sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

MORTO-VIVO


“Eu sou o homem que viu a aflição pela vara do furor de Deus. Ele me levou e me fez andar em trevas e não na luz. Deveras ele volveu contra mim a sua mão, de contínuo todo o dia. Fez envelhecer a minha carne e a minha pele, despedaçou os meus ossos. Edificou contra mim, e me cercou de veneno e de dor. Fez-me habitar em lugares tenebrosos, como os que estão mortos para sempre. Cercou-me de um muro, já não posso sair; agravou-me com grilhões de bronze. Ainda quando clamo e grito, ele não admite a minha oração. Fechou os meus caminhos com pedras lavradas, fez tortuosas as minhas veredas. Fez-se-me como urso à espreita, um leão de emboscada. Desviou os meus caminhos, e me fez em pedaços; deixou-me assolado. Entesou o seu arco, e me pôs como alvo à flecha. Fez que me entrassem no coração as flechas da sua aljava. Fui feito objeto de escárnio para todo o meu povo, e a sua canção todo o dia. Fartou-me de amarguras, saciou-me de absinto. Fez-me quebrar com pedrinhas de areia os meus dentes, cobriu-me de cinza. Afastou a paz de minha alma; esqueci-me do bem. Então disse eu: Já pereceu a minha glória, como também a minha esperança no Senhor. Lembra-te da minha aflição e do meu pranto, do absinto e do veneno. Minha alma continuamente os recorda, e se abate dentro em mim. Quero trazer à memória o que me pode dar esperança”. (Lamentações 3:1-21)

Quando eu era criança, apesar de toda a violência que sofri, eu ainda tinha mais esperança. Ultimamente, não acredito que nasci para ser feliz. Quando as coisas estão boas demais, eu já desconfio. Nunca tive sorte na vida. Não conquistei nada durante a minha existência, e nunca encontrei um grande amor. Por que o bom Deus não molha a ponta de seu dedo para poder me refrescar a língua? Estou sedento. Não sei se estou morto ou vivo. A minha respiração está ofegante. O meu coração está acelerado, mas, logo, parará de bater. Os meus olhos estão se escurecendo. A minha pele e os meus ossos estão ressecados. A minha carne está apodrecendo. O ambiente é pesado e tem cheiro de morte. Ouço gritos e choros desesperados. Vejo somente cadáveres por todos os lados. Sigo os rastros de sangue, na tentativa de encontrar a saída. Aqui é o Inferno, e a minha alma está sedenta.

“Maldito o dia em que nasci; não seja bendito o dia em que me deu à luz minha mãe. Maldito o homem que deu as novas a meu pai, dizendo: Nasceu-te um filho; alegrando-o com isso grandemente. Seja esse homem como as cidades que o Senhor, sem ter compaixão, destruiu; ouça ele clamor pela manhã, e ao meio-dia, alarido. Por que não me matou Deus no ventre materno? Por que minha mãe não foi minha sepultura? Ou não permaneceu grávida perpetuamente? Por que saí do ventre materno tão-somente para ver trabalho e tristeza, e para que se consumam de vergonha os meus dias”? (Jeremias 20:14-18)

Amaldiçôo o dia em que nasci, porque preferia não ter nascido. A dor que sinto não posso descrevê-la. O meu coração está machucado e cheio de pus; ele apodrece de tal maneira que já cheira até mal. A minha pele se parece com a pele de um leproso. Os meus cabelos e pêlos do meu corpo caem sem parar. O odor que sai do meu corpo é insuportável. Não sei mais o que fazer. Ó, Deus, o que devo fazer para aplacar a minha dor? Como poderei voltar a viver como antes? A minha esperança se foi. Como poderei devolver a alegria ao meu coração? A minha alma está abatida. Ó, Altíssimo, tenha piedade de mim! Por favor, Deus Vivo, tenha misericórdia desse pobre e podre verme!

“Senhor, Deus da minha salvação, diante de ti tenho clamado de dia e de noite. Chegue a minha oração perante a tua face, inclina os teus ouvidos ao meu clamor. Porque a minha alma está cheia de angústias, e a minha vida se aproxima da sepultura. Já estou contado com os que descem à cova; estou como um homem sem forças, posto entre os mortos; como os feridos de morte que jazem na sepultura, dos quais te não lembras mais; antes, os exclui a tua mão. Puseste-me no mais profundo do abismo, em trevas e nas profundezas”. (Salmo 88:1-6)

O meu coração se azedou, e sinto picadas nos meus rins. O sangue jorra por todos os orifícios de meu corpo. Golpearam-me no coração. O sangue jorra sem parar. O meu carrasco segura o meu coração fortemente e o esmaga com a força de seus dedos. A minha visão está turva, e os meus ouvidos estão se silenciando. O meu nariz não cheira mais. Sinto muito frio, e o meu sangue esfriar. Somente Deus pode me salvar.

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