua ressurreição e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para de algum modo alcançar a ressurreição dentre os mortos' (literalmente: a ressurreição, a dentre os mortos) (Fp.3:10,11).
"'Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos. Alguns foram torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição'(Hb.11:35).
"'Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre esses a segunda morte não tem autoridade; pelo contrário, serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele os mil anos'(Ap.20:6).
"Estas referências mostram que há uma parte do programa da ressurreição que se chama 'a ressurreição dos justos', 'a ressurreição de entre os mortos', 'uma ressurreição superior', 'a ressurreição da vida', e a 'primeira ressurreição'. Estas frases sugerem uma separação; uma ressurreição de uma parte daqueles que estão mortos, ressurreição que deixa alguns mortos... Blackstone disse:
'Agora, se Cristo vem ressuscitar os justos mil anos antes que os ímpios, seria natural e imperativo, chamar a primeira ressurreição uma ressurreição de, ou dentre os mortos, visto que o resto dos mortos ficaram para trás... isto é exatamente o que cuidadosamente se faz na Palavra... Consiste no uso que se faz, no texto grego, das palavras... (ek nekron)'.
"'A ressurreição ...nekron (...dos mortos), se aplica a ambas as classes, porque todos serão ressuscitados. Mas a ressurreição ...ek nekron (...de entre os mortos), nenhuma vez se aplica aos ímpios. Esta última expressão se usa 49 vezes, a saber: 34 vezes para expressar a ressurreição de Cristo, de quem sabemos que foi ressuscitado dentre os mortos; 3 vezes para expressar a suposta ressurreição de João, que, como cria Heródes, foi assim ressuscitado dentre os mortos; 3 vezes para expressar a ressurreição de Lázaro, que também foi ressuscitado dentre os mortos; 3 vezes se usa figuradamente, para expressar vida espiritual dentre os mortos por causa do pecado (Rm.6:13; 11:15; Ef.5:14). Se usa em Lc.16:31 'ainda que ressuscite alguém dentre os mortos'; e em Hb.11:19, a fé de Abraão em que Deus podia ressuscitar a Isaque 'dentre os mortos'.
"'E as restantes 4 vezes se usa para expressar uma ressurreição futura dentre os mortos, a saber, Mc.12:25 '...quando ressuscitarem de entre os mortos...'', Lc.20:35,36 '...a ressurreição dentre os mortos...', At.4:1,2 '...a ressurreição dentre os mortos...'
"'E em Fl.3:11 ... a tradução literal é a ressurreição para fora de entre os mortos, construção peculiar da linguagem que inclui a idéia de que esta é uma ressurreição de entre os mortos.
"'Estas passagens claramente mostram que está por efetuar-se uma ressurreição de entre os mortos; isto é, que parte dos mortos serão ressuscitados, antes que todos sejam ressuscitados. Olshausen declara que a 'a expressão seria inexplicável se não se derivasse da idéia de que de entre a massa dos mortos alguns se ressuscitarão primeiro'.6
"Esta ressurreição, geralmente chamada a primeira ressurreição, também pode ser chamada a ressurreição da vida... (Jo.5:29)".7

3.2 A Ressurreição para a Condenação:
"A ressurreição para condenação. A Escritura prediz outra parte do programa de ressurreição que trata com os perdidos. É a segunda ressurreição, ou a ressurreição da condenação.
"'...e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juizo'(Jo.5:29).
"'Os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil anos...'(Ap.20:5).
"'Vi um grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles. Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono... Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o além entregaram os mortos que neles havia...'(Ap.20:11,12,13).
"Porquanto a primeira ressurreição se efetua antes que comece o reinado de mil anos (Ap.20:5), 'os mortos' a que se refere Ap.20:11,12 só podem ser aqueles que ficaram para trás na ressurreição de entre os mortos e são aqueles que serão ressuscitados para a condenação. A segunda ressurreição, melhor definida como a ressurreição da condenação, inclui a todos os que serão ressuscitados para a condenação eterna. Não é a cronologia o que determina quem está incluído na segunda ressurreição, mas sim o destino dos ressuscitados".8

3.3 O Tempo das Ressurreições:
"Há várias passagens que geralmente se usam para ensinar a falsa doutrina de uma ressurreição geral. A primeira destas está em Dn.12:2,3, onde o profeta escreve:
"Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno. Os que forem sábios, pois, resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que a muitos conduzirem à justiça, como as estrelas sempre e eternamente.
"Nenhuma distinção quanto ao tempo parece haver aqui e, portanto, se conclui que se ensina uma ressurreição geral. Tregelles habilmente comenta sobre esta passagem:
"'Eu não duvido que a tradução correta deste versículo é... E muitos dentre os que dormem no pó da terra ressuscitarão, estes ressuscitarão para a vida eterna, mas os outros (o resto dos que dormem, aqueles que não ressuscitam neste tempo) para vergonha e horror eterno. A palavra que na Versão Autorizada em Ingles traduz duas vezes alguns, nunca se repete em nenhuma outra passagem da Bíblia Hebraica, no sentido de tornar distributivamente qualquer classe geral que haja sido previamente mencionada; isto é suficiente, eu creio, como garantia para que apliquemos a primeira vez a todos os que ressuscitam, e a segunda, a massa dos que dormem, àqueles que não ressuscitam neste tempo. É claro que não é uma ressurreição geral, mas sim muitos dentre; e só tomando as palavras neste sentido, obteremos alguma informação acerca do que sucederá aos que continuam dormindo no pó da terra'.
"Esta passagem tem sido entendida pelos comentaristas judaicos no sentido que se há mencionado. Claro que estes homens, que têem o véu em seus corações, não são guia algum quanto ao uso do Antigo Testamento, mas são uma ajuda quanto ao valor gramatical e lexicográfigo de orações e palavras. Dois dos rabinos que comentaram sobre este profeta foram Saadiah Haggaon (no século X de nossa era), e Aben Ezra (no século XII); este último foi um escritor de habilidades peculiares e precisão mental. Ele explica este versículo da seguinte maneira:
"'...sua interpretação é: aqueles que ressuscitam serão para a vida eterna, e aqueles que não ressuscitam serão para vergonha e horror eterno...'9
"Deve-se concluir que o profeta está afirmando o fato da ressurreição e a universalidade da ressurreição, sem afirmar o tempo específico no qual terão lugar as partes da ressurreição.
"Uma segunda passagem frequentemente usada para sustentar a idéia de uma ressurreição geral é Jo.5:28,29. O Senhor disse:
"Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que tiverem feito o bem para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juizo.
"Se afirma que o uso que fez o Senhor da palavra 'hora' requer uma ressurreição geral tanto dos salvos como dos não salvos. Sem dúvida, esta palavra não implica necessariamente tal programa geral de ressurreição.Harrison escreve:
"'Deve-se admitir, sem dúvida, que a linguagem não demanda coincidência nas ressurreições. O uso da palavra (hora) em Jo.5:25 permite sua extensão a um largo período. O mesmo é verdade em Jo.4:21,23. Jesus está falando no estilo dos profetas do Antigo Testamento, que agrupavam, sem diferenciação de tempo, os eventos que eles vislumbravam no distante horizonte da história. O mesmo método se encontra nos discursos escatológicos de Jesus, nos Evangelhos Sinópticos, onde a predição da queda de Jerusalém com suas consequências, dificilmente pode desarrolar-se da descrição do mui distante evento que está relacionado com a Grande Tribulação. Algo paralelo, ainda que em uma categoria diferente, é a maneira inclusiva em que Jesus fala da vivificação espiritual e física em uma só declaração. Um exemplo é Jo.5:21'.10
"O Senhor, nesta passagem, está ensinando a universalidade do programa da ressurreição e as distinções dentro deste programa, mas não está ensinando o tempo no qual as várias ressurreições terão lugar. Achar que esta passagem assim não ensina é perverter sua intenção original.
"Em Apocalipse 20:4-6 se declara mui bem que as duas partes do programa da ressurreição estão separadas por um intervalo de mil anos. (...) Se observa que a primeira parte deste versículo 5, mas os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil anos, é uma declaração entre parêntesis, que explica o que sucede aos que são deixados nos domínios da morte quando se cumpre a primeira ressurreição na segunda vinda de Cristo. Esta passagem ensina que transcorrerão mil anos entre a primeira ressurreição, a ressurreição da vida, e a ressurreição do resto dos mortos, a qual, segundo Apocalipse 20:11-13, é a ressurreição da condenação. A única maneira de se olvidar do evidente ensino desta passagem, é espiritualizando-a, de modo que a passagem não fale de ressurreição física, mas sim da bem-aventurança das almas que estão na presença do Senhor. Acerca desta interpretação, escreve Alford:
"'...não posso consentir que se tergiversem a estas palavras seu claro sentido e lugar cronológico na profecia, devido a qualquer considerações de dificuldade, ou qualquer risco de abusos que a doutrina do milênio pode trazer consigo. Os que viveram próximo dos apóstolos, e toda a Igreja, durante trezentos anos, a entenderam em seu claro sentido literal... Se a primeira ressurreição é espiritual, então a segunda também é, na qual eu suponho que ninguém será tão tolo para sustent e muitos dos melhores expositores modernos, eu em verdade sustento e recebe como um artigo de fé e esperança.11
"Deve-se concluir que, ainda que não há nenhuma revelação clara no Antigo Testamento com respeito a relação de tempo das duas partes do programa de ressurreição, o Novo declara que a ressurreição da vida e a ressurreição do juizo estão separadas por um lapso de mil anos."12

3.4 O Programa da Ressurreição:
"O apóstolo Paulo nos dá uma amostra dos eventos do programa da ressurreição em I Co. 15:
"'Porque assim como em Adão todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo. Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois os que são de Cristo, na sua vinda. E então virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo o principado, bem como toda potestade e poder.'(ICo.15:22-24).
"Que há uma divisão no programa da ressurreição se sugere na frase, 'cada um, porém, por sua própria ordem (v.23). A palavra ordem (tagma = tagma), de acordo com Robertson e Plummer 'é uma metáfora militar:companhia, tropa, patrulha ou bando. Devemos pensar em cada corps ou corpo de tropa que vem em sua própria posição e devida ordem...'13 As partes da ressurreição são como os batalhões em marcha em um desfile de triunfo bem organizado...'
"Nesta ordem de sucessões do desfile da ressurreição, Cristo é reconhecido como o líder da batalha ou 'primícias' da colheita, que promete uma grande abundância de frutos semelhantes que seguirão no tempo designado da colheita. Esta fase do programa da ressurreição se cumpriu no tempo da ressurreição de Cristo, e marca o começo de todo este programa da ressurreição.
"Um segundo grupo se introduz com a palavra 'logo'. Esta palavra (epeita = epeita) significa um lapso de tempo de duração não designada. Edwards comenta: 'Ele não disse que um evento segue ao outro imediatamente... Há uma amplitude aqui para cobrir o lapso de tempo entre a ressurreição de Cristo e a ressurreição dos que são de Cristo na sua vinda'.
"Tem havido diferença de opiniões quanto a quem são os do segundo grupo. alguns tomam a expressão os que são de Cristo (oi tou cristou = hoi tou Christou) e a fazem sinônimo da expressão em Cristo (en to cristo = en to Christo) do versículo 22. Este último seria a expressão técnica que declara a relação dos santos com Cristo nesta era presente. Portanto, se conclui que esta é uma ressurreição da Igreja que se menciona em ITs.4:16. Este ponto de vista se apóia em referência à palavra vinda (parousia), que com frequência se aplica ao arrebatamento da Igreja. Paulo estaria assim declarando que o segundo grande grupo do desfile da ressurreição seria o daqueles que hão de ressuscitar nesta era presente, no arrebatamento da Igreja. Podem declarar, ademais, os que sustentam este ponto de vista, que Paulo não menciona aqui a ressurreição dos santos da tribulação, nem dos santos do Antigo Testamento. Sem dúvida, porquanto Paulo está dissertando sobre o programa da ressurreição, pareceria estranho que aqueles grupos importantes fossem omitidos. Seria melhor tomar o ponto de vista alternativo da que a expressão os que são de Cristo é uma referência técnica a todos os redimidos, tanto da Igreja, como do período do antigo Testamento, e o período da tribulação, todos os quais serão levantados na vinda de Cristo. A palavra vinda, pois, seria tomada em seu mais amplo sentido, que é aplicado ao segundo advento com todo o seu programa, e não ao arrebatamento somente. Desta maneira Paulo estaria dizendo que o segundo grande grupo seriam os santos de todos os tempos, que serão ressuscitados, porque pertencem a Cristo e que isto se cumpriria no tempo da segunda vinda.
"Há um vigoroso debate entre os expositores quanto ao significado da expressão então virá o fim (v.24). Alguns crêem que a palavra ressurreição deve agregar-se à ela (então virá o fim da ressurreição), de maneira que Paulo está falando do cumprimento do programa da ressurreição, com aressurreição de todos os mortos não salvos ao final dos mil anos. Outros crêem que aqui não há nenhuma referência aos não salvos, mas sim que Paulo ensina que a ressurreição será seguida do fim desta era presente (então virá o fim desta era), como em Mateus 24:6,14; Lucas 21:9. O problema se resolve mediante a interpretação da relação entre os dois usos da palavra 'todos' no versículo 22. São coextensivos ou não?
O primeiro ponto sobre a questão sustêm que o 'todos' que em Adão morrem não são os mesmos 'todos' que em Cristo serão vivificados. Os defensores desta posição interpretam que o versículo ensina que todos os que estão em Adão morrem, a ressurreição que se descreve aqui inclui somente os salvos que estão 'em Cristo', e 'o fim', portanto, deve referir-se ao fim desta era. Harrison resume os argumentos sobre esta posição quando escreve:
"'A interpretação do versículo 22, que geralmente se cita para sustentar esta construção, considera que o segundo (pantes = todos) é coextensivo com o primeiro. O todos é universal em ambos os casos. É precisamente neste ponto onde começam as dificuldades para obstruir este ponto de vista. Como temos observado... a palavra zwopoihqhsontai (zoopoiethesontai ) é um termo demasiado forte, demasiado complexo espiritualmente, para aplicá-lo a todos os homens. O termo natural para uma classe de ressurreição que incluiria a todos seria (eghrestai = egeresthai). As palavras em Cristo não podem ter uma significação menor do que têem as palavras em outras partes. Se refere a mais íntima e potente relação de salvação com Cristo. Os incrédulos não estão classificados como tais. Meyer e Godet estão no caminho errado ao supôr que (em Cristo) tem aqui um sentido diluído que permite sua aplicação a todos os incrédulos. Tal aplicação requereria (dia christou) em vez de (en christo). Uma segunda dificuldade é o fato de que toda a discussão ao largo do capítulo tem em mente somente os crentes. Pelo menos nada se disse definitivamente sobre qualquer outro. Em terceiro lugar, o contexto imediato não é favorável. Paulo concentra a atenção de seus leitores em Cristo como as Primícias dos mortos cristãos. Tanto a palavra (aparch = aparche = primícias) como o verbo (koimaw = koimao = dormir) correspondem  aos crentes. Cristo não é as primícias dos outros, já que necessariamente teriam que ser completamente semelhantes a Ele em sua ressurreição. Logo, também, os mortos não cristãos não dormem. Eles morrem. Uma quarta dificuldade se apresenta no uso não natural e sem precedentes de (telo = télos), que esta construção requer. A palavra significa fim no sentido absoluto de terminação. Ocasionalmente se usa no sentido de propósito ou finalidade. Mas seu uso como o equivalente de um adjetivo (fim da ressurreição)'.
"Este mesmo ponto de vista é o que sustenta Vine, o qual disse:
"'...como Adão é a cabeça da raça natural e, em virtude desta relação natural com ele, a morte é a sorte comum dos homens, assim também pela razão de que Cristo é a Cabeça da raça espiritual, todos os que possuem relação espiritual com Ele serão vivificados. Não há idéia alguma sobre a universalidade da raça humana, em comparação da segunda declaração com a primeira. Que os incrédulos estão em Cristo é algo completamente contrário ao ensino da Escritura... portanto, só os que chegam a ser novas criaturas e possuem vida espiritual, e estão assim em Cristo, em sua experiência de vida presente, estão incluídos no todos da segunda declaração, eserão vivificados'.
"Desta maneira, de acordo com este ponto de vista, Paulo tem em mente duas grandes etapas no programa da ressurreição: a ressurreição de Cristo, e a ressurreição de todos os que são de Cristo, que incluiria os santos daigrjea, os santos da tribulação, e os santos do Antigo Testamento, que serão levantados no tempo da segunda vinda, ressurreição que seria seguida do fim desta era.
"Há, ainda, alguns que, ao interpretar esta passagem, entendem que Paulo está incluindo o fim do programa da ressurreição em seu ensino. Por conseguinte a expressão 'em Cristo', se entenderia como instrumental, por Cristo. Robertson e Plummer dizem:
"'Paulo estava pensando em uma terceira ordem (tagma), aqueles que não são de Cristo, que seriam ressuscitados dos mortos num tempo antes do fim...''.
"Feinberg escreve: 'O contexto nos fala de ressurreição, e se refere a ressurreição final segundo um número de comentaristas. Com estes últimos estamos de acordo. O apóstolo está mostrando que haverá várias etapas definidas na ressurreição dos mortos. Primeiro Cristo, as primícias; segundo os que são de Cristo em sua vinda; terceiro a ressurreição final de todos os incrédulos'.
"Pridham declara a ordem assim: '...o apóstolo está distribuindo a grande obra da ressurreição, como uma manifestação do poder divino, em três atos grandemente definidos e separados: 1. A ressurreição do Senhor Jesus; 2. O despertamento de todos os santos em sua vinda; 3. A desocupação final de todos os sepulcros ao término da administração do Reino do Filho, quando os mortos não incluidos na primeira ressurreição serão ressuscitados, tanto pequenos como grandes, para juízo diante de Deus'.
"Porquanto a palavra fim (télos), em seu uso básico, se refere ao fim de um ato ou de um estado e tem a ver com a terminação de um programa seria preferível entender que Paulo está incluindo a ressurreição final, no desfile dos grupos que aqui se descrevem.
"Deve-se observar uma vez mais que Paulo está prevendo um intervalo de tempo entre a ressurreição dos que são de Cristo e o fim, seja este o fim da era ou o fim do programa da ressurreição. Vine disse: '...a palavra que se traduz então não é (tote = tóte), imediatamente logo, mas sim (eita =eita = depois), que indica ordem cronológica, logo, depois de um intervalo, como por exemplo em Mc.4:17,28 e os versículos 5 e 7 de ICo.15. O intervalo que se indica aqui, no versículo 24, é aquele durante o qual o Senhor reinará em seu Reino Milenário de justiça e paz.''"

4. PROFECIAS DO ANTIGO TESTAMENTO:
O método de interpretação utilizado no pré-milenismo dispensacionalista é o histórico-gramatical. Isto significa que as palavras devem ser entendidas em seu sentido histórico e gramatical; devem ser entendidas literalmente. Se este método é empregado na interpretação de doutrina, história e outras partes da Bíblia, porque às profecias deveriam ser entendidas alegoricamente? O método de interpretação literal simplifica e facilita o entendimento das Escrituras, além de incorporar toda a Bíblia à elaboração de um sistema de teologia.
A literalidade das Escrituras deve ser sustentada como único e mais legível método de interpretação bíblica. Quando a Bíblia usa "pedra" ela quer dizer pedra e não "pau". Se Deus quisesse dizer "pau" teria usado este termo, ou um sinônimo (madeira), mas não o fez porque Deus não é Deus de confusão e, portanto, disse exatamente aquilo que pretendia dizer. Portanto a literalidade deve ser sustentada em todos os textos onde sua aplicação for possível, inclusive às profecias. Deve-se excluir a interpretação literal somente em casos absurdos, como por exemplo João 10:9. É claro que Jesus não é uma porta, com ferrolhos e fechadura, mas sim o Mediador que oferece aos homens o acesso a Deus. Esta passagem, portanto, deve ser entendida alegóricamente ou espiritualmente.
Se o alegorismo for sustentado, cria-se uma amplitude de possíveis interpretações, e a Escritura perde a sua autênticidade. Por exemplo, "pedra" pode ser interpretado de diferentes maneiras, se à ela for aplicado o método alegórico. Pedra pode ser "pau", como pode ser "ferro", e assim por diante.
É claro que não excluimos a existência da interpretação espiritual, mas ressaltamos a predominância da interpretação literal sobre o espiritual.

4.1 Cumprimento Pleno:
Como se explicam aquelas profecias do Antigo Testamento que foram aplicadas com sentido espiritual pelo Novo Testamento? Deve-se proclamar, em alto e bom som, que todas elas, comexcessão de uma, tiveram seu cumprimento literal no tempo do Antigo Testamento. É o caso, por exemplo de Isaías 7:14 que predisse o nascimento de uma criança que serviria como sinal para o reiAcaz. Esta profecia cumpriu-se no século VIII antes de Cristo. "Mateus, porém, achando um sentido mais completo e profundo no versículo e também ajudado pelas traduções do grego parthenos ou virgem na LXX (versão grega do A.T.), como também o nome Emmanuel, argumenta que o nascimento de Jesus é o cumprimento daquilo que o profeta havia dito (Mt.1:23)".
Um estudo meticuloso das profecias nos mostrará que não são poucas as ocorrências desse tipo. Este fenômeno da interpretação profética recebe o nome de "sensus plenior (sentido mais completo além do literal), no qual o N.T. vê um cumprimento básico e mais profundo que Deus queria comunicar".
É óbvio que somente aos escritores do N.T., que foram movidos pelo Espírito Santo, foi dada a autoridade de fazer tais "reinterpretações" do texto literal do A.T. O que se verifica hoje, entre os defensores da interpretação alegórica, é um verdadeiro abuso do uso do sensus plenior, quando aplicam profecias do A.T. que dizem respeito ao Israel literal, à Igreja, no sentido espiritual. É o caso, por exemplo de Os.11:1, que históricamente se refere ao povo de Israel no Egito, mas no N.T. foi aplicado a Jesus Cristo (Mt.2:15).
Um outro exemplo de sensus plenior é encontrado em Ml.4:5 referente a vinda de Elias. O Senhor aplicou esta profecia a João Batista (Mt.17:10-13). Entretanto, se considerarmos a literalidade das profecias, então devemos entender que o profeta Elias deverá vir pessoalmente antes do retorno de Jesus. Observe que Jesus afirma isto ao aplicar a profecia de Malaquias a João Batista: "Então Jesus respondeu: De fato Elias virá e restaurará todas as cousas."(Mt.17:11). Esta interpretação parece concordar com Ap.11:3-12 onde são mencionadas as duas testemunhas.
Uma passagem bastante interessante encontra-se em Hebreus 7, onde o autor faz a interpretação do nome Melquisedeque. Podemos notar na passagem em aprêço que ele faz primeiramente a interpretação histórico-gramatical: "...para o qual também Abraão separou o dízimo de tudo, primeiramente se interpreta rei de justiça, depois também é rei de Salém, ou seja rei de paz."(Hb.7:2). Conforme Gn.14:18, Melquisedeque era rei de Salém, mas este não é o sentido gramatical do nome hebraico, mas sim a interpretação de um fato histórico, que foi aplicado ao sacerdócio de Jesus Cristo. O que ocorre é uma interpretação secundária do nome Melquisede, porque em Cristo "a justiça e a paz se beijaram" (Sl.85:10).
Melquisedeque era um rei, humano e mortal, que viveu nos tempos de Abraão. Contudo sua figura foi aplicada ao Senhor Jesus. De maneira semelhante a Bíblia aplica o nome de Israel - o povo de Deus - ao Messias (Is.49:3). Esta aplicação é teologicamente compreensível. O que está em foco nesta passagem é a grande doutrina da substituição, ensinada pelo N.T., na qual Jesus substituiu o seu povo, e por quem foi sacrificado(Is.53:4,5,11; Jo.11:50-52; Jo.12:23-28). No que se refere a Israel (Jacó, Is.41:8;48:20) ser chamado de servo, e Jesus igualmente em Is.53:11, deve ser notado e ressaltado que no texto de Isaías o Servo de Jeová é chamado de Justo: "o meu servo, o Justo..."(Is.53:11). Outras profecias que tratam de Jesus como Servo, apresentam também uma ou mais de suas qualidades como Messias. É o caso de Is.42:1.
Outra passagem que nos convém comentar, frequentemente usada pelos defensores do alegorismo, é a de Jeremias 31:33,34. Dizem eles que esta profecia dada à Israel foi interpretada pelo autor de Hebreus como se referindo à Nova aliança promulgada com o sangue de Cristo, a favor da Igreja (Hb.8:8-12). Ora, o que ocorre aqui, é o mesmo fenômeno encontrado, por exemplo, emOs.11:1, cuja passagem bíblica se refere tanto a Israel, no passado, como a Cristo em sua época. A profecia de Jeremias se aplica, no presente, à Igreja (Hb.10:14-18), mas, num tempo ainda vindouro, ao povo de Israel (Hb.8:8-12). Nesse tempo, para a nação de Israel, a ordem de Arão será substituida pela ordem de Melquisedeque (Hb.7:11-19; Hb.9:11-15; Is.66:20-23; Mq.4:2).
Turner apresenta as três interpretações para o Novo Pacto:
"O Dr. J. N. Darby, dos 'Irmãos', ensina que a Igreja tem uma relação com o sangue de Jesus Cristo que é a base para toda a ação de graça da parte de Deus. Mas não vê senão um só 'Novo Pacto' na Bíblia: o de Jeremiase o do Novo Testamento também. Considera que o evangelho não é um pacto, mas uma revelação da salvação de Deus. Que não participamos da letra do Novo Pacto porque é com Israel, e será estabelecido no milênio; porém, como ele é alicerçado no sangue de Cristo, podemos em espírito gozar de bençãos semelhantes, pelo mesmo sangue.
"Outra interpretação é a do Dr. C. I. Scofield, na qual ele ensina que o Novo Pacto em Jeremias é com a casa de Israel, e será cumprido através da sua benção no futuro, mas que também tem uma aplicação em referência aos crentes de hoje. É chamado o conceito da aplicação dupla. Como o sangue de Cristo é o sangue do Novo Pacto, e na comunhão participamos do cálice em memória dele(ICo.11:25), crê-se que nós, crentes, beneficiamo-nos do Novo Pacto, como concidadãos dos santos e membros da família de Deus (Ef.2:19), e não como membros da cidadania de Israel (Ef.2:12).
"A terceira interpretação é a mais simples, chamada a dos dois pactos, e conhecida por ser proposta pelo Dr. L. S. Chafer. Diz que o Novo Pacto de Jeremias 31 é com a casa de Israel, e será estabelecido no porvir. Há também um outro Pacto Novo em o Novo Testamento, que foi celebrado com a Igreja, e se está cumprindo todos os dias. Este conceito demanda uma divisão de todas as passagens neo-testamentárias entre aquelas que se referem ao pacto com Israel, isto é, o de Jeremias, e aquelas que fazem menção ao evangelho e à Igreja. Geralmente classificam-se como segue: Mt.28:26; Mc.14:24; Lc.22:20; ICo.11:25; IICo.3:6; Hb.8:6; Hb.9:15; Hb.10:29 eHb.13:30 falam do Novo Pacto com a Igreja. Rm.11:26,27; Hb.8:7-13 e Hb.10:16 referem-se ao Novo Pacto com Israel; enquanto que Hebreus 12:24 simplesmente diz que Jesus é o Mediador do novo pacto por meio do seu sangue, que é mais eficaz do que o de Abel, sem designar qual pacto. é razoável considerar que ambos os pactos são mencionados, sendo que os dois dependem do sacrifício expiatório de Jesus Cristo."

4.2 Cumprimento Parentético:
O cumprimento parentético é outro fenômeno que devemos sempre considerar na interpretação das profecias. Algumas profecias agrupam num só conjunto diversas previsões, sendo algumas contemporâneas ao tempo do profeta que as proclamou, ou próximas ao seu tempo, e outras para o tempo futuro. Verifica-se, nesse caso, um lapso de tempo, um parêntesis, entre o cumprimento de uma previsão e outra. A este tipo de cumprimento é dado o nome de parentético.
Encontramos um exemplo de cumprimento parentético em Isaias 61:1,2. No versículo 1 até a primeira parte do versículo 2, até onde lemos "o ano aceitável do Senhor", encontramos uma previsão da 1ª vinda de Jesus, sendo que o restante do versículo, só terá cumprimento por ocasião da 2ª vinda de Jesus. Quando o Senhor leu este trecho na sinagoga de Nazaré, Ele o fez com muitahabildade (Lc.4:18,19). Note que Jesus não prosseguiu na leitura do profeta. Ele leu apenas até onde sabia que a profecia iria se cumprir. Depois Ele fechou o livro (Lc.4:20). O restante da profecia de Isaías: "o dia da vingança do nosso Deus"(Is.6l:2b), e a restauração de Sião (Is.6l:3-7), ficaram para o futuro. Aqui temos um caso típico de cumprimento parentético, pois há um parêntesis de tempo mui longo entre o cumprimento da primeira porção da profecia e o da segunda.
Um outro exemplo de cumprimento parentético é encontrado em Joel 2:28-32. O apóstolo Pedro aplicou esta profecia à descida do Espírito Santo, no dia de pentecoste (At.2:16-21). Ao ler o livro de Atos, todos concordam que já estamos vivendo os últimos dias. Porém ninguém é tolo o suficiente par afirmar que a parte desta profecia, onde diz que o sol se converterá em trevas e a lua em sangue, já se cumpriu. Tal previsão está para o futuro (At.2:19-21; Mt.24:29; Ap.6:12).
Uma profecia de grande importância para demonstrar de vez esse ponto de vista, é a profecia das Setenta Semanas de Daniel. Esta profecia será estudada, detalhadamente, em nosso próximo capítulo.

 CAPÍTULO VII - AS SETENTA SEMANAS DE DANIEL

1. AS SETENTA SEMANAS DE DANIEL:
Quando Daniel recebeu a profecia das 70 Semanas (Dn.9:20-27) seu povo estava cativo na Babilônia. Nabucodonosor tinha desolado totalmente a Cidade de Jerusalém (IICr.36:17-21). Segundo as profecias essa desolação deveria durar setenta anos (IICr.36:21; Jr.25:11; Dn.9:1,2). Conforme determinava a lei de Moisés (Lv.25:2-7) a terra deveria gozar de um sábado, um descanso, a cada sete anos. Era um período especial de instrução sobre a lei de Deus (Dt.31:10-13). Por desobediência a este preceito da lei, sobreveio à Israel o castigo divino, 70 anos de cativeiro babilônico, período que corresponde aos anos nos quais o povo judaico deixou de observar o ano sabático (IICr.36:21).
O profeta Daniel, percebeu pelo estudo dos livros que os 70 anos estava chegando ao fim (Dn.9:2). O Dr. Ryrie diz que os 70 anos, que teve início em 605 a.C., teve seu fim em 535 A.C.1 Mas Daniel tinha em mente os 70 anos do cativeiro babilônico (Jr. 25:11; Zc.7:5). Ao receber a resposta de sua oração, o anjo Gabriel trouxe-lhe novas revelações sobre as 70 semanas. Disse-lhe o anjo:"Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo..."(Dn.9:24). Esta profecia não tem nenhuma relação com os 70 anos do cativeiro babilônico que já se cumpriram. O cativeiro durou 70 anos, esta profecia acrescenta 490 anos de desolação sobre Israel.
A palavra hebraica traduzida por semanas, aqui em Dn.9:24, é shabua que significa sete. Este sete se refere a sete dias ou sete anos, conforme o calendário judaico, o período de uma semana. Portanto a tradução literal deste texto seria: "setenta setes estão determinadas..." Para os judeus uma semana poderia ser "uma semana de dias" (Dn.10:2,3), ou "uma semana de anos"2 . O Dr.Mc'Clain dissertando sobre o período de jejum de Dainel, escreve: "É significativo que aqui o hebraico lê 'três setes de dias'. Se no nono capítulo o escritor quisesse que entendêssemos os 'setenta setes' como de dias, porque não empregou o mesmo modo de expressão adotado no capítulo dez? A resposta é evidente: Daniel só empregou shabua, quando se referia à bem conhecida 'semana de anos', uso costumeiro, que todo judeu entenderia; mas, no capítulo dez, ao falar das 'três semanas' de jejum, ele as especifica como 'semanas de dias' a fim de distinguí-las das 'semanas de anos' no capítulo nove. E se as 'semanas' do capítulo nove fossem compostas de dias, não haveria nenhuma razão de ele ter mudado a forma hebraica no capítulo dez".3
A idéia de 'semana de anos' soa um tanto estranho aos nossos ouvidos, mas é algo com que os judeus estavam bem familiarizados. Lemos em Gênesis que Jacó trabalhou 7 anos por Lia e, depois, mais sete anos por Raquel (Gn.29:21-30). Note que neste texto Labão fala dos sete anos de trabalho de Jacó como sendo semanas: "Decorrida a semana desta, dar-te-emos também a outra, pelo trabalho de mais sete anos que ainda me servirás."(Gn.29:27). Outro texto bíblico onde aparece a expressão 'semanas de anos' encontra-se em Levítico: "Contarás sete semanas de anos, sete vezes sete anos; de maneira que os dias das sete semanas de anos te serão quarenta e nove anos."(Lv.25:8). Há ainda uma outra profecia, que nada tem a ver com as setenta semanas, mas serve também para esclarecer esta questão. Trata-se da profecia do exílio proclamada pelo profeta Ezequiel: "Porque eu te dei os anos da sua iniquidade, segundo o número dos dias... Quarenta dias te dei, cada dia por um ano..."(Ez.4:5,7). Notamos aqui que cada dia representa um ano. Se uma semana tem sete dias, então uma semana de anos tem sete anos. Portanto a profecia de Daniel fala de um período de 490 anos (setenta setes, ou seja 70 x 7 = 490).
Essas passagens demonstram claramente que as 70 Semanas de Daniel são semanas de anos. Mas se são semanas de anos, qual será a duração de cada ano? Há evidência suficiente na Bíblia que demonstra que o ano judaico é equivalente a um período de 360 dias, ou doze meses de 30 dias. Mais uma vez citaremos os argumentos apresentados pelo Dr. Mac'Clain:
"O primeiro argumento é histórico. Conforme a narrativa de Gênesis, o dilúvio começou no décimo-sétimo dia do mês segundo (7:11), e terminou no décimo-sétimo dia do mês sétimo (8:4). Isto é precisamente um período de cinco meses e felizmente a duração do mesmo período é dada em dias - 'cento e cinquenta dias' (7:24; 8:3). Assim o primeiro mês conhecido na história bíblica era de 30 dias, e doze meses nos dariam uma ano de 360 dias.
"O segundo argumento é profético e absolutamente conclusivo, porque se baseia numa medida incluída na própria profecia das setenta semanas sob discussão. Dn.9:27 menciona um período de perseguição aos judeus pelo príncipe vindouro que fará uma aliança com eles. Desde que esta perseguição começa 'no meio' da septuagésima semana e continua até o fim da semana, o período é obviamente de três anos e meio. Dn.7:24-25 fala do mesmo príncipe romano e da mesma perseguição, fixando a duração como 'tempo, tempos e metade dum tempo' no aramaico, três tempos e meio. Ap.12:4-7 fala do mesmo grande regente político e sua perseguição aos santos judaicos, durando 'quarenta e dois meses'. Ap.12:13,14 se refere à mesma perseguição, declarando a duração nos mesmos termos exatos de Dn.7:25 como 'tempo, tempos e metade dum tempo'; e este período é ainda mais definido em Ap.12:6 como 'mil duzentos e sessenta dias'. Assim temos o mesmo período de tempo variadamente apresentado como 3 ½ anos, 42 meses, ou 1.260 dias. De onde se vê claramente que a duração do ano nas setenta semanas da profecia é fixado pelas Escrituras como precisamente 360 dias".4
Esclarecendo ainda sobre a expressão "tempo, tempos e metade dum tempo" que aparece em aramaico em Dn.7:25, o Dr. Mac'Clain argumenta: "O livro de Daniel contém uma parte escrita em aramaico (Dn.2:4 - 7:28). Embora a palavra aramaica traduzida 'tempos' em 7:25 não seja dupla mas plural em forma, sem dúvida o plural aqui tem o significado de duplo... Isto é confirmado pela expressão paralela que ocorre em Dn.12:7, 'um tempo, tempos e metade dum tempo', onde a palavra 'tempos' é dupla na forma hebraica original".5

2. A SEXUAGÉSIMA NONA SEMANA:
Quando lemos a profecia de Daniel devemos observar alguns aspectos interessantes: (1) Toda a profecia trata do povo judaico: "Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre atua santa cidade..."(v.24). Veja Também Dn.10:14. (2) Dois príncipes são mencionados: o primeiro é o Messias (v.25), o segundo é "um prncipe que há de vir" (v.26). (3) As Setenta Semanas são divididas em três períodos: um período de sete semanas (v.25), outro de sessenta e duas semanas (vv.25,26), e um terceiro período de sete semanas (v.27). O primeiro e o segundo períodos juntos somam sessenta e nove semanas. (4) O início das Setenta Semanas é fixado como "desde a saída da ordem para restaurarar e para edificar Jerusalém" (v.25). (5) Ao fim das sessenta e duas semanas o Messias seria morto6 e Jerusalém destruída (v.26). (6) Após a 69ª semana o outro príncipe que há de vir (o Anticristo) fará uma aliança com a nação de Israel por uma semana. Aqui temos a última das 70 semanas, a septuagésima semana de Daniel (vv.26,27). (7) No meio da sepuagésima semana o príncipe violará a aliança com Israel: "fará cessar o sacrifício..."(v.27). (8) Ao findar as SetentasSemanas haverá um tempo de muitas benção para a nação de Israel (v.24).

2.1) Uma Profecia para Israel:
O texto é bem evidente. A profecia se refere à nação de Israel, o povo de Daniel, e tem relação com a santa cidade, Jerusalém. Os amilenistas e pós-milenistas, que recusam a idéia de uma grande tribulação para o povo de Israel, refutam esta interpretação dizendo que a septuagésima semana se cumpriu nos dias anteriores à destruição de Jerusalém ocorrida no ano 70 de nossa era, ou então interpretam-na espiritualmente, dizendo que ela se cumpriu na 1ª vinda de Jesus. Mas, conforme declara a profecia, as 70 semanas foram dadas: "...para fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia, e para ungir o santo dos santos."(v.24). Todas estas benção tem relação com Israel sobre quem vieram as 70 semanas. É claro que nenhuma delas se cumpriram ainda. Quando o Príncipe mencionado no verso 24, o Messias, veio à Israel, Ele foi rejeitado (Jo.1:11; Lc.19:14), e Israel tornou-se ainda mais o alvo dos castigos divinos. A iniquidade de Israel não foi expiada, pois somente o será quando esta nação reconhecer que o Jesus que eles rejeitaram é o Messias prometido. e isso só acontecerá no futuro, quando Jesus voltar (Zc.12:10; Mt.24:30; Os.5:15; Rm.11:25-27; At.2:36; 4:10; Lc.19:15). Portanto cremos que a última semana (a septuagéssima) ainda não se cumpriu. Isto estabelece um intervalo de tempo entre a 69ª e a 70ª semana de Daniel.



2.2) O Cumprimento da 69ª Semana:
Todos igualmente concordam que as sessenta e nove semanas de Daniel já se cumpriram sobre Israel. As 70 semanas tiveram seu início em 14 de março de 445 a.C., que foi a data que o reiArtaxerxes deu a ordem "para restaurar e edificar Jerusalém". Neemias registra o dia no qual essa ordem foi dada: "No mês de Nisã, no ano vigésimo do rei Artaxerxes..."(Ne.2:1). Segundo a Enciclopédia Britânica o rei Artaxerxes subiu ao trono em 465 a.C. Desse modo seu vigésimo ano é 445 a.C. Para encontrar o final das sessenta e nove semanas, temos que reduzí-las a dias. Desde que  69 semanas de 7 anos cada uma, e cada ano tem 360 dias, a equação à qual chegamos é 69 x 7 x 360 = 173.880 dias. Começando com 14 de março (mês de nisã) de 445 a.C., este total nos leva até 6 de abril de 32 a.D., a data em que Jesus entrou em Jerusalém. Este dia é aquele profetizado no Salmo 118:24-26, que apontava para a entrada triunfal de Jesus, quando os judeus clamavam "Bendito é o rei que vem em nome do Senhor"(Lc.19:38; Sl.118:26). Porque Eles rejeitaram o seu Rei (Lc.19:42), as benção do reino Messiânico que deveria trazer a paz, ficou adiada para o futuro (Is.9:6,7; Zc.9:9,10).
Para provar que os 173.880 dias são equivalentes ao período de 14 de março de 445 a.C. até 6 de abril de 32 a.D., é necessário fazer o cálculo pelo nosso próprio calendário:
445 a.C. até 32 a.D. = 476 anos
476 anos x 365 dias = 173.740 dias
173.740 + 116 dias (aumento de anos bissextos) = 173.856
173.856 + 24 dias (período de 14 de março de 445 a.C. até 6 de abril de 32 A.D.) = 173.880.
Este período de tempo do nosso calendário (476 anos = 173.880 dias) equivale aos 483 anos das 70 Semanas (7 + 62 = 69 e 69 x 7 = 483 anos). A profecia menciona 70 semanas, isto é 490 anos, mas somente 483 anos foram cumpridos. Resta ainda 7 anos (490 - 483 = 7), e este período restante é a septuagésima semana de Daniel, que se cumprirá na Grande Tribulação. Se esta última semana ainda não se cumpriu, então é porque há um intervalo entre a 69ª e a 70ª semanas. Desse modo a interpretação da profecia não é contínua, mas fica estabelecido o fenômeno do cumprimento parentético.

3. O INTERVALO ENTRE A 69ª E A 70ª SEMANA DE DANIEL:
Dois eventos deveriam acontecer após a 69ª semana: a morte do Messias e a destruição de Jerusalém. O segundo evento ocorreu após as sessenta e nove semanas, e não dentro delas: "Depois das sessenta e duas semanas..."(Dn.9:26). A história mostra que a destruição de Jerusalém ocorreu no ano 70 a.D. sob a invasão do general romano Tito. Portanto o segundo evento aconteceu quase 40 anos depois do primeiro, e o primeiro pôs fim a 69ª semana. Aqui há um detalhe interessante que deve ser observado. A profecia coloca a destruição de Jerusalém depois da 69ª semana, bem como a coloca antes da 70ª semana. Com essa evidência, observamos que a septuagésima semana não segue imediatamente à sexuagésima nona. Há pelo menos um intervalo de 38 anos (entre a morte de Cristo em 32 a.D. e a destruição de Jerusalém em 70 a.D.), e se há um intervalo de 38 anos, pode então haver um intervalo ainda maior. O período deste intervalo nós não sabemos quanto tempo durará, mas fica evidente que há esse intervalo de tempo entre as semanas. Até o nosso momento esse intervalo tem durado quase dois mil anos. É o período da dispensação da graça mencionada por Paulo (Ef.3:2,3), ou a dispensação do mistério (Ef.3:9; Rm.16:25; Cl.2:2; 4:2), ou período dos gentios (Ef.3:5,6; Rm.11:25; Lc.21:24; Ap.11:2). Terminando esse tempo, Deus voltará a tratar com Israel, na última das setentas semanas.

4. A SEPTUAGÉSIMA SEMANA:
Sem dúvida nenhuma a septuagésima semana é o período da Grande Tribulação (Mt.24:21), que há de vir sobre o mundo (Ap.3;10) e sobre Israel, para que se cumpra o restante da profecia de Daniel (Dt.4:26-31; Is.13:6-13; 17:4-11; Jr.30:4-9; Ez.20:33-38; Dn.12:1-4; Jl.3;9-11).
É nesse período que o povo de Israel será, através do sofrimento, purificado dos seus pecados. Então cumprir-se-á a profecia de Daniel: "...para fazer cessar a transgressão, para dar um fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia, e para ungir o santo dos santos."(Dn.9:24). É nesse período que Israel sofrerá "dores de parto"7 (Is.66:8), a fim de que o remanescente fiel seja gerado. Alguns intérpretes relacionam isso à Miquéias 5:2,3 e Ap.12:4,5. A nação de Israel será perseguida, mas Deus lhe preparará um caminho de fuga (Zc.14:4,5Ez.20:35; Ap.12:6). Esta perseguição terá início na metade da septuagésima semana. A profecia de Daniel diz que "o príncipe que há de vir"(Dn.9:27) fará uma aliança com Israel, mas no meio da semana romperá com esta aliança. Portanto para entendermos a tribulação devemos dividí-la em duas partes, como a própria Bíblia o faz.
O período completo da tribulação é de sete anos, divididos em 3 ½ cada parte. Isto fica bem claro nas profecias. O profeta Daniel menciona este período: "um tempo, dois tempos e metade de um tempo"(Dn.7:25). Literalmente temos a seguinte expressão: "um ano, dois anos e metade de um ano", o que equivale a três anos e meio. Esta mesma expressão também é usada em Apocalipse para se referir ao tempo da perseguição de Israel: "...e foram dadas à mulher (Israel) as duas asas da grande águia, para que voasse até o deserto, ao seu lugar, aí onde é sustentada durante um tempo, tempos, e metade de um tempo, fora da vista da serpente."(Ap.12;14). Este mesmo período é identificado ainda como sendo 42 mêses(Ap.13:5) ou 1.260 dias (Ap.12:6). Este período é a segunda metade da tribulação, quando o Anticristo (o príncipe romano)8 se assentará sobre o trono do Messias "estabelecendo a abominação desoladora"(Dn.12:31; Mt.24:15; IITs.2:3,4).
Deve-se notar que a profecia é clara em afirmar que antes da septuagésima semana "haverá guerra; desolações são determinadas."(Dn.9:26). Isso deixa claro que a septuagésima semana ainda não se cumpriu, pois até agora Israel continua buscando a paz (Sl.122:6-9; Jr.23:5,6; Lc.19:42). A paz só virá quando Jesus o Principe da Paz retornar com poder e glória (Mt.24:29-31).
Na primeira metade, quando haverá uma paz aparente, o evangelho será pregado à todas as nações (Mt.24:14). As duas testemunhas, provavelmente Moisés e Elias, proclamarão a mensagem da salvação (Ap.11;3). Provavelmente os 144.000 serão evangelistas nesse período (Ap.7:9-14: 14:1).
Há muito mais que poderíamos comentar sobre as 70 Semanas de Daniel, mas as passagens que foram aqui examinadas, cremos, são suficientes para demonstrar a veracidade daquilo que chamamos de cumprimento parentético, ou que Delitzsch chama de "apotelesmática, isto é, vê logo em seguida o próximo grande evento da história, a culminância do fim".9
É digno de nota ressaltar que a profecia de Daniel não menciona a Igreja, mas fala apenas do povo de Israel. Isso ocorre porque a Igreja era um mistério oculto em Deus (Ef.3:2,3; Rm.16:25; Cl.2:2; 4:2), que veio a revelar-se neste período de intervalo entre as 69ª e 70ª semanas de Daniel.
CONCLUSÃO

O presente estudo não tem a pretensão de esgotar o assunto, pois quando se trata de profecias não há ninguém neste mundo com autoridade vinda de Deus, para explicar, sem margens de erros, os acontecimentos futuros. A profecia está selada. É verdade que "O Senhor Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas."(Am.3:7; veja tambémGn.18:17). Também é verdade que as coisas reveladas "pertencem a nós e a nossos filhos para sempre..."(Dt.29:29b). Porém "...as coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus..."(Dt.29:29a), e "Não nos compete conhecer os tempos ou épocas que o Pai reservou para a sua exclusiva autoridade."(At.1:7). Devemos nos lembrar das palavras de Jesus: "...a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai."(Mt.24:36).
Com estas coisas em mente, devemos percorrer o caminho das profecias com muito cuidado e humildade. Porém não devemos nos desanimar, acreditando, como afirmam alguns, que é impossível conhecermos os tempos e épocas profetizadas. É claro que não ousaríamos descrever os detalhes das profecias, pois estes a Deus pertence, mas à nós foi dado o privilégio e também o dever de estudá-las "...para que cumpramos todas as palavras desta lei."(Dt.29:29).
Portanto ao nos dirigirmos às profecias, como crentes, é nosso dever decidir qual sistema hermenêutico vamos adotar; se é amilenismo, pós-milenismo ou pré-milenismo. Entretanto não devemos fazê-lo com arrogância, achando que somos infalíveis. Deus só revela seus segredos àqueles que se humilham perante Ele (I Pe.5:5).
Quando fizermos nossas escolhas não devemos desprezar nossos irmãos em Cristo que adotam sistemas diferentes. Portanto cabe aqui o velho, mas bem apropriado axioma cristão: unidade no essencial, tolerância no secundário, e amor em tudo!
Não devemos contender com nossos irmãos de opiniões diferentes, sobre questões que só a Deus compete decidir. Podemos presumir, mas não somos infalíveis.
É pena que muitos estudiosos não tratam dos pontos polêmicos das Escrituras com este espírito cristão. É o caso, por exemplo, de Cleómines A. de Figueredo, que na ânsia de defender o amilenismo, reportou-se ao pré-milenismo de maneira irônica, fazendo seus defensores parecerem tolos. Só faltou chamá-los de herege. Cleómines escreve: "Este reinado de Cristo na terra, o milênio, fracassado na 1ª tentativa (!), será realizado na terra, como outro reino qualquer, havendo pessoas revoltadas, guerras, conflitos, e o 'Rei' Jesus, com sede em Jerusalém, atendendo telefone (?) dando entrevista por televisão (?), 'tendo audiências marcadas como Presidente' (?) e guerreando com armas, bombas, fuzis (?), mantendo 'a ordem' com os santos (?), mantendo a soberania do Estado de Israel (?)".1
Não devemos tratar dessas coisas neste nível. Elas são sérias demais para usarmos da ironia, seja para defender, seja para refutar. Que o leitor saiba decidir que caminho tomar, mas ao fazê-lo, não caia no mesmo exemplo de muitos daqueles que, com suas apologias, tem mais colaborado para a divisão do corpo de Cristo, do que para a sua edificação.


APÊNDICE I - O ARREBATAMENTO DA IGREJA

A palavra arrebatamento vem do grego arpazw = harpázô = roubar, arrebatar, tomar ou arrancar com força (Mt.12:29; At.8:39; ICo.12:2,4; Ap.12:5; Mt.11:12).1
A doutrina do arrebatamento é particularmente ensinada por Paulo aos tessalonicenses: "...nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares..."(ITs.4:17).
Há uma grande controvérsia entre os expositores bíblicos acerca desta doutrina. Alguns dizem que o arrebatamento da Igreja ocorrerá antes do início da grande tribulação (estes são os pré-milenistas). Esse modo de enxergar a doutrina exige que a Segunda Vinda de Jesus ocorra em duas fases. A primeira fase é secreta, para o encontro da Igreja nos ares (esta é o arrebatamento da Igreja). A segunda fase é visível, quando Jesus colocar os seus pés sobre o Monte das Oliveiras, para restaurar o reino de Israel e julgar as nações (Zc.14:4; At.1:6-11; Ap.1:7; Ap.14:1). Outros há que acreditam que a Segunda Vinda só tem uma fase, e, portanto, o arrebatamento da Igreja acontecerá em sua Segunda Vinda, após a tribulação (amilenistas e pós-milenistas). Há ainda outro grupo; daqueles que acreditam que a Igreja será arrebatada no meio da tribulação. A seguir veremos resumidamente os dois diferentes aspectos do arrebatamento da Igreja (quanto ao tempo e quanto ao modo).

I. O TEMPO DO ARREBATAMENTO DA IGREJA:
Há três diferentes opiniões sobre o tempo do arrebatamento da igreja:

1. ARREBATAMENTO PRÉ-TRIBULACIONAL:
O propósito da tribulação não é purificar a Igreja nem disciplinar os crentes, mas sim purificar a nação de Israel, preparando-a para a restauração do reino. A Igreja será arrebatada antes da tribulação (Lc.21:36; Rm.5:9; ITs.5:9; Ap.3:10). Nesta fase da sua Segunda Vinda, Jesus vem para a Igreja; na segunda fase Jesus vem com a Igreja (Jd.14). Alguns interpretam a "apostasia" ("...isto não acontecerá sem que primeiro venha a remoção..." - IITs.2:3) não em seu sentido negativo "afastar-se" referindo-se ao afastamento da fé (ITm.4:1), mas como sendo a "remoção" ou "partida" da Igreja, como em 2:7 ("...que seja afastado aquele que o detém...").
Nesta ocasião os cristãos serão julgados (IICo.5:10), diante do tribunal de Cristo nos céus. Não é um julgamento para receber ou não receber a vida eterna, mas sim para receber galardõesICo.3:10-15). O crente não entra em juízo (Jo.5:24; Rm.8:1) pois o trono de juízo (o trono branco - Ap.20:11) será estabelecido somente depois da rebelião final da humanidade contra Cristo. No juízo final haverá julgamento das obras, quando o livro da vida será aberto juntamente com o livro das obras (Ap.20:12). Não é assim com os crentes; suas más obras já foram julgadas no sacrifício do Calvário (Rm.6:6,7; Hb.10:14-18).
O pré-tribulacionismo admite uma Segunda Vinda Iminente, isto é, poderá ocorrer a qualquer momento (ICo.1:7; Fp.4:5; Tt.2:13; Tg.5:8,9; Jd.21), e nenhum evento ou profecia necessita ser cumprido para que o arrebatamento ocorra, ao contrário das outras interpretações que exigem a ocorrência da tribulação antes que o arrebatamento se consuma.
Para o pré-tribulacionista a primeira ressurreição terá, pelo menos, três fases: (1) A ressurreição dos justos mortos, no arrebatamento pouco antes da tribulação; (2) A ressurreição, imediatamente após a tribulação, dos santos que morreram durante a tribulação, os mártires; (3) A ressurreição dos santos de Israel, no final da tribulação. Outros admitem cinco fases, acrescentando à estas a ressurreição de Cristo, como "as primícias dos que dormem", e as duas testemunhas que serão ressuscitadas no meio da tribulação (Ap.11:3-12).

2. ARREBATAMENTO MID-TRIBULACIONAL:
Esta interpretação argumenta que os eleitos mencionados por Jesus que passarão pela tribulação (Mt.24:21,22), refere-se aos santos da igreja que estarão presente. O mid-tribulacionista faz diferença entre tribulação e ira de Deus. Crêem que a Igreja não sofrerá a ira de Deus, mas deverá passar pela tribulação. A primeira metade da tribulação, na qual a igreja estará presente, ocorrerá apenas uma tribulação. Depois disso a ira de Deus será derramada: "...logo em seguida à tribulação daqueles dias..."(Mt.24:29). Quando isto estiver para acontecer a Igreja será arrebatada, exatamente no meio da tribulação, para ser poupada da ira de Deus.



3. ARREBATAMENTO PÓS-TRIBULACIONAL:
O pós-tribulacionista argumenta, como o pré-tribulacionista, que a Igreja não ficará exposta à ira de Deus. Eles distinguem entre a grande tribulação e a ira de Deus. As passagens de Rm.5:9 eITs.5:9, onde aparecem o termo ira, não se referem a grande tribulação, mas sim à ira do juízo final. A Igreja participará da tribulação, mas os santos não serão atingidos pela ira de Deus, serão poupados dela. A passagem de Ap.3:10 não significa que a igreja será excluída da tribulação, mas que ela será preservada na tribulação. Eles dão à esta passagem a seguinte interpretação: "...Eu te guardarei na hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro..."(Ap.3:10). Isto significa que a igreja será preservada na tribulação, e não excluida dela.
Para o pós-tribulacionista a primeira ressurreição só tem uma fase, que ocorrerá no começo do milênio. Já que não há nenhum intervalo entre a vinda de Jesus para a Igreja e a vinda com a Igreja, nenhum santo morre durante este interlúdio e, portanto, não há necessidade de duas fases na ressurreição dos justos.
Para os pós-tribulacionista "aquele que o detém" (IITs.2:7) que será removido, é o Espírito Santo, e sua retirada não acarreta a remoção da igreja, pois o que será removido não é a sua presença, mas a sua ação plena e graciosa. Outros interpretam que nem o Espírito Santo nem a Igreja serão afastados, mas sim o Anticristo. Segundo esta interpretação a passagem ficaria desse modo: "E agora sabeis o que detém (o poder de Deus), para que ele (o Anticristo) seja revelado na sua ocasião própria. Pois o mistério da iniquidade já opera: somente que há um (Deus) que agora o detém até que ele (o Anticristo) seja removido do caminho".2

II. O MODO DO ARREBATAMENTO DA IGREJA:
Há duas escolas de pensamento quanto ao modo do arrebatamento da Igreja. São elas: (1) Arrebatamento Integral; (2) Arrebatamento Parcial.

1. ARREBATAMENTO INTEGRAL:
Esta linha de pensamento ensina que a Igreja será arrebatada integralmente. Nenhum crente ficará de fora, apesar dos seus pecados. As Escrituras ensinam que a Igreja de Jesus, sua Noiva, é"...gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem cousa semelhante, porém santa e sem defeito"(Ef.5:27). Isto significa que nenhum de seus membros poderá faltar, pois seria uma Igreja incompleta, defeituosa. A Escritura diz que a Igreja já foi santificada (Ef.5:26). Portanto, se, na hora do arrebatamento, algum cristão for encontrado em desobediência, ela não será deixado, mas, juntamente com os fiéis, será arrebatado, todavia "sofrerá ele dano"(ICo.3;15), isto é, sofrerá perdas de galardões.

2. ARREBATAMENTO PARCIAL:
Segundo este modo de pensar, vê-se um segmento da Igreja arrebatado antes da tribulação, e o outro segmento permanecendo na terra durante toda a tribulação. Portanto o arrebatamento é pré-tribulacional para alguns e pós-tribulacional para outros. Ira E. David, defensor desta interpretação argumenta: "A base da trasladação deve ser a graça ou a recompensa. Aqueles que esperam que todas as pessoas na Igreja verdadeiramente serão trasladadas de uma só vez, pensam que a trasladação é totalmente pela graça. A salvação é pela graça (Ef.2:8). Depois de as pessoas serem salvas, no entanto, recebem galardão pela sua fidelidade e vigilância. Repetidas vêzes, os crentes são advertidos contra a falta destas. Em I Co.3:14,15, conta-se-nos que há galardões para os crentes. ora, não é a trasladação um galardão? cremos que as frequentesexortações nas Escrituras no sentido de vigiarmos, sermos fiéis, estarmos prontos para a vinda de Cristo, vivermos vidas cheias do Espírito, sugerem, todas elas, que a trasladação é um galardão".3
Aqueles que adotam esta interpretação, entendem a parábola das dez virgens não como sendo a nação de Israel, mas sim a Igreja. Contudo, a distinção entre as cinco virgens prudentes e as cinco néscias, não é entre os crentes verdadeiros e falsos, mas sim entre os fiéis e os infiéis. Govett dá oito razões para esta interpretação: "(1) Todas as dez mulheres são virgens, não meras pretendentes à virgindade. Elas não se chamam de virgens; o Senhor assim as chama. (2) Todas as dez tinham lâmpadas acesas, o que significa que a sua profissão de fé era apoiada por boas obras. (3) Saem com o desejo de encontrar-se com Jesus, indicação esta de um coração verdadeiramente convertido. (4) Suas lâmpadas ficam acesas por algumas horas, o que indica que têm o azeite da graça. O texto não é explícito quanto a algumas das lâmpadas chegarem a apagar-se. (5) São consideradas dignas de chegarem à primeira ressurreição, a ressurreição dentre os mortos, o que é o caso somente dos filhos de Deus. (6) As virgens néscias adormecem juntamente com as prudentes, e acordam juntamente com elas. (7) As virgens néscias estão prontas para entrar se o noivo chegar cedo ao invés de tarde, ou seja, antes de adormecerem. (8) Mesmo no fim continuam sendo virgens, a qualificação interna essencial para as bodas. sua única deficiência está dentro do âmbito da sua capacidade circunstâncial e secundária: falta-lhes uma segunda medida de azeite. Os descrentes, por contraste, deixam de satisfazer as duas qualificações".4
Há ainda muitas outras passagens que são usadas para apoiar o ponto de vista mid-tribulacionaista, tais como Mt.24:40 e Lc.21:36, e, ainda, muitas passagens bíblicas sobre o dever do cristão de estar sempre em vigilância para que a vinda de Cristo não o surpreenda.

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