quarta-feira, 3 de setembro de 2014

PEDRO E CORNÉLIO


Cesaréia era uma cidade portuária que ficava a quarenta e cinco quilômetros de Jope, e foi onde Saulo embarcou para Tarso quando saiu de Jerusalém (cap. 9:30). Era de importância estratégica para o exército romano, que tinha ali um centurião chamado Cornélio.
O centuriões sempre aparecem sob um aspecto favorável no Novo Testamento (Mateus 8:5, Lucas 7:2, 23:47, Atos 10:1, 22:25, 27:3). Uma legião romana se compunha de dez coortes e sessenta centúrias. Está comprovado que nas províncias romanas havia coortes de cidadãos voluntários vindos da Itália, tal como esta mencionada por Lucas, em cuja lealdade o procurador romano podia confiar.
Cornélio se distinguia por ser, com toda a sua casa, piedoso e temente a Deus, a quem orava consistentemente, e era generoso com suas esmolas aos necessitados. Embora gentio, ele talvez conhecia e cria no verdadeiro Deus, devido ao seu intercâmbio com os judeus.
Cornélio servia a Deus da maneira que considerava apropriado, segundo seu pouco conhecimento. Não era o suficiente para salvá-lo, mas a sua prática da justiça o tornou aceitável a Deus (v. 35), que providenciou para que ele viesse a conhecer o Evangelho a fim de que fosse salvo (cap. 11:14). O evangelista escolhido por Deus para essa tarefa foi Pedro, e Deus interveio diretamente a fim de que o encontro se desse entre os dois, estando Pedro alojado na casa do curtidor Simão em Jope.
Esta é a resposta que Deus dá à pergunta frequentemente formulada: “O que acontece com aqueles que são “bons” mas não conhecem o Evangelho, e assim não podem aceitar ou rejeitar a Cristo?” A resposta é que Deus trará a luz para tal pessoa, fazendo com que ele venha a saber do Evangelho. Pode ser mediante contato pessoal com um cristão, por uma mensagem pelo rádio, por um folheto, etc. Muitos vêm à luz quando a procuram na Bíblia, que fala por si.
Deus primeiro deu uma visão a Cornélio: não foi um sonho, e poderia ter acontecido quando Cornélio estava orando, sendo três horas da tarde, depois da refeição do meio-dia. A sua visão foi de um anjo de que se dirigia para ele chamando-o pelo seu nome “Cornélio!” Ele se distinguia pelas suas vestes resplandecentes, e Cornélio ficou atemorizado.   Chamou-o de “Senhor” e perguntou “O que é?”
O anjo declarou que suas orações e suas esmolas haviam subido para memória diante de Deus (como a fumaça do incenso – Apocalipse 8:4), e o comandou a enviar homens a Jope e chamar Pedro. Cornélio obedeceu imediatamente e escolheu três homens: dois domésticos e um soldado piedoso para a sua proteção, contou-lhes o que se passara e os enviou com essa tarefa. Já era tarde, e tiveram que pernoitar no caminho, chegando a Jope depois do meio-dia do dia seguinte.
Enquanto isso, Deus preparou Pedro para proclamar o Evangelho ao gentio Cornélio, pois Pedro ainda estava preso a preconceitos contra os gentios por causa do judaísmo em que havia crescido. Essa barreira era intransponível para os homens, e ainda existe hoje, não só no judaísmo, mas também no islamismo e em diversas seitas e instituições religiosas que se dizem cristãs mas impedem que os seus adeptos ouçam e venham ao conhecimento do verdadeiro Evangelho de Cristo.
Era meio-dia, a refeição ainda não estava pronta e Pedro subiu ao eirado (uma laje que cobria a casa em lugar de telhado) para orar. Estava com fome, o que era propício para o que se seguiu. Sobreveio-lhe um êxtase (estado em que uma pessoa se encontra como que transportado para fora de si e do mundo sensível), e nesse estado viu o céu aberto e um objeto semelhante a um lençol atado nas quatro pontas sendo baixado à terra, contendo variedades de todos os quadrúpedes, répteis e aves.
Uma voz lhe ordenou que levantasse, matasse e comesse daqueles animais. É possível que Pedro tenha reconhecido a voz do Senhor Jesus, pois não teve medo e disse confiadamente que de modo nenhum faria isso porque “nunca comi” e, subentende-se “nem vou começar a comer agora”. Talvez Pedro pensava que estava sendo provado pois havia ali animais cuja carne era proibida aos judeus pela lei de Moisés. Chamou-O de “Senhor”, mas não quis obedecê-lO.
O crente não deve dizer “de modo nenhum” ao Senhor, pois é claramente uma desobediência. No entanto, nesta ocasião Pedro o fez por três vezes (assim como havia negado o Senhor três vezes anteriormente). Na segunda vez a Voz o repreendeu “Não chames tu comum ao que Deus purificou”. Ele havia chamado de “comum” o que Deus lhe havia oferecido para matar e comer, assim estava querendo mostrar que era ainda mais piedoso do que o seu Senhor. É uma ilustração da obstinação por parte de alguém quando descobre que Deus se opõe às suas próprias preferências e preconceitos. Vemos muito disto hoje também.
A lei de Moisés distinguia cerimonialmente entre os animais “limpos” e os “imundos” sendo que não era permitido comer a carne dos “imundos”. Mas desde o dia de Pentecoste, quando a igreja fora batizada com o Espírito Santo, iniciou-se um novo período quando a lei de Moisés foi substituída pela graça de Deus (Gálatas 5), ao alcance do mundo inteiro. Entre outras coisas, cessou a distinção entre os judeus (a “circuncisão”) e os gentios (os “incircuncisos”), entre animais “limpos” e os “imundos”, etc.
Era isto que Deus estava ensinando a Pedro através da visão dos animais. Assim como Pedro podia agora comer de tudo, pois o que era imundo havia sido purificado com a inutilização da lei, também havia cessado a distinção entre judeus e gentios, pois a graça de Deus alcança a todos.
O objeto foi recolhido ao céu, e Pedro ficou refletindo, perplexo, sobre o que seria o propósito dessa visão. Desde sua infância Pedro havia aprendido a distinguir entre alimentos “limpos” e “imundos”, e talvez não havia entendido quando o Senhor outrora havia dito “não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar”, assim declarando puros todos os alimentos. (Marcos 7:18,19).
A resposta não tardou: ouviu-se a voz dos homens enviados por Cornélio, à porta, indagando se ele estava hospedado ali. Enquanto ele ainda meditava, o Espírito instruiu que ele descesse e fosse com eles, nada duvidando, porque fora Ele quem os mandara. Pedro tinha sido escolhido por Deus para abrir a porta da salvação aos gentios, que ele havia sempre considerado como impuros, estrangeiros, distantes e sem Deus. Os gentios, representados pelos animais impuros, iam receber o Espírito Santo da mesma forma como os judeus convertidos.
Pedro falou com os emissários de Cornélio, e depois de ouvir sobre o bom caráter dele e da sua visão do anjo que o mandara chamar, Pedro os hospedou aquela noite e partiu com eles no dia seguinte, sendo ainda acompanhados por seis irmãos de Jope. Pernoitaram no caminho, e entraram em Cesaréia no próximo dia, o terceiro depois que Cornélio tivera a sua visão.
Cornélio havia reunido em sua casa seus parentes e amigos mais íntimos para receberem Pedro e, vendo-o chegar, prostrou-se aos seus pés e o adorou. Pedro prontamente o ergueu, dizendo “levanta-te, porque eu também sou homem.” É uma advertência também para aqueles que, ainda hoje, “veneram” e se dobram diante das estátuas que entendem ser de “São” Pedro, e daqueles que se dizem ser seus sucessores.
Pedro explicou a todos que havia aprendido de Deus que “não devia chamar nenhum homem de comum ou imundo”: ele havia descoberto o propósito da sua visão dos animais.
A pedido de Pedro, Cornélio lhe contou a sua própria visão, e Pedro declarou que reconhecia que Deus não faz acepção de pessoas.
Pedro anunciou a “palavra de Deus ... anunciando a paz por Jesus Cristo”,   dando seu próprio testemunho a respeito de “Jesus de Nazaré”. Começou pelo batismo de João Batista e terminou com a Sua morte e ressurreição. Declarou então que o Senhor Jesus o ordenara a testificar que “Ele fora constituído juiz dos vivos e dos mortos” e que conforme todos os profetas “todo o que nele crê receberá a remissão dos pecados pelo Seu nome”.
Antes mesmo dele terminar, Cornélio e os seus parentes e amigos íntimos creram em Jesus Cristo e foram salvos. No mesmo instante receberam o Espírito Santo da parte de Deus, que foi manifestado a Pedro e os outros irmãos por falarem línguas e glorificar a Deus do mesmo modo que havia acontecido com os discípulos no dia de Pentecoste (cap. 11:15). Em vista disso, Pedro ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo.
A ordem dos acontecimentos na conversão, tanto de judeus como de gentios, continua sendo esta até hoje: ouvir a Palavra (crer – v.44), receber o Espírito Santo (dom espontâneo de Deus – v.44, 47) e ser batizado (v. 48).  

R David Jones

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

VIDA E OBRA DE MARTINHO LUTERO


Uma das figuras mais polêmicas do cristianismo e responsável maior pela reforma protestante, Martinho Lutero nasceu em 10 de Novembro de 1483, na cidade de Eisleben, filho de Hans e Margareth Luther. Na manhã seguinte, festa de Martim de Tours, foi batizado com o nome do santo do dia, na igreja de São Pedro e Paulo.
Hans Luther, seu pai, foi fazendeiro, mineiro, dono de mina, e posteriormente fez parte do conselho da cidade de Mansfeld, para onde eles se mudaram quando Lutero tinha um ano de vida. O luterano Martin Marty1 descreve a mãe de Lutero como sendo uma grande trabalhadora da classe comerciante, enquanto nota que os inimigos de Lutero a descreviam como prostituta ou atendente de banheiros. Seus pais assinavam alternativamente os sobrenomes de Lüder, Luder, Loder, Ludher, Lotter, Lutter ou Lauther. A forma conhecida hoje como Luther foi escolhida pelo próprio Lutero por volta de 1512. Ele derivou seu nome ou do duque Leuthari ou da palavra grega ελεύθερος (livre), de onde ele tira a palavra flexionada Eleutherios (o livre)2.
Lutero frequentou a escola da cidade de Mansfeld de 1488 até 1497. Depois disto ele frequentou a Magdeburger Domschule. Ali ele estudou com os Irmãos da Vida Comum, comunidade religiosa católica que enfatizava uma vida de simples devoção a Jesus. Estes haviam estabelecido na Alemanha e Holanda escolas onde o ensino era oferecido “para o amor de Deus apenas”. Depois disto, em 1498, Lutero é enviado para os franciscanos em Eisenach, onde ele recebeu educação em música e poesia, se destacando como cantor. Desde cedo então, o jovem Lutero recebia influência religiosa.
De 1501 até 1505, Lutero vai estudar na faculdade de Erfurt, recebendo o título de “Magister Artium” da faculdade de Filosofia. Ali ele recebe educação básica em latim nas matérias de Gramática, Retórica, Dialética, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia.
Seguindo o desejo de seu pai, Lutero então inicia seus estudos de direito, na mesma faculdade, no ano de 1505. No entanto, abandona os estudos não muito tempo depois. Em 2 de julho daquele ano, depois de uma visita aos seus pais em Mansfeld, retornando para Erfurt durante uma tempestade, Lutero teve medo de morrer quando um raio cai perto dele, e chama Santa Ana, dizendo “Me ajude, santa Ana, e eu me tornarei um monge!”. Sua promessa pode ser explicada tanto pelo medo da morte e do julgamento divino, que posteriormente ele confessa a seu pai, como também pela educação religiosa que recebeu até então. Assim, em 17 de julho, contra a vontade de seu pai (que via aquilo como um desperdício de toda a educação que Lutero recebeu), ele entra em um monastério agostiniano em Erfurt.
Ali ele se dedica com tando afinco à vida monástica, se devotando a jejuar, passar horas orando, em peregrinação e em frequente confissão. Posteriormente ele diria que “Se alguém pudesse ganhar o céu como monge, eu certamente estaria entre eles”3. Foram anos de desespero espiritual que ele posteriormente descreveria: “Eu perdi contato com Cristo o Salvador e Confortador e fiz dele o carcereiro e carrasco da minha pobre alma”4. Tanta dedicação o faz diácono já em 27 de fevereiro de 1507, e padre em 4 de abril do mesmo ano.
O motivo de tanto desespero espiritual se encontrava no sacramento da penitência. Os pré-requisitos deste sacramento eram arrependimento sincero, falta de medo diante da punição divina e a confissão de todos os pecados, inclusive os pecados secretos, mesmo os desconhecidos pela pessoa. Estes pré-requisitos Lutero levava bastante a sério, chegando posteriormente a duvidar da sua capacidade de cumpri-los, o que o levou a duvidar ainda do perdão de Deus.
Assim Johann von Staupitz, seu confessor e vicário geral da congregação, concluiu que Lutero precisava de mais trabalho para distraí-lo de excessiva introspecção, ordenando ele a buscar uma carreira acadêmica em Wittemberg, em 1508, onde entra em contato com a teologia de Guilherme de Ockham. Em março de 1509 recebe o grau de bacharelado em Estudos Bíblicos, que o permitiu ler alguns trechos bíblicos com os acadêmicos. Poucos meses depois recebe outro grau de bacharelado nas Sentenças de Pedro Lombardo, que o permitiu expô-las. Pouco depois disto retorna para Erfurt.
Em 1510, Lutero viaja para Roma, em uma missão em nome de seu convento. A casa de Erfurt e seu prior, Johann Nathin, pertenciam a um movimento de reforma dentro da ordem Agostiniana que buscava expandir uma observância mais estrita da Regra. Em setembro de 1510, uma união entre as ordens foi anunciada, o que para estes monastérios reformados como o de Erfurt, significava uma perda do que já havia sido obtido. Por este motivo, estas congregações decidiram apelar para o vicário geral, Giles (Egidio) de Viterbo, em Roma. Assim, Lutero foi escolhido para levar a apelação ao vicário geral. Viagens assim não poderiam ser feitas sozinho, pois isto era proibido pela ordem. Provavelmente foi acompanhado por Anton Kresz da casa de Nuremberg, que estava encarregado da missão.
Foi em Roma que Lutero teve grande decepção. Segundo relatos de seu filho Paulo, que ouviu isto de seu pai em 1541, Lutero ali subiu a famosa Scala Santa de joelhos, pedindo penitência por ele e seus parentes. Arrependido de seus atos, volta a Alemanha.
Em setembro de 1511, retorna a Wittenberg. Em 19 outubro de 1512 ele recebe o título de Doutorado em Teologia, e em 21 de outubro de 1512 recebeu o convite para ocupar a posição de Doutor na Bíblia na mesma faculdade, título que manteve até o fim de sua vida.

CONTRA A VENDA DE INDULGÊNCIAS

Um ano antes da elaboração das 95 teses, Lutero já pregava abertamente contra as indulgências. No verão de 1517, ele recebe uma carta do cardeal Albrecht, intitulada Instructio Summarium, permitindo a venda de indulgências no país. Parte das rendas serviria para pagar as dívidas dele com a família Fugger, que financiaram seu príncipe eleitor. Para esta tarefa, ele envia Johann Tetzel.
No dia 4 de setembro de 1517, Lutero distribui 97 teses entre seus discípulos e colegas sobre uma disputa com a teologia escolástica. Depois disto Lutero elabora suas 95 teses a respeito das indulgências, que, segundo Filipe Melanchthon, teriam sido fixadas na porta principal da Igreja de Todos os Santos, em Wittenberg, no dia 31 de outubro de 1517, evento que ficou mais tarde conhecido como o estopim para a reforma protestante.
Tal fato é hoje muito questionado. Alega-se por um lado que Filipe Melanchthon não poderia ser testemunha ocular do evento, pois chegou à universidade como professor apenas em 1518. Além disto se alega também que tal ato seria interpretado como uma provocação aos seus superiores. Havia sim o costume de se fixar teses nas portas da Igreja, mas isto acontecia apenas depois de se verificar as reações de bispos ao trabalho fixado. Lutero não desejava confrontar seus superiores, mas sim, esclarecer alguns pontos sobre as indulgências.
Por outro lado, Filipe Melanchthon era amigo muito próximo de Lutero. Mesmo não sendo testemunha ocular, ele poderia muito bem ter ouvido o relato do próprio Lutero. Além disto, ele nunca fez disto um fato extraordinário, ficando difícil entender por que Melanchthon poderia mentir ou até mesmo se enganar sobre este ponto.
Sabe-se no entanto que Lutero escreveu uma carta ao arcebispo Albrecht de Mainz e Magdeburg em 31 de outubro de 1517, onde ele denunciava a venda de indulgências e exigia o esclarecimento de mal-entendidos. Com a carta ele enviou 95 teses, as quais serviram de base para uma discussão sobre o assunto. Mas Albrecht não respondeu esta carta, enviando-a para Roma. Johann Tetzel reagiu escrevendo contra-teses, com a ajuda do teólogo Johannes Eck, professor da cidade de Ingolstadt.
A resposta do papa foi colocar a questão debaixo da jurisdição dos agostinianos, cuja próxima reunião capitular seria em 26 de abril de 1518, conhecida hoje como a Disputa de Heidelberg, cidade onde aconteceu. Para lá foi Lutero, temendo por sua vida, mas encontrando amplo apoio por parte dos monges ali. Nesta disputa, Lutero pôde elucidar sua teologia, onde pregava a graça de Deus. A questão é que Lutero via seu entendimento sobre esta graça como o alicerce para seu ataque às indulgências. Foi em Heidelberg que Lutero convenceu muitos futuros reformadores, entre eles Martin Bucer, sobre a veracidade de sua teologia.
Assim, o papa Leão X teve que tomar outro caminho. Se reuniria em Augsburgo, em outubro de 1518, a dieta do império, ou seja, a assembléia de todos os potentados alemães, sob presidência do imperador Maximiliano. O legado papal para esta dieta era o cardeal Cajetano, cuja grande missão era convencer os príncipes alemães da necessidade de empreender uma cruzada contra os turcos, que ameaçavam a Europa, e de promulgar um novo imposto para este fim. O papa então comissionou Cajetano a se entrevistar com Lutero e o obrigar a se retratar. Se o monge negasse, deveria ser levado prisioneiro a Roma.
No entanto, o príncipe eleitor Frederico, o Sábio da Saxônia, em cuja jurisdição vivia Lutero, obteve um salvo conduto do imperador Maximiliano para Lutero, a quem se dispôs a ajudar em Augsburgo, mesmo sabendo que pouco mais de cem anos antes, e em circunstâncias muito parecidas, Jan Huss tinha sido queimado em violação a um salvo-conduto imperial.
A entrevista, que ocorreu entre 12 e 14 de outubro, não rendeu o resultado desejado. O cardeal se recusava a discutir com o monge e exigia sua renúncia. Por outro lado, Lutero não estava disposto a se retratar antes de ser convencido de seu erro. Quando descobriu que Cajetano poderia levá-lo a Roma como prisioneiro, abandonou a cidade às escondidas na noite do dia 20 para o dia 21.
Frederico ajudava Lutero não por que estava convencido por suas doutrinas, mas sim por que ele desejava que fosse dado um tratamento justo a Lutero. Ele desejava evitar o que havia acontecido com Jan Huss anos antes. Assim estavam as coisas, quando em janeiro de 1519, morre o imperador Maximiliano. A escolha de sucessores ao trono alemão não era feita por sucessão, e sim por eleição. Logo começou-se a discutir quem seria o sucessor de Maximiliano. Os dois candidatos mais poderosos eram Carlos I da Espanha e Francisco I, da França. Para o papa, nenhum dos dois candidatos convinha ser eleito, já que o império alemão fortaleceria qualquer um dos dois de forma desproporcional. Roma precisava de um candidato cujos atrativos residiam não no poder, mas sim, na sabedoria e justiça. E por isto não havia candidato melhor que Frederico.
Desta forma, como Frederico defendia Lutero até que este tivesse um julgamento justo pelo menos, Leão X prorrogou a condenação de Lutero, enquanto se aproximava do eleitor que o protegia. Por fim, Karl von Miltitz, parente de Frederico, foi enviado pelo papa à Alemanha, para obter uma solução amigável. Em entrevista com Lutero, conseguiu deste a promessa de não continuar a controvérsia desde que seus inimigos fizessem o mesmo. Isto trouxe uma breve trégua.
Isto durou até que Johannes Eck desafiasse, não Lutero, mas sim Karlstadt, colega de Lutero na universidade de Wittenberg, a um debate em Leipzig a cerca das doutrinas do livre-arbítrio e da graça, que ocorreu em Junho de 1519. Karlstadt havia se convencido das doutrinas de Lutero, porém era muito mais impetuoso e exagerado que Lutero. Como suas doutrinas seriam discutidas em Leipzig, Lutero declarou que participaria também do debate.
Quando chegou o momento de Eck e Lutero debaterem, ficou claro que Lutero conhecia mais sobre as Escrituras, enquanto Eck estava mais à vontade nas matérias de Direito Canônico e Teologia Medieval. O assunto do debate foi expandido, e Eck foi mais hábil em levar a discussão para as áreas que dominava. Assim, Eck obrigou Lutero a declarar que o Concílio de Constança havia se enganado ao condenar Huss, e que um cristão com a Bíblia, no seu entender, tem mais autoridade que todos os papas e os concílios contra ela. Isto foi o suficiente para Eck acusar Lutero de herege, por apoiar um herege condenado (Huss) por um concílio ecumênico.
Neste tempo, Carlos I da Espanha já havia sido eleito imperador alemão, por isto o papa não precisaria mais adiar nenhuma condenação de Lutero. Por outro lado, os defensores da causa de Lutero souberam aproveitar bem as condições políticas em seu favor. Além do número sempre crescente de seus seguidores, Lutero tinha as simpatias dos humanistas, que viam nele um defensor da reforma que eles mesmos propunham, e dos nacionalistas, para quem o monge era o porta-voz do protesto alemão diante dos abusos de Roma.

EXCOMUNHÃO

Assim, o papa tardiamente agiu, enviando a bula Exsurge domineem 15 de junho de 1520, onde ordenava que os livros de Lutero fossem queimados, dando ainda sessenta dias para se submeter à autoridade romana, sob pena de excomunhão e anátema. As obras do Reformador foram queimadas em muitos lugares onde foi recebida. No entanto, quando Lutero a recebeu, a queimou juntamente com outros livros com as doutrinas dos papistas. Este era o rompimento definitivo.

DIETA DE WORMS

Lutero em Worms
Embora o imperador Carlos V fosse católico fervoroso, não hesitou em usar o caso de Lutero para obter o apoio papal. Em todo caso, decidiu-se que Lutero deveria comparecer à dieta de Worms, que ocorreu de 28 de janeiro até 25 de maio de 1521. Esta dieta reunia vários súditos do império, e o príncipe eleitor Frederico obteve salvo-conduto para que Lutero pudesse comparecer à dieta, o que ocorreu no dia 18 de abril.
No interrogatório, Lutero foi apresentado a vários livros de sua autoria, para ser questionado se eles eram realmente seus livros, o que ele confirmou. Sendo confirmada a autoria dos livros, o interlocutor perguntou a ele se ele continuava sustentando as doutrinas ensinadas naqueles livros.
Este era um momento muito difícil para Lutero, que temia não o imperador ou o papa, mas sim a Deus, que os ordenara. Assim, pediu um dia para refletir sobre sua resposta.
No dia seguinte, a pergunta foi refeita. Em sua resposta, Lutero dividiu seus escritos em três categorias: a primeira não era mais que a doutrina cristã que tanto ele como seus inimigos sustentavam, e portanto ninguém deveria pedir-lhe que se retratasse daquilo. A segunda parte tratava sobre a tirania e as injustiças a que estavam submetidos os alemães, e também disto não se retrataria, pois tal não era o propósito da dieta, e tal negação somente contribuiria para aumentar a injustiça que se cometia. A terceira parte, que consistia em ataques a certos indivíduos e em pontos de doutrina que seus oponentes refutavam, certamente não havia sido escrita com demasiada aspereza. E assim tão pouco dela se retrataria, a não ser que lhe convencessem de que estava enganado.
Seu interlocutor insistiu: “Retratas-te, ou não”? E Lutero lhe respondeu em alemão mesmo “Não posso nem quero retratar-me de coisa alguma, pois ir contra a consciência não é justo nem seguro. Deus me ajude. Amém”. Alguns ainda dizem que ele acrescentou as palavras: “Aqui estou e não posso fazer diferente”. Mas atualmente se acredita que tais palavras foram adicionadas posteriormente.
Nos próximos 5 dias conferências foram mantidas para se decidir o destino de Lutero. Temendo pela própria vida, Lutero fugiu de Worms, antes que sua condenação fosse declarada. Durante a fuga, Lutero foi sequestrado por um grupo de homens armados, a mando de Frederico, o sábio, e foi levado ao castelo de Wartburg, em segredo. Ali Lutero passaria um bom tempo escondido.

TRADUÇÃO DA BÍBLIA

Hugo vogel: Lutero em Wartburg
Lutero ficaria no castelo de Wartburg até 1 de março de 1522, sob o pseudônimo de Junker Jörg. Dedicaria seu tempo a escrever, e entre as obras mais importantes de Lutero, está o início da tradução do Novo Testamento para o alemão, obra que ele terminaria 2 anos depois (o Velho Testamento levaria mais de 10 anos). Esta importante obra deu forma ao idioma alemão, além de permitir o povo a ler as Escrituras.
Enquanto Lutero estava no exílio, vários de seus colaboradores continuaram seu trabalho em Wittenberg, entre eles Karlstadt e Phillip Melanchthon. Lutero era tão temente a Deus que tinha vacilado em dar os passos concretos que seguiam sua doutrina. Em sua ausência, estes passos foram dados de forma mais rápida. Muitos monges e freiras deixaram seus conventos e se casaram, o culto foi simplificado, usava-se o alemão no culto, abandonou-se as missas pelos mortos, cancelaram-se os dias de abstinência e jejum. Melanchthon começou a oferecer a comunhão de ambos os modos, dando o cálice para os leigos também.
Isto era bem visto para Lutero no começo, mas quando Karlstadt começou a se dedicar a derrubar imagens, Lutero lhes aconselhou moderação. O clima instável em Wittenberg facilitou a entrada de três leigos conhecidos por Profetas de Zwickau, que diziam que Deus lhes falava diretamente, e não tinham necessidade das Escrituras. Melanchthon não sabia responder a estas pretensões, então pediu conselhos a Lutero em Wartburg. Este percebeu que o que estava em jogo era nada mais nada menos que o Evangelho, e retornou a Wittemberg, em 6 de março de 1522.
O retorno a Wittenberg pôde ser feito em segurança, por causa das condições políticas. Pouco tempo depois da dieta de Worms, o papa Leão X morria. Carlos V, embora quisesse acabar com o protestantismo luterano, tinha problemas com Francisco I, da França, e não podia molestar seus súditos alemães.
Por oito dias ele pregou 8 sermões conhecidos por Sermões Invocavit, onde ele se concentrou nos valores cristãos do amor, paciência, caridade e liberdade, lembrando os cidadãos para que confiem em Deus e não na violência para que eles consigam as mudanças necessárias. O efeito da intervenção de Lutero foi imediato.

CASAMENTO E FAMÍLIA

Em abril de 1523, Katharina von Bora e outras 8 freiras fogem do convento cisterciense de Nimbschen, na Saxônia. Desde então, elas vivem em Wittenberg. Posteriormente, em 13 de junho de 1525, Katharina e Lutero se casam, adiando as festividades para o dia 27.
Nesta época, alguns pastores já haviam se casado, como Andreas Karlstadt e Justus Jonas, mas o casamento de Lutero deu o selo de aprovação ao casamento clerical. Lutero já havia condenado o celibato usando bases bíblicas, mas mesmo assim a decisão de se casar pegou todos de surpresa.
Katharina passa então a ser de grande ajuda aos problemas pessoais de Lutero. Através do abrigo de estudantes e da anotação de vários discursos de Lutero, ela preveniu várias dificuldades econômicas. Juntos tiveram 6 filhos:
  • Johannes, nascido em 7 de junho de 1526 em Wittenberg, falecido em 27 de Outubro de 1575 em Königsberg (Preußen),
  • Elisabeth, nascida em 10 de dezembro de 1527 em Wittenberg, falecida em 3 de agosto de 1528 em Wittenberg,
  • Magdalena, nascida em 4 de maio de 1529 em Wittenberg, falecida em 20 de setembro de 1542 em Wittenberg,
  • Martin, nascido em 7 de novembro de 1531 em Wittenberg, falecido em 4 de Março de 1565 em Wittenberg,
  • Paul, nascido em 28 de janeiro de 1533 em Wittenberg, falecido em 8 de Março de 1593 em Leipzig,
  • Margarethe, nascida em 17 de dezembro de 1534 em Wittenberg, falecida em 1570 em Mühlhausen/Ostpreußen.

REBELIÃO DOS CAMPONESES

Em 1525, estoura a rebelião dos camponeses. Estes tinham sofrido por várias décadas uma opressão sempre crescente e já haviam ocorrido rebeliões em 1476, 1491, 1498, 1503 e 1514. Porém nenhuma delas teve a magnitude da de 1525. Além disto, a baixa nobreza acabara de perder suas poucas terras para a alta nobreza.
A esta nova rebelião, um novo fator se somou: a pregação dos reformadores. Embora Lutero não cria que sua pregação devesse ser aplicada em termos políticos, houve muitos que não estiveram de acordo com ele nesse ponto. Entre eles estava Tomás Muntzer, natural de Zwickau, tendo doutrinas que se pareciam muito com as dos profetas de Zwickau.
À parte de Muntzer, a revolta também possuía um caráter religioso. Quando elaboraram seus “doze artigos”, os camponeses apresentaram várias demandas econômicas, mas outras eram religiosas. Porém tratavam de baseá-las todas nas Escrituras, e seu último artigo declarava que, caso fosse provado que algum de seus pedidos era contrário às Escrituras, ele seria retirado.
Em todo caso, Lutero não sabia como responder a essa nova situação. Possivelmente sua doutrina dos dois reinos era mais difícil de entender do que praticar. Quando primeiramente leu os “doze artigos”, ele se dirigiu aos príncipes, dizendo-lhes que o que se pedia era justo. Mas quando a rebelião tomou forma, e os camponeses se armaram, Lutero tratou de dissuadi-los e posteriormente instou aos príncipes que tomassem medidas repressivas. No entanto, quando a rebelião foi sufocada com violência, o Reformador exigiu misericórdia para com os vencidos.
As consequências de tudo isto foram funestas para a causa da Reforma. Os príncipes católicos culparam o luteranismo pela rebeldia e, a partir de então, proibiram todo intento de pregar-se a reforma em seus territórios. E quanto aos camponeses, muitos deles abandonaram o luteranismo, e regressaram à velha fé ou se tornaram anabatistas.

ORGANIZAÇÃO ECLESIÁSTICA

Os problemas políticos continuavam impedir que Carlos V aplicasse as resoluções da dieta de Worms. Isto deu a Lutero tempo suficiente para organizar o culto.
Assim, de 1525 a 1529, Lutero estabeleceu um corpo eclesiástico supervisório, estabeleceu uma nova forma de adoração, e elaborou dois catecismos.
Para não confundir muito o povo, Lutero não fez mudanças muito drásticas no culto. Isto não foi bem visto por outros reformadores, que viam no culto de Lutero um culto muito papista. Por outro lado, Lutero escreveu vários hinos, se destacando como escritor de hinos.

COLÓQUIO DE MARBURGO

Em outubro de 1529, Filipe I de Hesse, adepto do protestantismo, convoca uma reunião de teólogos alemães e suíços no Colóquio de Marburgo, a fim de estabelecer a unidade dos Estados protestantes emergentes. Após discussões, 14 dos 15 pontos discutidos tiveram concordância por parte de todos. A única exceção seria sobre a natureza da Eucaristia, onde Lutero e Zuínglio discordavam, e se relacionava estritamente com o restante de suas teologias.
Além de Lutero e Zuínglio, o Colóquio contou com a participação de Johannes Agricola, Johannes Brenz, Martin Bucer, Caspar Hedio, Justus Jonas, Filipe Melanchthon, Johannes Oecolampadius, e Andreas Osiander.
Sobre a questão Eucarística, os teólogos alemães e suíços nunca chegaram a um consenso. No entanto, o colóquio de Marburgo foi importante para a formulação da confissão de Augsburgo.

CONFISSÃO DE AUGSBURGO

A dieta de Spira, em 1529, tomou um rumo muito diferente das dietas anteriores, que não tomaram nenhuma medida em relação às decisões da dieta de Worms. Naquele momento o imperador Carlos V era mais poderoso e vários príncipes que antes tinham sido moderados passaram para o lado católico. Ali se reafirmou o edito de Worms. Foi então que os príncipes luteranos protestaram formalmente e, por isso, a partir desse momento, começaram a chamá-los “protestantes”.
Finalmente, Carlos V regressou à Alemanha em 1530, para a celebração da dieta de Augsburgo. Na dieta de Worms, o Imperador não tinha desejado ouvir sobre o que se tratava o debate. Porém agora, tendo em vista o curso dos acontecimentos, pediu que lhe apresentassem uma exposição ordenada dos pontos em discussão. Esse documento, preparado primeiramente por Melanchthon, é o que se conhece como a “Confissão de Augsburgo”. No princípio representava somente os protestantes da Saxônia. Porém, pouco a pouco outros foram firmando-o e logo chegou a servir para apresentar ao Imperador uma frente quase que totalmente unida (havia outras duas confissões minoritárias que não concordavam com esta da maioria dos protestantes).
Novamente o Imperador encolerizou-se e deu aos protestantes um prazo até abril do ano seguinte para se retratar.
Diante da ameaça imperial, Lutero chegou à conclusão que era lícito pegar as armas em defesa própria contra o Imperador. Os territórios protestantes formaram então a União de Esmalcalda, cujo propósito era fornecer resistência ao edito imperial, se Carlos V decidisse impô-lo pelas armas.
No entanto, questões políticas impediram novamente de Carlos V fazer o que prometia. Sendo ameaçado pelos turcos e por Francisco I, teve que recorrer aos súditos alemães, iniciando as negociações entre protestantes e católicos, chegando-se então à paz de Nuremberg, em 1532.
Segundo o acordo, era permitido aos protestantes continuar com sua fé, sem estendê-la a outros territórios. O edito imperial de Augsburgo seria suspenso e os protestantes ofereceriam ao Imperador seu apoio contra os turcos.

O PROBLEMA DA BIGAMIA DE FILIPE DE HESSE

Filipe de Hesse, que havia de ser um forte aliado dos protestantes, tinha porém uma vida muito licenciosa. Assim que casou com a doente Christina da Saxônia, Filipe passou a cometer adultério. Já em 1526, Filipe considerava a permissividade da bigamia. Desta forma ele escreve a Lutero, alegando precedência dos patriarcas. Lutero escreve em 28 de novembro de 1526, que não era suficiente considerar os atos dos patriarcas, mas que ele deveria ter sanção divina para tal ato. Como não havia tal sanção, Lutero desencorajou tal ato, principalmente para cristãos, a menos que houvesse necessidade extrema, como por exemplo se a esposa fosse leprosa ou tivesse qualquer outra anormalidade.
Mesmo com o desencorajamento, Filipe continuou sua determinação em obter aprovação para a bigamia. Para isto, contribuiu muito os discursos de Lutero sobre o Gênesis, assim como precedentes históricos onde algo não cristão não fosse punido por Deus no caso dos patriarcas, que são chamados no Novo Testamento de modelo de fé. Assim ele propõe casamento a Margarethe von der Saale, que só concorda com isto caso seja aprovado pelos teólogos e o príncipe eleitor da Saxônia.
Filipe então ameaça o príncipe Butzer de se aliar ao Imperador, caso este não consiga convencer os teólogos a lhe ajudar. Lutero e Melanchthon são convencidos então pelos pedidos de necessidades éticas de Butzer. Assim, o “conselho secreto de um confessor” foi obtido de Lutero e Melanchthon em 10 de dezembro de 1539, sem que os dois soubessem que a esposa já tinha sido escolhida.
Butzer e Melanchthon foram chamados, sem nenhuma razão apontada, para irem a Rotenburg no Fulda, onde em 4 de março de 1540, Filipe e Margarethe se uniram.
Posteriormente este caso foi revelado pela irmã de Filipe, e se tornou um escândalo, onde a reputação de Lutero sairia manchada.

ÚLTIMOS ANOS

Lutero já vinha sofrendo de várias doenças perto do fim de sua vida. Lutero teria pregado seu último sermão em Eisleben, em 15 de fevereiro de 1546.
A viagem final de Lutero foi para Mansfeld, a fim de resolver problemas de parentes seus na mina que era de seu pai. Tudo foi resolvido de forma bem sucedida em 17 de fevereiro de 1546. Depois das 8 da noite do mesmo dia, Lutero começou a sentir fortes dores no peito. Ele morreria então no dia 18 de fevereiro de 1546.
Seu funeral foi feito pelos seus amigos Johannes Bugenhagen e Filipe Melanchthon, sendo enterrado na igreja do castelo de Wittenberg, embaixo do púlpito.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

NOTAS

1 Marty, Martin. Martin Luther. Viking Penguin, 2004, p. 1.
2 Horst Herrmann: Martin Luther. Ketzer und Reformator, Mönch und Ehemann. München 1999, p. 14
3 Kittelson, James. Luther The Reformer. Minneapolis: Augsburg Fortress Publishing House, 1986), 53
4 Kittelson, James. Luther The Reformer. Minneapolis: Augsburg Fortress Publishing House, 1986, 79.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

ATANÁSIO DE ALEXANDRIA: O DEFENSOR DA FÉ CRISTÃ


Atanásio, um dos maiores pais da Igreja primitiva, nasceu em Alexandria por volta do ano de 295 d.C., provavelmente de pais não cristãos e de língua grega, o que lhe deu ao menos a possibilidade de crescer e aprender as primeiras letras longe da última perseguição que assolou os cristãos egípcios entre os anos 303 e 312, embora aparentemente aquilo tivesse afetado de alguma forma a sua infância e adolescência. Após uma vida à qual nunca faltaram emoções e reviravoltas profundas, veio a falecer na sua mesma Alexandria no dia 2 de maio de 373.
Teria vivido, portanto, quase 80 anos, o que era uma expectativa de vida muito acima da média da época. Viveu intensamente e deixou um legado dos mais valiosos para a consolidação do cristianismo no Império Romano. Quanto à sua infância, entretanto, Gregório Nazianzeno, em sua Oratio (21,6), diz que “ele foi educado, desde o começo, nos hábitos e nas práticas religiosas, após um breve estudo de literatura e filosofia, de maneira que ele não podia ser considerado como incapacitado para esses assuntos, ou ignorante em matérias as quais ele estava determinado em desprezá-las. Pois a sua alma generosa e solícita não podia ficar ocupada com vaidades, como atletas despreparados, que socam o ar ao invés dos seus adversários e perdem o prêmio. Através da meditação em cada um dos livros do Velho e do Novo Testamento, com uma profundidade que até então ninguém tinha aplicado a um só deles, ele cresceu rico em contemplação e em esplendor de vida, combinando-os de maneira marvilhosa num laço dourado que poucos conseguem alcançar; usando a vida como uma guia de contemplação, e a contemplação como o selo da vida.”[1] Ainda que pouco se saiba desse período, aparentemente Atanásio teve algum tipo de influência cristã na sua formação. A sua produção literária na fase adulta indica que é muito provável que ele tenha tido algum tipo de treinamento filosófico, especialmente em Homero, Demóstenes, Platão, bem como outros platônicos posteriores, o que mostra a importância que deu à cultura grega. Entretanto, parecia também ser versado pelo menos na língua copta falada pelo povo egípcio da época, o que lhe despertou o interesse inclusive para escrever, posteriormente, “Vida e Conduta de Santo Antão”, sobre o padre eremita do deserto que marcou tanto o início da igreja cristã no Norte da África. Já na juventude e no início da idade adulta, aprenderá tanto da fonte do bem, representada por Alexandre, bispo de Alexandria (a quem sucederia no patriarcado local), como na fonte do mal, cujo maior símbolo foi Ário e sua heresia que ameaçou as estruturas do cristianismo. Foi contemporâneo, portanto, de homens que estiveram em lados opostos do grande combate que se travou sobre a natureza de Cristo, e – ao tomar o partido da ortodoxia – deixou seu nome gravado para sempre no rol dos heróis da fé. Hubertus R. Drobner tem uma versão curiosa sobre os primeiros passos de Atanásio na fé:
Maior probabilidade pode ser atribuída à “História dos patriarcas de Alexandria”, de Severo Ibn al-Muqaffa (PO I/4, 407s) conservada em árabe. Atanásio, assim relata esta história, seria filho de uma nobre e rica viúva de Alexandria, que, depois de seu filho haver crescido, teria insistido para que contraísse matrimônio, a fim de assumir os bens do pai. Mas como Atanásio não mostrasse para isso a mínima inclinação, sempre de novo ela teria enviado belas jovens ao seu quarto de dormir, para fazê-lo interessar-se pelo casamento e pela vida civil. Mas, quando despertava, Atanásio sempre enxotava as moças. Desesperada, a mãe teria procurado um mago conhecido na cidade, o qual, depois de conversar com Atanásio, teria comunicado à mãe que seus esforços não poderiam obter êxito, porque seu filho se dedicara ao cristianismo, mas que mesmo lá ele haveria de ser um grande homem. Então, para não perder o filho, ela o teria levado ao bispo Alexandre, que os teria batizado a ambos, mãe e filho. Após a morte da mãe Alexandre teria recebido e educado Atanásio como filho, e mais tarde o teria ordenado diácono, tomando-o como seu secretário.[2]
Seja lendário ou não esse relato, tudo indica que a formação cristã de Atanásio se processou de forma rápida e consistente, já que aos 17 anos de idade o patriarca Alexandre de Alexandria o nomeia para o cargo de leitor da igreja. Em 318, já aos 23 anos de idade, Alexandre o promove a diácono e secretário episcopal, isso numa época em que Ário já estava em uma das igrejas de Alexandria dando vazão a suas ideias polêmicas sobre a divindade de Jesus Cristo. A controvérsia toma tal proporção que Alexandre convoca um sínodo local, ao qual compareceram cerca de 100 prelados da região, que termina por condenar as ideias de Ário, expulsando-o da Igreja em 321. Eusébio de Nicomédia então o recebe e passa a protegê-lo, e a polêmica chega aos ouvidos de Constantino, que – preocupado com a unidade da Igreja que era o cimento do seu império – tenta apaziguar os ânimos, enviando Ósio de Córdoba à região na tentativa de mediar a crise, com uma carta pessoal sua endereçada aos dois principais contendores, em que diz que considerava aquilo “uma inútil disputa entre teólogos”[3], mas que não consegue fazê-los chegar a um acordo satisfatório a todas as partes envolvidas. Diante do impasse, não há outra solução senão convocar o concílio ecumênico de Niceia, que se realizaria no ano 325 e no qual estariam representados todos os bispos da cristandade, para se dirimir finalmente a questão. Agendado o concílio, começa então uma verdadeira guerra diplomática (para os padrões da época) dentro da Igreja. O próprio Ósio, entretanto, participaria de um concílio local em Antioquia pouco tempo antes de Niceia, no qual seriam condenados Eusébio de Cesareia e outros partidários de Ário. Este ensinava “uma doutrina que se pode sintetizar nestas Três frases: ‘O Verbo não é eterno nem tem a mesma natureza do Pai. Foi criado no tempo por Deus Pai. Só por metáfora é que lhe chamamos Filho de Deus’. Ário e seus discípulos separam, assim, o filho do Pai. Afirmam que o Filho não existia antes de ter sido gerado. Se houve, portanto, um tempo em que ele não existia, ele não é coeterno ao Pai. Ele, o filho, é a primeira e a mais sublime das criaturas, uma espécie de ‘segundo deus’ (déutero theós) mas é alheio ao Pai quanto à essência, como a vinha ao vinhateiro ou o navio ao construtor”[4].
Em sua Oratio (cap.6), Gregório Nazianzeno dá um destaque enorme à figura de Atanásio durante o concílio de Niceia, que se realizou entre os dias 20 de maio e 25 de agosto de 325. Chega a dizer que o diácono teve voz ativa durante as deliberações, o que é difícil de acreditar já que apenas os bispos tinham esse direito. É certo, entretanto, que Atanásio teve muita influência na formulação das ideias de seu bispo Alexandre, que antes da abertura dos trabalhos do concílio, envia uma carta encíclica aos seus pares, fazendo questão de ressaltar a verdadeira dimensão da controvérsia. Nela, há claros sinais da gênese do pensamento de Atanásio, que o acompanharia por todas as muitas polêmicas cristológicas que ainda iria enfrentar durante sua longa vida:
Quem ouviu, alguma vez, semelhantes coisas? Quem, agora que as ouve, não tapará os ouvidos para impedir que essas ignóbeis palavras cheguem até eles? Quem, ouvindo João dizer: “No princípio era o Verbo” (Jo 1,1), não condenará os que dizem “Houve um tempo em que ele não era”? Quem, ainda, ouvindo estas palavras do Evangelho “Filho único de Deus” (Jo 1,18) e “Tudo foi feito por meio dele” (Jo 1,3), não detestará os eu afirmam que o Filho é uma das criaturas? Como pode ele ser igual ao que foi feito por ele? Como pode ser Filho único aquele que elencamos com todas as coisas, na categoria destas? Como viria ele do nada, ao passo que o Pai diz: “De meu seio, antes da aurora, eu te gerei” (Sl 109,3)? Como seria ele, em sua substância, diferente do Pai, ele que é a imagem perfeita e o esplendor do Pai (2 Cor 4,4; Hb 1,3) e que diz: “Quem me vê vê o Pai” (Jo 14,9)? Se o Filho é o Verbo e a Sabedoria do Pai, como teria havido um tempo em que ele não existia? É como se dissessem que houve um tempo em que Deus não tinha Palavra nem Sabedoria. Como está sujeito à transformação e à alteração aquele que diz de si mesmo: “Eu estou no Pai, e o Pai está em mim” (Jo 10,38) e “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30), e que disse pelo profeta: “Vede-me; eu sou e não mudo” (Ml 3,6)? Mesmo que se pense que essa palavra pode ser dita pelo próprio Pai, seria agora, no entanto, mais oportuno, julgá-la dita por Cristo, porque, tornado homem, ele não muda, mas, como diz o Apóstolo, “Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje e pela eternidade” (Hb 13,8). Quem os leva a dizer que é por nós que ele foi feito, enquanto São Paulo diz: “Para ele e por ele todas as coisas existem” (Hb 2,10)? Quanto à sua afirmação blasfema de que o Filho não conhece perfeitamente o Pai, não seria de causar surpresa, pois, uma vez que eles se decidiram a combater Cristo, desprezam também as palavras do próprio Senhor que diz: “Como o Pai me conhece, eu também conheço o Pai” (Jo 10,15).
(a partir da tradução de I. Ortiz de Urbina, Nicée et Constantinople, 1963, pp. 250-251)[5]
Não há estatísticas exatas sobre o número de bispos que afluíram a Niceia para o primeiro grande concílio ecumênico da Igreja Cristã. Estima-se entre 250 a pouco mais de 300 o número de participantes com direito a participação ativa e a voto nas deliberações. Silvestre I, bispo de Roma, foi um dos ausentes, mas mandou representantes. Isto se devia basicamente ao fato de que o cristianismo era majoritário no Oriente e ainda minoritário no Ocidente. Atanásio e Ário não eram bispos e, portanto, não podiam participar do conselho, tendo sido esse último representado por seu protetor Eusébio de Nicomédia. No campo contrário, Alexandre de Alexandria se via em posição de fraqueza não tanto pela oposição dos arianos, mas porque poucos bispos sabiam exatamente da gravidade do que iria ser discutido no conclave. Todos, de certa maneira, já estavam preocupados em formular um dogma que, por descuido de palavras, favorecesse os sabelianistas, discípulos de Sabélio (falecido em 215 d.C.) que defendiam uma espécie de unitarismo, em que o Filho e o Espírito Santo seriam “modos” de manifestação de Deus, e não Pessoas co-substanciais com o Pai entre si, daí também ser chamado de “modalismo”. Os sabelianistas, por seu lado, provavelmente perceberam que a posição de Ário era muito mais grave e potencialmente já condenada, e trataram de não fazer alarde sobre suas próprias posições, a fim justamente de que pudessem depois distorcer o resultado do concílio a seu favor, o que por sinal terminou acontecendo. Havia, além disso, a presença do imperador em pessoa, mostrando a todos que era do seu mais profundo interesse uma solução pacífica o menos desagregadora possível. Não se sabe exatamente como é que as sessões de discussão se desenvolveram, mas tudo indica que Eusébio de Nicomédia tenha feito uma exposição inicial dos ensinos dele próprio e de seus “companheiros lucianistas” (um eufemismo para “arianos”) e aí ele foi muito mal ao advogar escancaradamente uma espécie de subordinação do Filho ao Pai, o que escandalizou a maioria dos bispos presentes. Mal a discussão começara e a causa ariana estava perdida por uma razão muito simples de entender: se o Filho não era tão Deus como o Pai, então não houvera sacrifício válido do Salvador, já que qualquer outra criatura poderia ter sido sacrificada no seu lugar, e isto era um pensamento em relação a Jesus extremamente ofensivo para a Igreja cristã. Toda a sua pregação de salvação em Cristo, a prevalecer essa ideia, cairia por terra. Alexandre, sempre assessorado por Atanásio, havia sido muito melhor diplomata que seus oponentes. A solução encontrada após longos debates foi estabelecer o Credo (que leva o nome do concílio) em que ficava claro que Jesus Cristo é “Filho de Deus, gerado do Pai, Unigênito, isto é, da substância do Pai, deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não-feito, de uma substância com o Pai, mediante o qual todas as coisas vieram a existir”. Curiosamente a palavra aqui traduzida por “substância” em “da substância do Pai” vem do grego homoousios (“consubstancial”) e foi sugerida pelo próprio Constantino. Quase todos os presentes assinaram o Credo de Niceia, com exceção de Ário e dois bispos líbios (uma das razões pelas quais se imagina que Ário também era líbio), que foram condenados e exilados na Ilíria. Eusébio de Nicomédia e Teógnis de Nicéia, que continuaram no erro após o concílio, depois foram depostos e exilados na Gália. Os livros de Árioforam queimados em razão dos anátemas proferidos na ocasião: “Os anátemas do concílio estendiam-se a todos aqueles que alegavam “que houve um tempo em que ele não existia”; “antes da Sua geração Ele não existia”; “Ele foi feito do nada”; “o Filho de Deus é de outra subsistência ou substância”; e “o Filho de Deus [é] criado ou alterável ou mutável”.”[6]. Como comenta Louis Berkhof:
Além das partes contendoras, havia um grande partido intermediário, que realmente constituía a maioria, sob a liderança de Eusébio de Cesaréia, o historiador da Igreja, sendo que aquele partido também era conhecido como partido origenístico, pois se fundamentava sobre os princípios de Orígenes. Esse partido tendia em favor de Ário, pois opunha-se à doutrina que o Filho é da mesma substância com o Pai (homoousios). Ele propusera uma declaração, redigida previamente por Eusébio, que concordava em tudo com o partido de Alexandre e Atanásio, com a única exceção da doutrina acima nomeada; e sugeria que a palavra homoousiosfosse substituída pelo termo homoiousios, para que ensinasse ser o Filho de substância similar à do Pai. Após considerável debate, finalmente o Imperador lançou o peso de sua autoridade na balança, dando a vitória ao partido de Atanásio. O concílio adotou a seguinte declaração a respeito da questão em pauta: “Cremos em um Deus, o Pai Todo-Poderoso, Criador das coisas visíveis e invisíveis. E em um Senhor Jesus Cristo, gerado, não criado, sendo da mesma substância (homoousios) com o Pai”, etc. Foi uma declaração inequívoca. Não se poderia torcer o vocabulário homoousios para que significasse outra coisa qualquer do que o fato de que a essência do Filho é idêntica à do Pai. Situava o Filho no mesmo nível com o Pai, como um Ser incriado, e reconhecia-o como autotheos[7].
Como a redação do Credo de Niceia permitia que, além dos sabelianos, outros grupos como o de Eustáquio de Antioquia e de Marcelo de Ancira (atual Ancara na Turquia) se sentissem autorizados a fazerem interpretações muito particulares de tipos velados de monarquianismo, em que o Filho teria algum grau de subordinação ao Pai. Aos poucos, essas desavenças teóricas foram minando os resultados do Concílio de Niceia, e por volta do ano 328, Eusébio de Nicomédia e Teógnis de Niceia foram autorizados a voltarem do exílio. Eusébio tinha amigos próximos na família imperial, e fazia de tudo para influenciar a visão moderada de Constantino, que gostava muito de botar panos quentes nas controvérsias eclesiásticas e arranjar um meio de acomodar todas as correntes contrárias no seio da Igreja. Os defensores do concílio predominaram por cerca de 5 anos após o seu término, afinal Roma, Alexandria e Antioquia eram presididas por fortes apoiadores de suas conclusões. Os arianos trataram, então, de se movimentarem politicamente e fizeram de tudo para mostrar ao imperador que não eram tão obstinados assim e queriam contemporizar. Existe a suposição, não confirmada, de que tenha havido um segundo sínodo em Niceia no ano 327, com muito menor afluência de bispos, que de alguma maneira teria reabilitado Ário, o que parece não corresponder à verdade dos fatos[8]. Ário escreveu uma carta ao imperador, dizendo-se pronto a aceitar um compromisso com a ortodoxia, subscrevendo o Credo de Niceia, fazendo com que Constantino fosse paulatinamente cedendo aos seus apelos.
Havia um problema, entretanto. Alexandre, o grande defensor da ortodoxia em Alexandria e no mundo cristão da época, morre em 17 de abril de 328, mas antes de morrer, segundo consta, teria já designado Atanásio como seu sucessor. É importante lembrar que a situação da igreja em Alexandria era explosiva. Além do perigo ariano, havia também melicianos[9] que ainda eram influentes na região, e Atanásio, além de jovem para o episcopado, era o inimigo comum deles. O maior inimigo deles até então, Alexandre, havia morrido, e os dois partidos queriam retomar o controle da sede patriarcal egípcia antes que um inimigo ainda mais temido, Atanásio, se assentasse na cadeira de bispo. Os aliados da ortodoxia foram mais rápidos, entretanto, e em 8 de junho consagraram Atanásio como patriarca de Alexandria. Sempre é importante lembrar que, nessa época, o bispo não era nomeado pelo bispo de Roma, como querem fazer crer os católicos romanos, mas eram escolhidos por seus pares da região. Entretanto, a pressa fez com que esse ato se processasse de maneira extremamente informal, e houve quem questionasse a sua validade (é fácil imaginar quem tinha interesse em ver Atanásio bem distante de Alexandria). A discussão chegou até Constantino, que, numa dessas atitudes misteriosas que contrariavam a índole e o pendor então ariano do imperador, confirmou Atanásio como bispo de Alexandria. É impressionante como Constantino, apesar de todas as críticas e teorias da conspiração que o envolvem, sempre tomou decisões corretas (e contrárias ao que pensava naquele preciso momento) quando se tratava de proteger a ortodoxia da fé cristã. Talvez Constantino imaginasse que Atanásio lhe seria grato pela sua concordância com sua consagração, e receberia Ário de braços abertos às portas da sede patriarcal, mas ao novo bispo importava antes agradar e obedecer a Deus que aos homens (Atos 5:29), mesmo que esse homem fosse um imperador romano poderoso como Constantino era. Atanásio se recusou terminantemente a qualquer tipo de reconciliação com Ário, bem como tratou de percorrer toda a sua jurisdição consolidando sua autoridade e pregando contra os arianos e melicianos, bem como procurando afastar suas ovelhas de qualquer possibilidade de contaminação com as heresias que esses grupos pregavam. Esses, por seu lado, trataram de se opor a Atanásio de todas as formas possíveis e imagináveis, tendo os melicianos chegado a nomear um antibispo[10], e ambas as correntes heréticas não cansavam de acusá-lo com as mais terríveis calúnias que lhe viessem a cabeça: corrupção, traição e até o assassinato do bispo meliciano Arsênio. Por ironia do destino, antes de qualquer possibilidade de investigação ou julgamento, Atanásio apresentou Arsênio vivo, são e salvo. Talvez não tão salvo assim...
Desnecessário dizer, portanto, que Constantino não via a hora de se livrar de Atanásio, ante a oposição reiterada desse às suas ordens. Sobre essa desavença entre os dois, o historiador Paul Johnson reproduz o trecho de uma carta enviada pelo imperador ao bispo por volta do ano 328: “como você conhece meus desejos, ore para admitir livremente todos que desejarem ingressar na igreja. Caso chegue aos meus ouvidos a notícia de que você impediu alguém de tornar-se membro, imediatamente enviarei um oficial para depô-lo e enviá-lo para o exílio”[11]. Houve, portanto, um sínodo marcado especialmente para puni-lo na Cesareia no ano 334, mas Atanásio não compareceu. No ano seguinte, o imperador apresentou nova acusação contra o patriarca de Alexandria, dizendo que ele teria ameaçado interromper os abastecimentos de trigo do Egito para Roma, e no sínodo de Tiro (em 335), presidido pelo bispo então eusebiano Flacilo de Antioquia (influenciado pelos dois Eusébios, o de Nicomédia e o de Cesareia), condena Atanásio e Constantino o exila em Trier (em 7 de novembro de 335). Antes, entretanto, em 17 de setembro de 335, o Sínodo de Jerusalém havia resolvido restaurar Ário à comunhão “em presença do imperador Constantino e dos dois Eusébios, depois dele haver apresentado uma profissão de fé satisfatória, e exigiu das igrejas de Alexandria e do Egito que dessem o cisma por encerrado”[12]. O imperador então determina que Ário reassuma suas funções com outro Alexandre, patriarca de Constantinopla. Este, contrariado, teria orado fortemente pedindo a Deus que Ário morresse antes que isso ocorresse. A reza deve ter sido braba, pois na véspera do dia em que isso aconteceria, já no ano 336, Ário morre em condições misteriosas. Alguns historiadores ainda criaram versões míticas, tentando atribuir sua morte súbita a algum tipo de castigo divino, mas a causa mais provável, dado os costumes daquele tempo, é que ele tenha sido envenenado. Terminava assim a carreira do maior heresiarca que a Igreja primitiva conheceu. Constantino morre em 22 de maio de 337, mas dizem os historiadores que ele teria esperado até os últimos dias de vida para ser batizado, ato que foi realizado no seu leito de morte pelo bispo ariano Eusébio de Nicomédia, em outra dessas muitas ironias do destino que cercam os personagens da controvérsia ariana.
O império romano é dividido então entre os três filhos de Constantino: Constantino II (a quem coube a Europa Ocidental e o norte do atual Marrocos na África), Constâncio II (Ásia Menor, Oriente Médio e Egito) e Constante (Europa Central, Itália e Norte da África até a Líbia). No princípio, Constantino II era tutor de seu irmão menor Constante, e comandava o território que cabia a este último, mas uma vez que Constante atingiu a maioridade, seu irmão mais velho não quis lhe devolver o controle da parte que lhe cabia, pelo que houve uma guerra entre os dois, e Constantino II morre em 340, na batalha de Cervenianum, na Aquileia, ficando Constâncio como imperador também do território que havia sido legado pelo pai ao finado irmão. Tréveris (atual Trier e – curiosamente – cidade natal de Karl Marx), onde Atanásio estava exilado, ficava no nordeste da então Gália (no sudoeste do território hoje pertencente à Alemanha), nos limites entre o Império Romano e os povos germânicos, sob a jurisdição de Constantino II, que permitiu então que o bispo proscrito voltasse para Alexandria, convocando um novo sínodo para Tiro em 338, a fim de confirmar sua decisão e anular a condenação anterior. Os eusebianos provocaram uma rebelião civil em Alexandria , colocando Gregório da Capacócia à força no patriarcado local e Atanásio teve que abandonar a cidade em 18 de março de 339, buscando imediatamente refúgio em Roma, onde o papa Júlio o acolheu e tomou seu partido, buscando restaurá-lo a bispo de Alexandria em 341, mas Constâncio II, imperador do Oriente que tinha jurisdição sobre Alexandria, reuniu um concílio em Antioquia para manter a condenação de Atanásio. Um novo concílio foi realizado em Sérdica nos anos de 342 e 343, buscando apaziguar as posições do Oriente e do Ocidente, sem sucesso. Gregório capadócio não teve vida fácil em Alexandria, já que havia tomado posse do patriarcado com a ajuda da milícia imperial, e sua nomeação era vista como irregular pelos bispos egípcios porque ele havia sido ordenado fora da sede patriarcal, vindo a morrer ali mesmo em 25 de junho de 345. Sob pressão de seu irmão, o co-imperador Constante, Constâncio II se absteve de substitui-lo e, a contragosto, chamou Atanásio de volta. Este resistiu um pouco ainda, mas acabou aceitando e, em 21 de outubro de 346, fez seu retorno triunfal a Alexandria, sendo muito bem recebido por sua antiga igreja.
Começa aí, então, a chamada “década de ouro” de Atanásio, período em que pode se dedicar a seus trabalhos pastorais, literários e intelectuais com toda a genialidade que lhe era característica. Em 348 escreve “Apologia contra os Arianos”, uma obra em três livros em que narra a sua perspectiva sobre a controvérsia ariana. Entre 350 e 351 escreve a “Epístola sobre o Decreto do Concílio de Niceia”, em que faz uma defesa apaixonada do termo homoousios (“consubstancial”, “da mesma substância”) para a relação entre Deus Pai e Deus Filho. A relativa calma é interrompida pela preocupação com o assassinato de seu protetor Constante em 18 de janeiro de 350 e a unificação do império debaixo do comando de seu inimigo Constâncio II no mesmo ano. O novo imperador ainda passou 3 anos preocupado com o usurpador Magnêncio até batê-lo em 353, e a partir daí tratou de uniformizar a visão religiosa do império de acordo com suas tendências arianas. Atanásio foi condenado então em dois concílios ocidentais, em Arles (353) e Milão (355). Diante da resistência alexandrina, ele consegue fugir de uma tentativa de prisão levada a cabo pelo general Siriano na igreja de São Teonas em 8 de fevereiro de 356, e se esconde no deserto, onde conhece os eremitas que por lá vagavam, onde escreve várias cartas e alguns livros em sua defesa, e encontra inspiração para escrever “Vida e Conduta de Santo Antão”, um tratado não só biográfico sobre Antão, mas um registro histórico essencial para se entender o que foi o monaquismo (os “padres do deserto”) no início da Igreja cristã. Entretanto, o historiador Paul Johnson aponta outra razão para Atanásio buscar um relacionamento mais próximo com os padres do deserto: eles “falavam copta, como as massas egípcias, e traduziam em termos familiares, além de popularizar, sob a forma de bordões, as complexas formulações dos especialistas teologais”[13]. Assim, mesmo no exílio, Atanásio buscava uma forma de comunicar as grandes verdades doutrinárias da fé cristã de maneira que todo o povo sob seus cuidados as entendesse.
Outro capadócio, de nome Jorge (não o santo do dragão) é nomeado bispo de Alexandria em 24 de fevereiro de 357, mas se porta da maneira tão violenta contra os partidários de Atanásio e mesmo os pagãos da cidade que é expulso de lá a 2 de outubro de 358, regressando após 3 anos, mas para sua infelicidade, seu protetor Constâncio II morre alguns dias antes dele reassumir sua sede patriarcal, em 26 de novembro de 361, pelo que foi vítima de nova rebelião popular conjunta de pagãos e cristãos que o encarceram na véspera do Natal daquele ano, mas a multidão revoltada o retira à força da prisão e o linchou, juntamente com dois funcionários da administração imperial, tal era o ódio que ele despertava na população. Sabedor da situação nada favorável aos arianos em Alexandria, o novo imperador Juliano revogou o decreto de exílio de Atanásio no bojo de uma decisão íntima sua que era – na verdade – restaurar o paganismo no Império, e o grande bispo retornou uma vez mais à sua cidade, em 21 de fevereiro de 362. Entretanto, por se envolver em nova disputa contra o ortodoxo Melécio, que era apoiado por Basílio de Cesareia, desta vez em Antioquia, onde Atanásio defendia a nomeação do presbítero também niceno Paulino àquela outra sede patriarcal, isto porque Melécio era apoiado pelo amigo Acácio de Cesareia, que havia sucedido Eusébio naquela igreja e tinha sido um dos perseguidores eusebianos de Atanásio . Esse novo movimento político-religioso de Atanásio – que agora não tinha um substrato ariano - não foi bem recebido por Juliano, que considerava o bispo de Alexandria o seu “maior inimigo”[14] e novamente o exilou 8 meses após havê-lo readmitido, em 24 de outubro de 362. Entretanto, nesse curto período, Atanásio convocou um sínodo que representou um golpe mortal nas pretensões arianas, como conta Justo L. González:
A falta de precisão nos termos empregados nessa discussão foi uma das dificuldades que a igreja do século 4º encontrou na tentativa de esclarecer o relacionamento entre o Pai e o Filho. No Ocidente, uma terminologia mais fixa já havia sido alcançada, e o termo “substância” era usado para se referir à divindade única e comum, enquanto que a individualidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo era expressa por meio do termo “pessoas”. O Oriente, por outro lado, não havia a mesma precisão e firmeza na terminologia. Para os teólogos orientais, ousia e hypostais eram sinônimos – e como tais eram usadas nos anátemas acrescentados ao credo niceno – e não havia termo que pudesse traduzir adequadamente “persona” do latim, pois o grego “prosopon” poderia ensejar interpretações sabelianas. Portanto, quando os defensores nicenos falavam de uma única ousia, muitos bispos orientais viam isto como uma tentativa de reintroduzir o sabelianismo. E quando os bispos mais conservadores – neste caso os homoiousianos – falavam de uma dualidade de ousiai, os nicenos pensavam que isto era meramente uma nova forma de arianismo. [...]
Foi nesta conjuntura que Atanásio deu um passo decisivo que levaria finalmente à vitória da fé nicena: em um sínodo reunido em 362 d. C., foi declarado que as diferenças verbais não eram importantes, contanto que o significado fosse o mesmo. Assim, ambas as frases “três hipóstases” e sua contraparte “uma hipóstase” são aceitáveis contanto que a primeira não seja interpretada de tal modo que apoie o triteísmo ou a última de um modo sabeliano. Com esta decisão, o grupo niceno abriu caminho para uma aliança com a maioria conservadora. Começava agora um longo processo de esclarecimento do significado dos vários termos, com vistas a alcançar uma fórmula aceita por todos e a consequente condenação definitiva do arianismo.
A importância do sínodo de Alexandria de 362 d. C. não está limitada a seu espírito conciliador, mas é devida também a sua posição quanto ao Espírito Santo. O arianismo, ao negar a divindade absoluta do Verbo, era levado à mesma conclusão com relação ao Espírito Santo. E os bispos reunidos em Niceia, ao concentrarem sua atenção na divindade do Verbo – que era o ponto crucial da controvérsia – não deram muita importância à questão do Espírito; simplesmente, subscreveram a frase: “e no Espírito Santo”. Portanto, o Concílio de Niceia não discutiu a questão trinitariana como um todo. Durante os anos entre este Concílio e o sínodo alexandrino de 362 d. C., porém, na tentativa de esclarecer e definir os assuntos em debate, muitos teólogos deram mais atenção à questão da divindade do Espírito Santo.[15]
Exilado de novo, Atanásio então proferiu uma pequena profecia que se tornou famosa: “É somente uma nuvenzinha e passará logo”. De fato, 8 meses depois, em 26 de junho de 363, Juliano é ferido mortalmente numa batalha contra os persas e seu sucessor, Joviano, era fiel aos cânones de Niceia, e determina o retorno de Atanásio a Alexandria. Só que, quando ele já havia regressado à sede patriarcal, Joviano morre desafortunadamente em 17 de fevereiro de 364, vítima do braseiro que estava dentro de seus aposentos fechados, e seu sucessor, Valentiniano, embora neutro em questões eclesiásticas, nomeia o irmão Valente, simpatizante da posição ariana, como imperador do Oriente, pelo que retomou os decretos de Constâncio II, tentando impor a visão herética à população de Alexandria. Desta vez, Atanásio dá um toque de espontaneidade a seu forçado vai-vém alexandrino e se afasta pacificamente de sua diocese em 5 de outubro de 365. O imperador, entretanto, expede um edito em 1º de fevereiro de 366, permitindo-lhe voltar. Atanásio tem agora cerca de 70 anos de idade, e a partir daí não é mais perturbado por ninguém. Em 367, Atanásio mostra a sua importância em outra seara, a formação do cânon do Novo testamento, quando apresenta uma lista dos livros canônicos em suas “Cartas Pascais”. Dirige sua amada sede patriarcal apor mais 7 anos, até que na noite de 2 ou 3 de maio de 373, quando imaginava alguma maneira de auxiliar Basílio de Cesareia (que insistia na unificação da igreja de Antioquia), parte para os braços do Senhor após uma longa, conturbada mas abençoada vida de serviço cristão e fortalecimento dos irmãos na verdadeira fé. Como diz Jacques Liébaert, “se a cristandade foi capaz de superar uma das mais graves provas de sua história, é em boa parte a esse homem intransigente e inflexível, firme na sua crença, a esse bispo antes de tudo preocupado com o bem da Igreja, que ela o deve”[16]. Sucede-o seu discípulo valioso Dídimo, o Cego, que havia perdido a visão aos 4 anos de idade, mas era dono de uma memória prodigiosa, e que manterá a ortodoxia em Alexandria durante toda sua vida, num período de paz que Atanásio não chegou a experimentar, mas contribuiu decisivamente para que ocorresse.


Notas

1. Gregory Nazianzus, Select Orations, Sermons, Letters; Dogmatic Treatises, transcrito in Nicene and Post-Nicene Fathers, 2nd Series, ed. P. Schaff and H. Wace, (repr. Grand Rapids MI: Wm. B. Eerdmans, 1955), VII, pp. 270-271
2. Hubertus R. Drobner, “Manual de Patrologia”, Petrópolis: Vozes, 2003, pp. 256-257
3. Giuseppe Alberigo (org.), “História dos Concílios Ecumênicos”. São Paulo: Paulus, 1995, p. 21
4. Introdução a “Santo Atanásio”. Coleção Patrística. São Paulo: Paulus, 2002, p. 11
5. Idem, op. cit., p. 139
6. Walter A. Elwell (org.), “Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã”. São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 106
7. Louis Berkhof, “A História das Doutrinas Cristãs”, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 80
8. Hubertus R. Drobner, op. cit., p. 219
9. Pedro era o patriarca de Alexandria entre 300 e 311, ano em que foi decapitado pela repressão de Diocleciano. Pedro passou boa parte do seu episcopado preso juntamente com vários outros líderes durante a última perseguição no Egito, que durou de 303 a 312, e Melício de Licópolis aproveitou a ausência do patriarca para rejeitar toda e qualquer reconciliação de cristãos – salvo por rebatismo - que haviam negado a fé diante da tortura e ameaça de morte, bem como tratou de nomear e ordenar novos bispos para as sedes vacantes de cada igreja sob a jurisdição de Alexandria, gerando um cisma na igreja. Num dos intervalos entre um cárcere e outro, Pedro reassumiu sua sede patriarcal e condenou Melício e seus seguidores, que, entretanto, continuaram fortes por algum tempo naquela região.
10. “Os melicianos, que haviam escolhido um antibispo, uniram-se depois com o partido ariano agrupado em torno de Eusébio de Nicomédia e tentaram conseguir a deposição de Atanásio através de processos criminais.” (Hubertus R. Drobner, op. cit., p. 257)
11. Paul Johnson, “História do Cristianismo”. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001, p. 107
12. Hubertus R. Drobner, op. cit., p. 219
13. Paul Johnson, op. cit., p. 115
14. Introdução a “Santo Atanásio”. Coleção Patrística. São Paulo: Paulus, 2002, p. 21
15. Justo L. González, “Uma História do Pensamento Cristão”. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. Vol. I, pp. 275-276
16. Jacques Liébaert, “Os Padres da Igreja [Séculos I – IV]”. São Paulo: Loyola, 2000, vol. 1, p. 167