domingo, 11 de fevereiro de 2018

ESTADO CRISTÃO (ROMANOS 13:1-7)


Mas se a autoridade governante, permanecendo dentro dos limites, é parte da ordem de criação de Deus, se o Estado também pertence essencialmente à ordem da criação e não à ordem da Salvação, então não pode existir Estado cristão.
Claro que os portadores do ofício de governo podem ser cristãos. A partir deles pode-se exigir uma consciência especial da natureza de seu ofício e uma medida especial de desempenho em seu dever, mas seus deveres são os mesmos que todas as autoridades governantes da Terra têm. Existe uma remota possibilidade de um Estado cristão, como existe de uma "agricultura cristã" e de uma "tecnologia cristã”.
A rigidez do "condenamos” [condenação] da Augustana (N.T.: Confissão de Augsburgo, confissão de fé do luteranismo) atingiria os recentes defensores luteranos da doutrina de um "Estado cristão" tanto quanto o Cristianismo romano e os Schwärmer (N.T.: entusiastas) se fosse possível prever esta falsificação posterior da doutrina evangélica [luterana]. A Palavra de Deus não fornece nenhuma lei estatal. Na Apologia (16,15) (N.T.: Apologia da Confissão de Augsburgo, também documento confessional luterano), Karlstadt é chamado de “louco e tolo" porque ensinou "que se deve estabelecer o governo da cidade e do território de acordo com a lei de Moisés" (Ap XVI 3 [55]). É expressamente afirmado que o Evangelho não oferece nenhuma lei nova para o governo secular (Leges de statu civili) [Ap XVI 3 e 6 (55 e 58)] e que Cristo não ordenou aos apóstolos que mudassem a ordem civil (mutare statum civilium) [Ap XVI 7 (59 )].
Não há uma "ordem cristã” para a sociedade, pois essa seria uma tentativa de fazer desaparecer o pecado do mundo, em que o amor substituiria o lugar da lei, ou seja, que o reino de Deus viria em glória. Mas como a ordem da natureza - metade da ordem criada - deixará de existir na nova criação de Deus no novo céu e na nova terra ("não haverá mais morte", Ap 21: 4; "não haverá mais a noite "21: 25), então a ordem secular da lei - a outra metade da ordem criada - deixará de existir no último julgamento, ao qual toda a ordem jurídica [Rechtsordnung] visa. Portanto, na Augustana, o artigo sobre o governo secular é imediatamente seguido pelo artigo sobre o retorno de Cristo ao julgamento, uma correspondência que é elucidada pelo décimo quarto artigo de Schwabach: "Assim (entretanto), até que o Senhor venha para julgamento e todos os poderes e a leis deixem de existir, o governo secular [weltliche Obrigkeit] e a lei devem ser honrados e obedecidos como um estado ordenado por Deus, para proteger os piedosos e punir o mal". Mesmo sendo um “glorioso e excelente ofício”, o cargo de autoridade governante, na História do Cristianismo, nunca foi tão descrito como "este alto e necessário artigo” como na Augustana (Apologia da Confissão XVI [13] 65).
Agora, ao lado do ofício do governo secular é colocado o ofício espiritual; ao lado do Estado, a Igreja, e cada um é delimitado pelo outro. “Dessa maneira, os nossos fazem distinção entre os ofícios de ambos os poderes e ordenam que ambos sejam honrados e reconhecidos como dom e benefício de Deus” [Confissão de Augsburgo XXVIII 18]. Tudo depende das distinções adequadas. “Por isso não se deve baralhar e confundir o poder [Regemente] espiritual e o secular. Pois o poder espiritual tem a ordem de pregar o Evangelho e administrar os sacramentos. Também não deve invadir ofício alheio. Não deve entronizar e destronar reis, não deve revogar ou minar as leis civis e a obediência ao governo, não deve fazer e prescrever ao poder secular leis a respeito de matéria secular (non praescribat leges magistratibus de forma rei publicae), conforme disse o próprio Cristo: “O meu reino não é deste mundo”. [Confissão de Augsburgo XXVIII 12-14, citando João 18: 36]
Sasse, Hermann. THE SOCIAL DOCTRINE OF THE AUGSBURG CONFESSION AND ITS SIGNIFICANCE FOR THE PRESENT. Disponível em https://goo.gl/Pp4bVc acessado em 18/11/2017. 
Tradução Thiago Surian

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